Como cuidar de uma pessoa com demência?

Cuidar de alguém com demência pode ser desafiador para parentes e cuidadores; se informar sobre a doença, pedir ajuda e se cuidar podem tornar a tarefa mais leve.


Equipe do Portal Drauzio Varella postou em Neurologia

close em mãos de cuidador sobre as mãos de idosa com demência sentada em cadeira de rodas

Compartilhar

Publicado em: 01/11/2023

Revisado em: 13/11/2023

Cuidar de alguém com demência pode ser desafiador para parentes e cuidadores; se informar sobre a doença, pedir ajuda e se cuidar podem tornar a tarefa do cuidador mais leve.

 

Cuidar de uma pessoa com demência é um desafio porque envolve tomar conta de alguém, em geral idoso, que está passando por um processo de perda de funções cognitivas, principalmente da memória, e da capacidade de realizar atividades cotidianas de forma independente. Realizar essa tarefa não é fácil, mas pode se tornar mais leve quando o cuidador se informa sobre a doença, conta com uma rede de apoio e também quando prioriza o autocuidado.

A demência é um termo genérico que engloba vários tipos de quadros que envolvem o declínio progressivo de funções mentais, como atenção, memória, linguagem e raciocínio, e que afetam também o comportamento. 

Veja também: Entrevista sobre demências

A doença de Alzheimer, a demência vascular e um quadro misto, que envolve essas duas, são os tipos de demência com maior incidência. As causas variam, podendo ser genéticas e hereditárias, no caso do Alzheimer, por exemplo. E há também a possibilidade da demência se desenvolver em decorrência de fatores de risco cardiovascular, como pressão alta, diabetes, colesterol, tabagismo, sedentarismo, obesidade, como é o caso da demência vascular.

 

Sintomas de demência

O dr. Pablo Lorenzon, neurologista do Hospital Universitário Lauro Wanderley da Universidade Federal da Paraíba (UFBP), explica que essas e outras formas de demência têm em comum sintomas como a perda da memória para fatos recentes.    

“Às vezes, [o paciente] é um pouco repetitivo em perguntar uma coisa uma segunda, terceira vez. Ou, às vezes, contar uma história mais de uma vez. Começar a ficar desorientado ou descuidado em relação ao tempo. Perder a noção dos dias da semana. Eventualmente, começa também a ter algum prejuízo para a independência em relação às coisas que faz. Começar a esquecer de tomar os remédios”, enumera o dr.

O neurologista cita também como sintomas comuns aos vários tipos de demência mudanças no comportamento. “Ficar mais depressivo, sem vontade de fazer as coisas que gostava, alteração de sono e até, em alguns casos, alterações de natureza mais para a agressividade, até um pouco de agitação, de baixa tolerância à contrariedade. Então, a pessoa fica, de fato, diferente, né?”, afirma.

        Veja também: Como lidar com o paciente de Alzheimer?

 

Maioria das demências não tem cura 

De acordo com o dr. Lorenzon, a maioria dos tipos de demência não tem cura, mas há tratamentos que podem ajudar a controlar os sintomas. “Não há cura para as formas genéticas degenerativas de demência, nem mesmo para o tipo vascular. Apenas controle de sintomas”, afirma.

Ele acrescenta, no entanto, que existem as chamadas demências tratáveis ou reversíveis, que representam cerca de 15% dos casos de demência. “São aquelas em que conseguimos determinar uma causa e o tratamento é específico. Por exemplo: depressão grave (pseudodemência), drogas ou álcool, hipotireoidismo, deficiência de vitamina B12, hidrocefalia de pressão normal e encefalites”, cita.

 

Mais comum em idosos

O médico afirma que a demência é mais comum em pessoas idosas, com mais de 65 anos, mas não faz parte do processo natural de envelhecimento. “A gente tem que ter muita atenção porque boa parte das vezes os familiares atribuem: ‘Ah, isso é da idade’. Não, a gente tem muitos pacientes idosos, com mais de 90 anos, que têm a cognição perfeitamente saudável. Então, se tem alguma coisa acontecendo, é da idade, sim, mas é possível que tenha doença envolvida”, chama a atenção. 

O dr. recomenda, caso parentes e pessoas próximas percebam alterações como as que foram descritas por ele, que o idoso seja levado a um neurologista para que sejam feitos exames para um diagnóstico preciso.  

        Ouça: Saúde sem Tabu #13 | Virei cuidador, e agora?

 

Cuidados com pessoas com demência

O dr. Lorenzon reconhece que cuidar de uma pessoa com demência não é algo fácil, pelo contrário: “Os familiares, os cuidadores realmente têm um fardo bastante grande para carregar”.

Para aliviar esse peso, o médico sugere que parentes e cuidadores tentem contar com algum tipo de rede de apoio, seja de parentes, de amigos ou, caso seja possível, contratando cuidadores profissionais. “Mesmo para cuidadores treinados, não é simples cuidar de pacientes dessa forma”, afirma. 

Além disso, o neurologista enumera uma série de medidas que podem ajudar no cuidado diário de uma pessoa com demência:

  • Comunicação:

Pessoas com demência podem não ser capazes de interpretar com precisão o que você quer dizer. Fale pausadamente. Falas curtas e diretas facilitam a compreensão. Mantenha contato visual enquanto estiver falando.

  • Segurança: 

À medida que a doença evolui, a memória e o julgamento da pessoa com demência vão piorando, de forma gradativa. Em geral, ela não sabe como evitar situações perigosas. 

Para garantir a segurança dela, mantenha os ambientes claros e de fácil circulação, mesmo à noite. Retire objetos e tapetes que possam contribuir para quedas. Coloque barras de apoio perto do vaso sanitário e no boxe do banheiro. Bloqueie o acesso às escadas. Mantenha substâncias tóxicas, facas e objetos cortantes longe do alcance da pessoa com demência.

  • Rotina:

Tente estabelecer uma rotina simples para a pessoa com demência, com horários de banho, refeições e de dormir. Expor a pessoa ao sol regularmente também é essencial. “Isso é importante para ter o relógio biológico regulado, para conseguir dormir bem à noite”, explica o dr. Lorenzon. 

“Existe uma coisa muito desagradável para os cuidadores que é o chamado fenômeno do pôr do sol, o ‘sundowning’. Boa parte dos pacientes com quadro delimitado passa a ficar mais agitados, confusos, inquietos e até agressivos quando começa a entardecer, quando o sol começa a ir embora. Tem que fazer uma rotina para evitar o incômodo”, sugere. 

  • Exercícios físicos:

A prática regular de atividades físicas, como caminhadas, podem ajudar a melhorar o sono.

  • Interação:

Estimule o indivíduo com demência a interagir com outras pessoas, além de você e do círculo próximo de parentes. Se possível, promova o contato dele com crianças e animais domésticos, além de atividades em grupo, como jogos, artesanato, pintura etc.

  • Como lidar com alterações de comportamento:

É comum que alguém com demência tenha mudanças no comportamento. Se a pessoa se mostrar agressiva, tente manter a calma, na medida do possível. Busque chamar a atenção da pessoa para uma atividade que costuma acalmá-la.

Caso a pessoa insista em algo que não é real, tente mudar o foco da atenção dela. Evite discutir ou querer mostrar que ela está errada.

Se a pessoa tiver um comportamento sexual inadequado, procure averiguar se ela não precisa usar o banheiro ou está sentindo calor. 

 

Autocuidado do cuidador

Sabe aquele dizer popular que fala que é preciso cuidar de si para cuidar do outro? Isso deve ser levado a sério pelo cuidador de uma pessoa com demência. “Se o próprio cuidador também esquece da própria saúde, é muito comum eles desenvolverem quadros de sobrecarga, dor, estresse, quadros depressivos. É fundamental que eles próprios tenham tempo de cuidar da própria saúde. Senão não vão conseguir cuidar dos entes queridos”, alerta o dr.

Para os cuidadores, o neurologista sugere cuidados como:

  • Respeite os próprios limites e aceite ajuda;
  • Descanse o suficiente e reserve um tempo para fazer atividades de que gosta;
  • Tente compartilhar com parentes ou amigos como tem se sentido. Se for o caso, procure ajuda psicológica;
  • Lembre que você está fazendo o melhor que pode a cada momento. Isso pode ajudar a amenizar sentimentos de culpa, cobrança e frustração, que são comuns entre os cuidadores.

        Veja também: Cuidador, quem cuida da sua saúde mental?

 

Sobre a autora: Fabiana Maranhão é jornalista desde 2006 e colabora com o Portal Drauzio Varella. Tem interesse por temas ligados à infância e à adolescência, alimentação saudável e saúde mental.

Veja mais

Sair da versão mobile