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Neurologia

Como funciona a neuromodulação para tratar sequelas de AVC

Técnica pode ajudar na recuperação de funções motoras, de linguagem e cognitivas após um AVC, mas deve ser usada como complemento à reabilitação tradicional

O acidente vascular cerebral (AVC) é uma das principais causas de incapacidade no Brasil e no mundo. Isso porque o derrame pode deixar sequelas como paralisia de um lado do corpo, dificuldade para andar, perda da fala ou problemas de compreensão. Nos últimos anos, porém, uma técnica tem ganhado espaço como aliada da reabilitação: a neuromodulação.

A neuromodulação é um procedimento que usa estímulos elétricos ou magnéticos aplicados em regiões específicas do cérebro para ajudar o sistema nervoso a se reorganizar. Ela não “cura” o AVC, mas pode ajudar áreas saudáveis do cérebro a assumirem parte das funções perdidas.

O AVC acontece quando uma artéria do cérebro é obstruída por um coágulo ou se rompe, causando sangramento. Sem oxigênio, as células daquela região começam a morrer em poucos minutos — e é isso que gera as sequelas.

 

Como a neuromodulação funciona

A neuromodulação ajuda o restante do cérebro, especialmente as áreas ao redor da lesão, a se reorganizar e funcionar melhor, segundo Kristel Back Merida, médica neurologista.

“A gente pode fazer a neuromodulação na área afetada, onde houve o AVC. A ideia é estimular as áreas vizinhas para tentar melhorar a plasticidade cerebral e fazer com que outras áreas saudáveis tentem assumir a função da área que foi acometida pelo AVC”, explica. 

Também é possível aplicar a técnica no hemisfério contralateral, ou seja, no lado oposto ao da lesão. “Quando ocorre um AVC numa área, o outro lado funciona mais para tentar suprir aquele tecido cerebral que foi danificado. Isso [o hiperfuncionamento do hemisfério não afetado] atrapalha um pouco a reabilitação. Quando a gente faz a neuromodulação nesse hemisfério que não foi afetado, a gente tenta reduzir um pouco a excitabilidade dele, esse hiperfuncionamento, para que o hemisfério do AVC consiga se reabilitar”, complementa a especialista. 

Veja também: Reabilitação precoce pós-AVC ajuda a reduzir sequelas e recuperar autonomia

 

Tipos de neuromodulação

Segundo Marcelo Valadares, neurocirurgião funcional e pesquisador da disciplina de neurocirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a neuromodulação pode ser dividida, basicamente, em dois grandes grupos: invasiva e não invasiva.

A neuromodulação invasiva é feita com dispositivos e eletrodos implantados no corpo por meio de cirurgia. Já a não invasiva usa estímulos elétricos ou magnéticos aplicados por aparelhos externos, em clínicas e, em alguns casos, até em casa. 

No caso específico da reabilitação após um AVC, segundo o especialista, essas técnicas invasivas ainda têm uso limitado e ficam mais restritas a pesquisas científicas.

Na prática clínica, o que mais se usa são técnicas não invasivas, principalmente a estimulação magnética transcraniana repetitiva (EMTr) e a estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS). 

A EMTr usa pulsos magnéticos aplicados do lado de fora da cabeça para estimular áreas específicas do cérebro e ajudar a regular seu funcionamento. Já a tDCS usa uma corrente elétrica fraca e contínua no couro cabeludo para modular a atividade do cérebro e facilitar seu funcionamento.

 

Neuromodulação não é uma técnica isolada

Esse é um ponto central. As técnicas de neuromodulação são desenvolvidas para serem usadas junto com os exercícios de reabilitação. A neuromodulação é como um amplificador dos exercícios motores ou de fala. 

“Os principais protocolos devem ser aplicados simultaneamente ou com diferença de minutos a horas dos exercícios. É necessário que se escolha para o paciente um conjunto de exercícios de reabilitação e protocolo de neuromodulação focado no déficit que ele apresenta para que sejam usados em conjunto”, afirma o dr. Marcelo. 

 

Quem pode fazer?

Segundo a dra. Kristel, qualquer paciente que ficou com sequelas neurológicas pode ser candidato à terapia de neuromodulação, seja após um AVC isquêmico (quando há obstrução de um vaso e o sangue não chega a uma parte do cérebro) ou um AVC hemorrágico (quando um vaso se rompe e ocorre sangramento no cérebro).

Antes do início do tratamento, segundo a médica, é preciso uma avaliação para entender bem as características do AVC e do paciente, além de comorbidades, causas, medicamentos em uso e possibilidade de fazer terapias. 

Pacientes mais idosos podem ter mais fatores de risco, então os resultados podem ser um pouco mais lentos, mas isso não exclui a indicação. “AVCs maiores também são mais graves, então os resultados podem ser inferiores, mas também não é uma contraindicação”, explica a neurologista.

As principais contraindicações são epilepsia não controlada e alguns tipos de implantes metálicos no cérebro ou implante coclear.

Outro ponto importante são as expectativas com o tratamento. O dr. Marcelo diz que as expectativas desproporcionais devem ser mitigadas com boa orientação pré-procedimento. “O paciente e seus familiares devem ter ciência que a neuromodulação não cura o AVC. A doença já se instalou e a intenção é aliviar um problema específico ou pelo menos um por vez”, esclarece. 

Veja também: Como é a recuperação depois de um AVC? – DrauzioCast #206


O que a ciência diz sobre a neuromodulação

Existem alguns estudos e meta-análises de estudos apontando benefício em déficits motores, de linguagem e cognição. “O grande problema é a heterogeneidade de protocolos (frequência, timing, dose, duração) que dificulta a análise em conjunto reduzindo o grau de evidência”, afirma o neurocirurgião. 

Uma revisão de 57 artigos mostrou que a EMTr tem o potencial de beneficiar uma série de resultados motores e cognitivos após um AVC. Os pesquisadores encontraram efeitos positivos significativos em funções como força muscular, coordenação e sinergia dos membros superiores, linguagem, cognição global e atenção visual e espacial, especialmente nos primeiros três meses após o derrame.

Outra revisão de estudos, que analisou 37 pesquisas clínicas, também concluiu que a técnica pode favorecer a recuperação motora após um AVC, com resultados mais consistentes quando o tratamento é iniciado dentro dos primeiros seis meses após o evento.

 

Como é o tratamento no Brasil

No Brasil, técnicas de neuromodulação invasiva já são usadas há décadas para outras indicações neurológicas e psiquiátricas. As técnicas não invasivas (EMTr e tDCS) têm equipamentos registrados na Anvisa e estão disponíveis no país, mas suas principais indicações clínicas hoje ainda são depressão resistente, dor crônica e mapeamento cerebral pré-operatório.

Para reabilitação pós-AVC, a oferta é mais restrita, geralmente concentrada em grandes centros com experiência em protocolos específicos.

No SUS, de acordo com o dr. Marcelo, a neuromodulação não invasiva não está incorporada de forma padronizada para AVC.

Nos planos de saúde, a cobertura da EMTr é formalmente prevista apenas para depressão resistente. Na prática, outros usos podem ser buscados por via administrativa ou judicial, já que o rol da ANS hoje é interpretado juridicamente como não taxativo.

Veja também: Por que os casos de AVC têm crescido entre os mais jovens?

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