Vacina do HPV é eficaz e segura para meninos e meninas. Conheça quais grupos e faixas etárias devem ser imunizados e os possíveis efeitos colaterais.

 

O HPV (papilomavírus humano) é a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo. Com mais de cem tipos de vírus, estima-se que 50% da população sexualmente ativa já tenha sido infectada por algum tipo de HPV. “É uma doença altamente infecciosa, até mais que o HIV. Para estar exposto aos vírus, não precisa necessariamente haver relação sexual com penetração, pois ele pode ser transmitido por contato sexual, que envolve sexo oral e carícias”, explica o Secretário de Vigilância em Saúde, Jarbas Barbosa.

Embora o preservativo ofereça proteção boa proteção contra a maioria das IST, como a aids, é possível que a transmissão ocorra mesmo com seu uso, uma vez que o parceiro pode ter verrugas na parte externa dos genitais e na área com pelos, regiões que não são cobertas pela camisinha, e acabar transmitindo o vírus. Esse fato, porém, não exclui o uso do preservativo, pois sem ele a exposição ao HPV e a outras IST é maior.

 

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Além do uso do preservativo e do exame de Papanicolaou, uma das formas mais eficazes para se proteger da doença é a vacina, que deve ser aplicada tanto em meninas como em meninos, pessoas de nove a 26 anos com HIV/Aids e pacientes oncológicos ou transplantados (esse último grupo precisa de prescrição médica para vacinar-se). De 2014 até junho de 2017, 72,45% das meninas de nove a 14 anos tomaram a primeira dose e apenas 45,1% receberam a segunda. Somente 16,5% dos meninos de 11 a 14 anos foram vacinados de janeiro de 2017 a junho do mesmo ano.

A vacina imuniza contra quatro tipos do vírus: dois (tipos 16 e 18) de alto risco para o desenvolvimento de câncer, principalmente o câncer de colo do útero e dois (tipos 6 e 11) causadores de verrugas genitais benignas como o condiloma acuminado. O ministério também conseguiu negociar e comprar a vacina pelo preço mais baixo do mundo: cada dose saiu por R$ 30,00. Hoje o ministério preconiza duas doses (anteriormente eram três), oferecidas gratuitamente pelo SUS para o público-alvo. Mesmo não sendo um valor baixo, o preço está muito mais em conta do que o oferecido pela rede privada, que chega a cobrar até R$ 1.000,00 pelas duas doses.

Na maioria das vezes, o vírus do HPV é eliminado espontaneamente pelo organismo, mas em alguns casos ele pode provocar a formação de verrugas na pele e nas regiões oral (lábios, boca, cordas vocais etc.), anal, genital e da uretra, além de lesões de alto risco nos órgãos genitais que podem evoluir lentamente para o câncer de pênis e o de colo do útero. O tumor peniano é raro e representa apenas 0,4% dos carcinomas malignos do sexo masculino; já o câncer de colo de útero é bem mais comum: estima-se a ocorrência de cerca de 15.600 mil novos casos anualmente, o que o coloca como o terceiro câncer mais comum entre as brasileiras, atrás apenas dos tumores de mama e colorretal.

O mais preocupante é que, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 291 milhões de mulheres no mundo são portadoras do HPV, sendo que 32% estão infectadas pelos tipos 16, 18 ou ambos, responsáveis por 70% dos casos de câncer de colo de útero. Portanto, não há dúvida de que as mulheres são as maiores vítimas dessa IST.

 

Vídeo: Entenda a importância da vacina do HPV

 

Efeitos colaterais da vacina do HPV

 

Quando o Ministério da Saúde anunciou a campanha de vacinação, algumas especulações sobre a segurança da imunização, principalmente a respeito dos efeitos colaterais, começaram a ser levantadas. Segundo a dra. Vivian Iida Avelino-Silva, médica infectologista do Hospital Sírio-Libanês, “ao analisarmos com cuidado os efeitos adversos relatados, constatamos que nenhum pôde ser atribuído à vacina contra o HPV. Ou seja, trata-se de uma associação ao acaso, uma coincidência que sempre acontece quando um grande número de pessoas recebe uma vacina nova em um curto período de tempo”.

“Não há até o momento nenhum estudo que tenha associado de maneira inequívoca a vacina de HPV a algum evento adverso grave. Como todo e qualquer produto imunobiológico (vacinas, medicamentos etc.), é claro que  eventualmente podem-se observar efeitos adversos. Após esses anos todos de uso da vacina, os dados de segurança obtidos pelos sistemas de vigilância dos países que a introduziram nos seus programas mostram que a vacina contra HPV é segura, com a ocorrência de eventos adversos, na sua maioria leves, como dor no local da aplicação, inchaço e eritema. Em raros casos, ela pode ocasionar dor de cabeça, febre de 38℃ ou síncope (desmaios)”, afirma o pediatra dr. Marco Sáfadi.

A ocorrência de desmaios durante a vacinação contra HPV não está relacionada à vacina especificamente, mas sim ao processo de vacinação, podendo acontecer com a aplicação de qualquer outra vacina ou produto biológico injetável. “Portanto, recomenda-se vacinar as adolescentes sentadas e mantê-las em observação por aproximadamente 15 minutos após a administração da vacina”, finaliza Sáfadi. Recentemente foram registrados dois casos de convulsões em Pelotas, no Rio Grande do Sul, associados à vacina, o que resultou na suspensão da campanha. No Espírito Santo, outras nove meninas apresentaram efeitos colaterais relacionados à imunização.

Segundo o secretário Jarbas Barbosa, a ocorrência de eventos em um período próximo ao da vacina não é suficiente para relacionar as duas coisas. “Vacinamos quase 2 milhões de meninas [em 2014]. Se você pegar esse número, durante duas semanas alguém vai apresentar problema com a vacina. De toda maneira, os casos do Espírito Santo são tidos como leves. Já a convulsão é grave e, como fazemos com qualquer outra vacina, vamos investigar, já que não há nenhum relato de convulsão [relacionado à vacina] na literatura. Os eventos não significam, necessariamente, que esses casos estejam ligados diretamente à vacina, uma vez que essas meninas podiam apresentar problemas de saúde antes de serem vacinadas.”.

 

Notícias falsas sobre a vacina do HPV

 

“Temos que ter cuidado com o que estamos falando. Uma coisa é associar os efeitos colaterais com a vacina e analisar se isso é fato ou não. Outra coisa é falar que ela não funciona e pode matar. Isso não pode ser dito. Muitas vacinas são associadas a essas mesmas reações e nem por isso vamos deixar de tomá-las. Eu estive num congresso europeu que relacionou a síndrome de Guillian-Barré (doença do sistema nervoso) com a antitetânica e a vacina da hepatite, assim como estão fazendo com a do HPV. São casos isolados e não um fato”, explica a dra. Isabella Ballalai, presidente Nacional da Comissão de Revisão de Calendários da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Segundo o dr. Marco Sáfadi, “quando a vacina foi aprovada nos EUA, em 2006, as autoridades revisaram estudos que incluíram perto de 20 mil mulheres de várias idades que receberam a vacina de HPV ou outras vacinas em estudos controlados, demonstrando segurança e eficácia de mais de 90%  na prevenção de lesões pré-cancerosas, adenocarcinoma e verrugas genitais causadas pelos tipos contemplados pela vacina. Esses estudos acompanharam as mulheres por dois a quatro anos após a vacinação e foram julgados suficientes para o licenciamento da vacina para as indicações então vigentes”.

 

Por que a vacina do HPV é destinada só uma faixa etária?

 

As faixas etárias específicas que fazem parte do grupo não foram escolhidas aleatoriamente. “A faixa etária foi escolhida por dois motivos. Primeiro, a vacina é mais efetiva em meninas que ainda não tiveram contato sexual e não foram expostas ao HPV. Segundo, porque é nessa idade que o sistema imunológico apresenta melhor resposta às vacinas. Com base em pesquisas feitas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 28% dos jovens  começam a ter contato sexual a partir dos 13 anos. Então, vacinando essa faixa etária conseguimos um melhor aproveitamento dos efeitos da vacina. Em 2014, vamos vacinar todas as meninas dos 11 aos 13; em 2015, as dos nove aos 11. Daqui dois anos, todas as meninas até 15 anos estarão protegidas”, explica Jarbas.

Isso não quer dizer que a vacina perca efeito depois do inicio da vida sexual. “A vacina é eficaz tanto para as meninas que nunca tiveram relações sexuais como para aquelas que já iniciaram a vida sexual. É claro que a efetividade é menor por uma questão: a menina que já iniciou a vida sexual pode ter tido contato com o vírus antes de se vacinar. O vírus pode já estar ali no organismo sem se manifestar. Ela toma a vacina hoje e depois de um tempo o vírus pode ‘acordar’. Não quer dizer que a vacina não fez efeito, mas que a menina já estava infectada quando foi imunizada”, esclarece Ballalai.

 

Vídeo: Dr. Drauzio explica por que é importante vacinar também os meninos contra o HPV

 

Papanicolaou deve ser feito mesmo após tomar a vacina do HPV

 

“Antes de mais nada, é preciso ficar claro para todos: em nenhum momento falamos em substituir uma estratégia pela outra. As duas se complementam. A vacinação é uma ferramenta de prevenção primária antes da entrada do vírus no organismo e não substitui o rastreamento do câncer de colo de útero que já esteja em evolução”, explica o pediatra dr. Marco Sáfadi. Portanto, é imprescindível manter a realização do exame preventivo de Papanicolaou, pois as vacinas não protegem contra todos os tipos de HPV que podem causar câncer.

Dessa forma, o rastreamento das mulheres e toda forma de prevenção deve continuar. “Nenhum método de prevenção é 100% seguro. A camisinha é segura, mas nem todo mundo usa. Nem todas as mulheres têm acesso ao Papanicolaou. Sua cobertura está bem longe da totalidade, fora os possíveis erros de leitura. Sem abrir mão de nenhuma prevenção, agora nós temos outra ferramenta, totalizando três. As meninas que estão tomando a vacina vão receber a orientação de que a imunização não elimina a necessidade da camisinha e do exame. A incidência de câncer de colo de útero vai ser muito menor do que hoje”, explica o secretário de vigilância Jarbas Barbosa.

A Sociedade Brasileira de Pediatria endossa e enfatiza a necessidade da imunização.“Após vários anos de experiência em programas de imunização no mundo, a vacina de HPV mostrou-se segura e não foi associada a eventos adversos graves. O benefício da vacinação nos parece, portanto, inquestionável, merecendo o total apoio da SBP ”, finaliza o dr. Marco Sáfadi.

 

Vídeo: Dr. Drauzio fala sobre a importância do Papanicolaou

 

Vacina do HPV reduz número de infecções no mundo

 

A vacina foi criada em 2006, na Austrália, “e já faz parte dos programas de imunização de mais de 50 países como estratégia de saúde pública”, afirma o dr. Marco Sáfadi, da Sociedade Brasileira de Pediatria e professor de pediatria da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Desde o lançamento da vacina, mais de 170 milhões de doses foram aplicadas no mundo, principalmente em seu país de origem, América do Norte e Europa. Os resultados na redução dos casos de infecção por HPV são animadores: nos Estados Unidos, o número de infecções pelos tipos de HPV sobre os quais a vacina atua foram reduzidas à metade. “Na Austrália observou-se redução de mais de 90% nos casos de verrugas genitais entre as mulheres da faixa etária incluída no programa de vacinação.”