Há pessoas mais velhas que morrem de saudade do médico de família. Contam, com nostalgia, que ele visitava os doentes em casa, ouvia suas queixas, medicava e fazia as recomendações necessárias. Depois, tranquilizava os familiares na sala, ouvia confidências, dava conselhos.

É possível comparar com a velocidade do atendimento no serviço público, nos convênios e mesmo nas clínicas particulares? Por que os médicos atuais teriam perdido essa delicadeza no trato?

Antes de responder, quero deixar claro que não pretendo fazer a defesa corporativa dos profissionais que maltratam pacientes humildes, dos irresponsáveis que sequer os ouvem, dos incompetentes e desonestos que envergonham a profissão.

Estabelecida tal premissa, voltemos à questão: esse tipo de médico foi extinto por várias razões. Primeiro, porque desapareceram as famílias numerosas de antigamente que se reuniam em torno do patriarca para o cafezinho na sala com o doutor. Segundo, porque as cidades pacatas nas quais ele se movimentava não existem mais. Terceiro, porque os honorários recebidos por um médico daquele tempo eram suficientes para uma vida confortável, sem precisar de três ou quatro empregos. E, acima de tudo, porque médico de família era privilégio de poucos.

Nasci durante a Segunda Guerra, no bairro operário do Brás, a 15 minutos da praça da Sé. Quando aparecia um homem com maleta de médico na porta de uma das casas coletivas características do bairro, a molecada do futebol de rua já sabia que alguém estava à beira da morte. Aos 7 anos, acordei com os olhos inchados, e meu pai me levou ao pediatra pela primeira vez; na volta, meus amigos queriam saber se era verdade que os pediatras amarravam as crianças na cama para aplicar injeções enormes no traseiro.

Se a 15 minutos da praça da Sé não chegava assistência médica à classe operária, o que aconteceria na zona rural, residência de mais de 70% dos brasileiros na época? Os médicos do interior do Ceará assolado pelas secas também sentavam com as famílias na sala de visita?

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Hoje, num país urbano, apesar do descalabro administrativo em que vive parte significativa das unidades de saúde estatais, do desperdício absurdo de recursos e da praga da corrupção que infesta de forma crônica o Ministério e as Secretarias de Saúde, a assistência médica é incomparavelmente mais democrática. Quase 100% das crianças são vacinadas, a maioria das mães faz pré-natal, dá à luz em maternidades e encontra postos de Saúde. Esperam horas para serem atendidas, muitas vezes saem insatisfeitas, é verdade, mas seus filhos são examinados pelo pediatra, luxo inatingível para as crianças da minha geração.

Embora insuficientes, capengas, sempre em luta contra a falta de recursos, temos alguns programas de distribuição gratuita de medicamentos que jamais seriam acessíveis sequer à classe média, hospitais que realizam procedimentos de alta complexidade pelo SUS e equipes de agentes de saúde que prestam atendimento em comunidades que jamais puderam sonhar com ele.

Por mais incompetente, corrompida e caótica que seja nossa administração pública, é preciso reconhecer o esforço realizado pelo país nos últimos 40 anos para levar assistência médica à população. Em 1970, éramos 90 milhões de habitantes servidos por um sistema de saúde muito mais precário do que o atual. Perguntem a franceses, ingleses ou alemães se a saúde pública de seus países seria a mesma, caso a população tivesse duplicado nos últimos 35 anos.

Às custas de perdas salariais e de enfrentar condições precárias de trabalho, não apenas médicos, mas enfermeiras, assistentes sociais e todos os profissionais que prestam serviços de saúde foram os heróis anônimos dessa revolução, que poderia ter sido muito mais abrangente se houvesse menos demagogia política e maior envolvimento da sociedade.

Quando ouço exaltar as qualidades humanitárias dos antigos médicos de família, sinto respeito por eles. Mas o desprendimento dos profissionais de saúde que trabalham nas frentes de batalha recebendo salários baixos para atender gente pobre em comunidades distantes, nos ambulatórios, prontos-socorros e enfermarias dos hospitais públicos me comove muito mais.

O desafio atual é como conciliar o trabalho duro realizado por eles, com a preservação do sentimento de solidariedade diante do sofrimento humano, sem o qual a Medicina não tem sentido.