Apesar dos grandes avanços tecnológicos e científicos que marcaram o século 20, um olhar para o passado e para o panorama que o futuro promete, infelizmente que é impossível acabar com as epidemias. 

 

A descoberta dos antibióticos criou a ilusão de que as doenças contagiosas seriam controladas depois de certo tempo. Imaginávamos que as epidemias iriam desaparecendo gradativamente e chegaria o dia em que a humanidade estaria livre desse mal para sempre. Quanto engano!

Apesar dos grandes avanços tecnológicos e científicos que marcaram o século 20, um olhar para o passado e para o panorama que o futuro promete, infelizmente comprova que não só foi impossível acabar com muitas dessas doenças, como também surgiram epidemias novas capazes de alastrar-se pelo mundo globalizado.

 

VIROSES PROVENIENTES DE ANIMAIS

 

Drauzio – Por que não conseguimos acabar com as principais epidemias que proliferaram na segunda metade do século passado?

Stefan Cunha Ujvari – Uma das conclusões a que cheguei fazendo uma análise desse problema é que a humanidade convive com os micro-organismos num processo de coevolução. Dessa maneira, qualquer alteração no meio ambiente que o ser humano propicie vai interferir com a vida dos micro-organismos.

No sudeste asiático, há exemplos de agentes virais desconhecidos que causavam infecções em animais e, de repente, passaram a infectar os humanos, quando conglomerados populacionais invadiram as áreas que serviam de habitat para esses animais. O caso mais recente foi o da pneumonia asiática. Se analisarmos, porém, retrospectivamente os últimos cinco anos, veremos que apareceram alguns vírus novos que causaram epidemias, como um vírus do porco que matou 50% dos homens que lidavam com eles na Malásia ou um vírus que infectava cavalos e contaminou seus tratadores. Na verdade, ao estudar essas doenças, foram isolados vírus novos e desconhecidos que vinham dos animais.

 

Drauzio – Esse é o caso do vírus da SARS?

Stefan Cunha Ujvari  – Provavelmente. Na verdade, quando os pesquisadores conseguiram isolar o Coronavírus e estudar seu material genético, chegaram à conclusão de que ele não existia no homem e em nenhum outro animal conhecido até aquela data. Como se trata de um vírus, porém, é certo que ele veio de algum ser vivo, já que vírus não se replicam sozinhos, pois dependem de uma célula viva para sua multiplicação. Portanto, até prova em contrário, o vírus da SARS procede de algum animal que ainda não conseguimos identificar exatamente qual seja. Não é de estranhar, porém, que tenha surgido no sudeste asiático, região que abriga conglomerados populacionais imensos vivendo em extrema proximidade com os animais. É galinha, porco, gato selvagem, aves vendidos nos mercados e trazidos para dentro das casas onde as pessoas dormem. As fezes da galinha contaminam as do porco, que contaminam as do gato e assim sucessivamente. Como consequência, a troca de agentes virais é muito grande e favorece o aparecimento das epidemias e até de pandemias como as de gripe, entre elas, a da gripe espanhola.

 

Drauzio – Essas viroses vêm sempre de animais?

Stefan Cunha Ujvari  – Na maioria das vezes, vêm de animais. Um trabalho interessante publicado em revistas como a “Nature”, por exemplo, defende a teoria de que, há 10 mil anos, quando o homem desenvolveu a agricultura e passou a conviver com animais que tinha domesticado, entrou em contato com alguns vírus que eles albergavam. Se considerarmos o vírus da varíola, verificaremos que é muito semelhante ao vírus que causa doença semelhante em alguns roedores e no gado, e o vírus do sarampo é semelhante aos que causam doenças nos carneiros. Esses vírus provavelmente tiveram um ancestral comum nos animais, sofreram mutações e passaram para os homens.
No século 20, essa teoria foi confirmada pela evidência dos fatos. A aids é provocada por um vírus mutante do chimpanzé que contaminou o homem. Pandemias de gripe no sudeste da Ásia têm sua origem nos vírus existentes nas galinhas. Com o vírus da SARS, ou pneumonia asiática, sem dúvida, a história não foi diferente.

 

EPIDEMIAS PERSISTENTES E TEMPORÁRIAS

Drauzio – Algumas epidemias, as da gripe, por exemplo, surgem e vão embora. Outras, como a da aids, aparentemente persistem e nada leva a crer que desapareçam tão cedo. O que torna uma epidemia persistente e o que faz dela uma epidemia temporária?

Stefan Cunha Ujvari  – Vários são os fatores que tornam uma epidemia persistente. O primeiro é a capacidade de o vírus ser incorporado em nossas células e lá ficar em forma latente ou ir-se replicando. A aids tem a peculiaridade de invadir o sistema de defesa, o que torna quase impossível curá-la definitivamente. Já o da pneumonia asiática penetra na mucosa e a agride, mas o sistema de defesa consegue eliminá-lo das células e os vírus das hepatites B e C penetram nas células do fígado, são incorporados pelo sistema genético e lá se escondem.

Outro fator importante a destacar é que a epidemia geralmente funciona como uma grande vacina. Ela se manifesta numa região, tem efeito devastador, alto índice de mortalidade e, de repente, vai embora. Além das pessoas que ficaram doentes, foram hospitalizadas ou permaneceram em casa acamadas, muitas outras entraram em contato com o vírus ou com formas atenuadas dele, não adoeceram, criaram defesas e, assim, a maioria da população ficou imune. No entanto, crianças que nasceram e cresceram depois dessa experiência começam a constituir um grupo sem defesa, vulnerável a novo surto epidêmico.

Atualmente, isso não é tão comum porque apareceram vacinas e tratamentos. Todavia, se analisarmos o histórico das epidemias, veremos que existiram modelos matemáticos capazes de prever a periodicidade das doenças. Era possível prever, por exemplo, que o sarampo reaparecia a cada cinco ou sete anos.

 

Drauzio – As epidemias de gripe vêm e vão embora. A pessoa pode pegar gripe novamente, mas a doença é provocada por um outro vírus causador do mesmo quadro. Entretanto, há epidemias em que o agente viral é sempre o mesmo. O ebola é um caso clássico. Ele provoca uma doença grave, bastante mortal, desaparece e depois volta e age da mesma forma. Nesse intervalo entre as duas crises, onde é que se esconde?

Stefan Cunha Ujvari  – Essa pergunta ainda está sem resposta. O ebola é um vírus que deve esconder-se e replicar-se em algum animal vivo e de tempos em tempos causa uma epidemia nos homens. A primeira foi em 1976; a segunda, em 1994/1995, chamou a atenção da imprensa. Vinte anos se passaram entre um surto e outro. Acontece que de 1999 a 2003, em todos os anos, o ebola esteve ativo. Pessoas são infectadas, adoecem e 80% delas morrem. Esses dados indicam que a epidemia tornou-se muito mais frequente. Nesse ano de 2003, no Congo, 120 pessoas foram contaminadas e 100 morreram. Além disso, foram dizimadas algumas reservas de gorilas que contraíram a doença. Ninguém noticiou o fato, porque as atenções estavam voltadas para o surto de pneumonia asiática.

Em 1999, na África, quando epidemia de ebola atingiu primeiro os trabalhadores das minas, imaginou-se que os portadores do agente viral fossem aranhas, escorpiões, morcegos que viviam nesses locais. Em vista disso, foram coletadas mais de 500 espécies de animais, mas nada foi descoberto. É um verdadeiro mistério. No entanto, o fato de a epidemia ter-se tornado mais frequente sugere que provavelmente o homem esteja penetrando cada vez mais no habitat do vírus, ao invadir as florestas e provocar desmatamentos.

 

Veja também: As epidemias do futuro

 

MUDANÇA DO PADRÃO ECOLÓGICO

 

Drauzio – As epidemias do passado eram provocadas por bactérias. As atuais, em sua grande maioria, são provocadas por vírus. Como se explica a mudança desse padrão ecológico? 

Stefan Cunha Ujvari  – Antigamente, o homem desconhecia a causa das epidemias. Não se imaginava que, nas poças d’água ou em regiões alagadas, pudessem proliferar mosquitos transmissores da febre amarela ou moscas que transmitiam diarreia, nem que os ratos, entrando nas casas, pudessem espalhar pestes. A crença era que estavam no ar substâncias venenosas que infectavam as pessoas. Alguns médicos chegaram a dizer que as moscas, ziguezagueando durante o voo, ajudavam a ventilar o ambiente e a purificá-lo. Não se davam conta de que elas pousavam no material contaminado e depois nos alimentos que seriam consumidos.

No final do século 19, descobriu-se que as bactérias eram as causadoras das epidemias e que era necessário clorar a água, tratar o esgoto, aterrar as regiões alagadas das cidades. Foi isso que Osvaldo Cruz fez no Rio de Janeiro para acabar com o mosquito que transmitia a febre amarela.

A impressão que se tem agora é que a era bacteriológica deu lugar à era virológica. É preciso pesquisar onde os vírus estão e quais interferências do homem no meio ambiente e com o resto da biosfera favorecem as infecções virais, sejam elas epidemias novas ou velhas epidemias que retornam.

 

PRINCIPAIS EPIDEMIAS DA ATUALIDADE

 

Drauzio – Quais são as principais epidemias que existem na Terra atualmente? 

Stefan Cunha Ujvari  – Há algumas epidemias de grande interesse para a saúde pública e outras de importância científica porque estão aparecendo agora. Um exemplo é a pneumonia asiática. Doença com alto índice de mortalidade pegou todo mundo de surpresa, embora no mundo globalizado de hoje seja fácil entender que num hotel de Hong Kong um canadense, um alemão e gente do Vietnã tenham sido contaminados e, em apenas uma semana, a epidemia tenha se alastrado em diversos países do mundo. Além dessa, outras infecções virais apareceram no sudeste asiático. Por sorte, não eram transmissíveis de uma pessoa para a outra, mas trazem preocupação, porque indicam a existência de vírus novos que causam doenças.

Na minha opinião, entretanto, as mais importantes epidemias são conhecidas, no mínimo, há 100 anos. Para a maioria delas há prevenção e tratamento, mas a desigualdade social inviabiliza seu controle e erradicação. Se me perguntassem, então, quais são as piores epidemias, eu responderia que são as que grassam nos países pobres, especialmente no continente africano. A malária, doença para qual há prevenção e tratamento se precocemente diagnosticada, mata 1 milhão de crianças por ano na África. A tuberculose mata mais 1 milhão. Oitocentas mil morrem de sarampo, que tem vacina. Se somarmos a essas mortes as causadas por aids e diarreia, esses números sobem para quase 5 milhões de crianças mortas anualmente, vítimas de epidemias que poderiam ter sido prevenidas ou controladas.

 

AS EPIDEMIAS NO BRASIL

 

Drauzio – Analisando especificamente o Brasil, em que situação nos encontramos? 

Stefan Cunha Ujvari  – No Brasil, o retorno da dengue pegou todo mundo de surpresa, embora fosse um episódio relativamente previsível. No século 20, a industrialização e consequente aumento do lixo industrial, o significativo crescimento populacional, a urbanização descontrolada favoreceram o aparecimento dos reservatórios de mosquitos. Bastou o vírus da dengue chegar que tudo estava pronto para sua proliferação e a doença reapareceu.

A mesma preocupação que temos em relação à dengue, os Estados Unidos têm com a encefalite do oeste do Nilo transmitida por um mosquito que também tem o hábito de morar em volta das casas. Assim como aqui, lá as campanhas procuram alertar as pessoas para que não deixem acumular água em latas, garrafas, pneus ou qualquer outro recipiente nos arredores das residências.

O vírus da encefalite do oeste do Nilo, que chegou a Nova York em 1999, instala-se também nas aves que o espalharam, entre 1999 e 2003, por todos os Estados Unidos. O problema aumenta na medida em que as aves migratórias também levam o vírus em sua viagem rumo ao sul. O golfo do México e o Brasil fazem parte de sua rota migratória. Por isso, em revistas brasileiras de Medicina Tropical, aparece a preocupação de que o vírus chegue ao nordeste onde encontrará a infraestrutura necessária para sua proliferação.

E tem mais: alguns vírus foram descobertos em nossa flora. Nosso país possui um nicho ecológico não invadido pelo homem que, por certo, deve albergar vírus ainda não conhecidos. Na década de 1990, apareceu em Araçatuba, no Estado de São Paulo, um vírus novo que acometia as vacas e passava para as pessoas que as ordenhavam.

 

VIRUS DAS HEPATITES B e C

 

Drauzio – E o problema das hepatites B e C que acometem milhões de brasileiros?

Stefan Cunha Ujvari  – A hepatite B e a hepatite C constituem um problema imenso que exige a conscientização do risco que representam, uma vez que as hepatites virais crônicas são assintomáticas. A pessoa leva vida normal, não sente absolutamente nada e, muitas vezes, só toma conhecimento da doença quando cirrose ou câncer de fígado estão irremediavelmente instalados. Por isso, assim como são prescritos exames de rotina para dosar os níveis de colesterol, devem ser feitos exames periódicos para detectar uma inflamação no fígado provocada pelos vírus das hepatites B e C. Essa é uma medida profilática importante, porque a incidência da hepatite C na população brasileira é de 3%, ou seja, a cada 100 pessoas três têm a doença e não sabem.

 

Drauzio – Considerando que o Brasil tem 170 milhões de habitantes, são mais 5 milhões de brasileiros infectados por esse vírus.

Stefan Cunha Ujvari  – Na década de 1980, quando apareceu a aids, a Organização Mundial de Saúde previu – e não estava errada – que no ano 2.000 todas as pessoas teriam um parente ou um amigo próximo com a doença. O mesmo irá acontecer com a hepatite C se algumas providências não forem tomadas rapidamente.

 

MEDIDAS DE CONTROLE E PREVENÇÃO

 

Drauzio – De modo geral, que comportamento humano ajudaria a controlar as epidemias ou, pelo menos, evitaria que elas se disseminassem tão depressa?

Stefan Cunha Ujvari  – No século 19, os órgãos responsáveis pela política de saneamento básico dividiam as cidades em bairros para estabelecer um programa de ação. Acontece que, hoje, o planeta é uma grande cidade e os continentes viraram bairros. As doenças estão globalizadas. Sem falar na aids, são exemplos indiscutíveis a sars, que apareceu no sudeste asiático e se disseminou por vários países, as epidemias de gripe, a encefalite do oeste do Nilo. Tal constatação descarta a possibilidade de cada país adotar uma conduta isolada e independente. É preciso criar um sistema de saúde também globalizado. Um dos principais problemas que os países industrializados enfrentam no momento é a importação da malária que entra pelos aeroportos nos Estados Unidos, Inglaterra e França com os indivíduos que chegam da África onde não há uma política de controle e prevenção da doença.

Outro cuidado importante diz respeito às alterações impostas ao meio ambiente que favorecem a volta das epidemias. Os cientistas acreditam que o El Niño seja um fenômeno mais intenso agora por causa do efeito estufa. O aquecimento da água do mar favorece a proliferação dos mosquitos responsáveis pelas epidemias de cólera, malária e dengue. O desmatamento é outra causa de certas enfermidades. A doença de Chagas, por exemplo, chegou à Amazônia. A derrubada da mata propiciou a construção de um tipo de casa ideal para o barbeiro, besouro transmissor dessa doença.

 

Drauzio – Cães e gatos fazem parte da vida do homem moderno que vive em cidades grandes e tem esses animais em casa. Você vê algum inconveniente nesse contato tão próximo?

Stefan Cunha Ujvari  – Algumas infecções dos animais domésticos podem acometer o homem, mas em geral são todas benignas. A toxoplasmose é uma delas. O problema maior está nos animais selvagens com os quais o homem ainda não entrou em contato e que albergam vírus desconhecidos. Em algumas ocasiões, essa contaminação já ficou evidente. O homem caçava chimpanzés na mata para alimentar-se e pegou o vírus da aids. A gripe espanhola e outras epidemias de gripe do século 20 tiveram sua origem numa mistura de galinhas e porcos. Em 2002, apareceu na Holanda um novo vírus de gripe que veio também das galinhas, e ninguém mais duvida de que o vírus da pneumonia asiática tenha vindo de algum animal da região onde a epidemia começou.