Melatonina ajuda a regular o sono, mas não trata insônia

O hormônio foi liberado para venda no Brasil como suplemento alimentar, mas existem poucas indicações para o seu uso. Saiba mais.

Maiara Ribeiro é repórter do Portal Drauzio Varella desde 2018. Tem interesse em assuntos relacionados à saúde da criança, da mulher e do idoso.

O hormônio foi liberado para venda no Brasil como suplemento alimentar, mas existem poucas indicações para o seu uso. Saiba mais.

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Publicado em: 12 de maio de 2022

Revisado em: 12 de maio de 2022

O hormônio foi liberado para venda no Brasil como suplemento alimentar, mas existem poucas indicações para o seu uso. Saiba mais.

 

Milhões de pessoas sofrem de insônia no Brasil. Se você não tem, provavelmente conhece alguém com dificuldade para dormir. O problema que já era muito comum parece ter sido agravado com a pandemia. Uma pesquisa do Instituto do Sono realizada em 2020 em 24 estados brasileiros mostrou que mais de 55% das pessoas alegaram piora do sono durante o isolamento social. Os principais motivos apontados foram preocupação frequente com a pandemia e maior tempo de exposição às telas de TV, celular e computador. 

Quem dorme mal sabe o quanto isso afeta o dia a dia. Piora o humor, a memória, a concentração, dentre várias outras coisas. Por isso, muitas vezes as pessoas buscam, sozinhas, alternativas para dormir melhor, mas a automedicação não é o caminho

Em outubro de 2021, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou no Brasil a venda da melatonina como suplemento alimentar. Segundo a agência, o uso é destinado para pessoas com idade igual ou maior que 19 anos e dose diária máxima de 0,21 mg. O suplemento também tem algumas contraindicações: grávidas, lactantes, crianças e pessoas envolvidas em atividades que exigem atenção constante não devem tomar. 

O produto pode ser comprado livremente, já que não há exigência de receita. Contudo, os especialistas pedem cautela.

 

Como funciona a melatonina

A melatonina é um hormônio produzido pela glândula pineal, localizada no cérebro. Sua liberação ocorre à noite e ela ajuda a regular o ritmo circadiano, uma espécie de relógio biológico do organismo. “Quando não há luz, a retina envia informações para uma região do cérebro, o hipotálamo, que manda uma mensagem até o epitálamo, fazendo com que a glândula pineal libere melatonina, promovendo o sono”, afirma a dra. Claudia Chang, pós-doutora em Endocrinologia e Metabologia pela Universidade São Paulo (USP) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

“A melatonina é importantíssima para que nós tenhamos esse ritmo vinculado com as 24 horas da Terra, de dormir à noite e estarmos acordados durante o dia. Eu diria que existe uma importante relação entre a presença da melatonina e a nossa facilidade em dormir no período da noite”, afirma a dra. Márcia Assis, neurologista e vice-presidente da Associação Brasileira do Sono (ABS). 

A especialista destaca que a melatonina não é uma substância que nos faz dormir, mas sim um sinalizador do sono, como se ela desse um aviso ao nosso corpo de que é hora de ir para a cama. “Ela auxilia e corrobora para a gente dormir. Mas ela não é um tratamento para insônia, e esse é o grande problema, porque as pessoas confundem a melatonina com um medicamento para dormir.” 

A dra. Dalva Poyares, neurologista e pesquisadora do Instituto do Sono, explica que o pico da melatonina acontece no início da madrugada e, de manhã, quando acordamos, ela deve estar no menor nível possível. “E, juntamente com isso, outra coisa que ocorre é a alteração da temperatura corporal. Ao mesmo tempo em que a melatonina aumenta, a temperatura cai, e isso coincide com o período de maior propensão ao sono. Uns têm o seu horário de dormir mais cedo, outros mais tarde, então esse pico pode variar dependendo da pessoa”, explica. 

Em resumo, são necessários dois estímulos: no início e no fim do período do sono. “O inicial é dado pelo aumento da melatonina e a redução da temperatura corporal, e o final, pela luz. A luz é muito importante de manhã, porque é o que diz para o seu organismo que é hora de acordar. Para as pessoas que têm muita dificuldade, muita inércia de manhã, é importante que elas se exponham à luz solar justamente para que esse processo ocorra”, completa. 

Veja também: Melatonina: como ela influencia no seu sono | Animação #42

 

Para quem a suplementação é indicada

Na medicina do sono, segundo as especialistas, existem algumas condições nas quais a melatonina é utilizada no tratamento, como:

  • Atraso de fase do sono: transtorno em que as pessoas têm dificuldade de conciliar o horário do sono, e o sono vem muito tarde;
  • Síndrome de jet lag: pessoas que viajam para o exterior e atravessam muitos fusos horários e têm dificuldade em adequar o horário do sono;
  • Transtorno comportamental do sono REM: transtorno caracterizado por pesadelos e atividades motoras anormais durante o sono REM (fase mais agitada do sono, com sonhos vívidos);
  • Deficiência visual: deficientes visuais que não têm o estímulo da luz para sincronizar o horário do sono e não produzem melatonina adequadamente;
  • Crianças com transtorno do espectro autista (TEA): estudos recentes mostraram que a melatonina pode melhorar a qualidade do sono em crianças autistas com dificuldade para dormir e sono fragmentado.

Além disso, um fator conhecido que pode reduzir a produção de melatonina é a idade. Por esse motivo, alguns idosos podem ter dificuldade de conciliar o sono no período da noite, e, em casos específicos, a suplementação pode ser indicada conforme avaliação individual. “Mas se é um idoso que tem os seus hábitos regulares e sua vida saudável, não tem por que repor a melatonina”, afirma a dra. Dalva.

“Veja que as indicações cientificamente comprovadas em que a melatonina pode melhorar a qualidade e ajudar a sincronizar o sono são poucas. São estudadas e bem indicadas. E aqui ninguém falou que a melatonina é usada para tratar insônia. Não existe essa indicação oficial no tratamento da insônia”, explica a dra. Márcia. Apenas em casos bem específicos e bem avaliados ela pode ser incluída no tratamento da insônia, mas esta não é sua função. 

 

Melatonina não é remédio para dormir 

Segundo a dra. Márcia Assis, dados dos Estados Unidos mostraram que a venda de melatonina quintuplicou nos últimos anos porque as pessoas acreditam que, por ser um suplemento e ter a venda livre, não tem problema tomar, e assim acabam usando de forma inadequada. 

“Qual é o nosso receio? Que as pessoas que têm insônia comprem e tentem tratar por conta própria um problema que deveria estar sendo mais bem avaliado pela medicina e tratado adequadamente. Dessa maneira, a pessoa também pode deixar um quadro de insônia cronificar e até trazer doenças relacionadas ao fato de ter uma insônia crônica.”

“Nós temos consensos nacionais e internacionais de recomendação para o tratamento da insônia, e até o momento não existe um consenso a respeito de a melatonina ser eficaz no tratamento do problema. Nós não temos comprovação científica disso. Então, ela não é recomendada”, completa a especialista.

A dra. Dalva reforça: “Não é indicada para insônia. Ela ajuda a regular o seu ritmo biológico. Ela pode ajudar de alguma maneira no início do sono, mas ela não ajuda na manutenção”.

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Efeitos adversos e riscos da automedicação

Quando usada em doses altas, a melatonina pode causar efeitos indesejáveis, como sonolência durante o dia, tonturas, dor de cabeça, náuseas, cólicas abdominais e tremores. Em alguns casos, pode piorar quadros de depressão, causar ansiedade leve, aumento da pressão arterial, sonhos excessivos, coceira e suor noturno. “A melatonina pode, inclusive, interagir com alguns medicamentos, olha só o risco. Ela pode interagir com anticoagulantes, com alguns anticonvulsivantes, anticoncepcionais, antidepressivos e até com medicamentos usados para hipertensão arterial”, destaca a neurologista da ABS. 

Por isso, é tão importante buscar orientação antes de suplementar o hormônio. “Ninguém começa a tratar uma hipertensão arterial por conta própria. Por que a pessoa vai tratar uma insônia por conta própria?”, questiona a dra. Márcia. 

“Embora não haja consenso científico sobre seus supostos benefícios, a melatonina se popularizou, por meio das farmácias de manipulação, como uma substância milagrosa não só para o sono, mas como uma promessa para tratar emagrecimento, diabetes, enxaqueca e até mesmo câncer e doença de Alzheimer”, comenta a dra. Claudia. “É imprescindível uma avaliação com o especialista para analisar se há ou não a indicação da melatonina.” 

A dose de 0,21 mg liberada pela Anvisa é próxima da dose fisiológica, mas, na visão da dra. Dalva, ainda faltam estudos a respeito da substância. 

“Quando eu falo na vitamina D, todo mundo sabe. Você tem que estar por volta de 30 no exame de sangue. E a melatonina? A gente sabe que a dose fisiológica, a dose que nós secretamos, é bem baixa, mas outra coisa é a reposição. Você tem toda uma via, tem uma absorção gástrica ou sublingual, o quanto atravessa a barreira do sangue para o cérebro, o quanto chega ao cérebro. Tem uma série de questões que precisam ainda ser avaliadas em estudos. Não é para sair tomando”, afirma a neurologista. 

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Além do sono: melatonina age de forma sistêmica

O chamado “hormônio do sono” não age apenas no sono, mas em vários órgãos do nosso corpo. Pode, por exemplo, influenciar na síntese de insulina – e, nesse caso, tomar uma dose muito alta poderia até mesmo aumentar o risco de desenvolver diabetes.

“Existem muitos estudos investigando o valor terapêutico da melatonina em várias outras doenças – cardíacas, pulmonares, hepáticas – porque ela tem uma ação sistêmica; não é só cerebral, só no sono. Por isso deve ter cuidado ao tentar usar por conta própria”, destaca a dra. Márcia. “E aqui eu não estou desmerecendo a melatonina. Ela tem uma função importantíssima no sono, ela é necessária. Quando ela falha ou falta, nós realmente vamos dormir mal. Eu acredito que a ciência está progredindo muito nisso; tem pacientes internados em UTI, em pós-operatório, que a melatonina tem ajudado. Mas isso é ciência, são estudos que estão em evolução.”

Existem pessoas que buscam a melatonina como aliada na redução de peso, mas isso não foi comprovado. “Não há um efeito direto da melatonina na perda de peso. O que ocorre é que o sono influencia muito na regulação do peso corporal. Sabe-se que a supressão de sono (dormir menos de 6 horas por noite para a maioria dos adultos jovens) pode ser fator de risco para ganho de peso”, explica a dra. Claudia, endocrinologista. 

 

Como estimular a melatonina do próprio organismo

Para manter a produção fisiológica de melatonina e ter um sono de mais qualidade, algumas medidas comportamentais podem ser muito úteis, especialmente no quesito luz. Em resumo: pouca luz à noite, muita luz de dia. Veja as principais dicas: 

  • Manter horários regulares para dormir e acordar;
  • De manhã, buscar a claridade, abrir as janelas, deixar entrar a luz externa;
  • Fazer exercícios físicos pela manhã, se possível;
  • Manter horários regulares para as principais refeições do dia;
  • À noite, reduzir luzes artificiais e estímulos – ou seja, evitar telas de celular, computador e TV muito perto da hora de dormir. 

“A luz é um grande estimulador de estarmos acordados ou de dormirmos, tanto que a melatonina é produzida no período da noite. Então, quando nós usamos uma tela à noite, com claridade, nós estamos retardando a produção de melatonina. Cuidar disso favorece a secreção de algo que é natural e nos ajuda, para que nosso organismo entenda que é hora de dormir”, afirma a dra. Márcia. 

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