Drauzio

Cardiologia I – História da Cardiologia no Brasil



Todos conhecemos pessoas que foram operadas do coração para corrigir os mais variados distúrbios, o que lhes garantiu uma sobrevida que não usufruiriam se a intervenção cirúrgica não fosse feita. Válvulas foram trocadas, pedaços de artérias foram removidos e substituídos por peças artificiais e as pontes de safena se tornaram cirurgias corriqueiras. Dessa forma, pessoas que antes morriam de doenças cardíacas hoje são salvas e voltam à vida normal.
Os grandes avanços no campo da cirurgia cardíaca datam de poucos anos atrás. Rapidamente foram incorporados à prática médica e hoje não causam mais espanto nem surpresa. No entanto, não está distante o tempo em que as primeiras cirurgias foram feitas com o coração batendo e os cirurgiões com o dedo tentavam alargar a válvula para permitir que o fluxo sanguíneo passasse livremente.

CIRURGIA CARDÍACA

Drauzio – Como era a cirurgia cardíaca no ano em que o senhor terminou a faculdade de medicina?

Adib Jatene – Eu me formei em 1953 na Faculdade de Medicina da USP. Quando resolvi ser médico, meu projeto não era fazer cirurgia cardíaca. Pretendia fazer Saúde Pública e voltar para o Acre, meu estado natal. Acontece que em 1951, no treinamento de cirurgia, entrei no grupo do Prof. Euclides  de Jesus Zerbini que operou em maio desse ano o primeiro doente com estenose mitral.

Drauzio – O senhor poderia explicar o que é estenose mitral?

Adib Jatene – Estenose mitral é uma doença da válvula mitral que dificulta a passagem do sangue do pulmão para o ventrículo esquerdo. Como consequência, provoca estase pulmonar, falta de ar, insuficiência cardíaca, entre outros sintomas. Nessa época, o cirurgião introduzia o dedo pelo átrio esquerdo e forçava a abertura da válvula mitral sem ter visão direta do que estava fazendo e com o coração do paciente batendo. Eu participei dessa primeira operação.
Prof. Zerbini era um homem que solicitava muito os alunos. Era muito interessado e, principalmente, um extraordinário trabalhador. Dizia sempre uma frase que todos os que foram treinados por ele – e são inúmeros no país inteiro – repetem : “Nada resiste ao trabalho quando é serio e feito com dedicação em benefício do doente”. Fui me envolvendo com tudo aquilo e, quando percebi, estava enrolado com a cirurgia cardíaca.

Drauzio – Prof. Zerbini é um dos maiores cardiologistas do mundo, não é?

Adib Jatene – Sem dúvida alguma, ele foi o grande pai da cirurgia cardíaca brasileira. Praticamente todos os cirurgiões que atuam no Brasil foram treinados diretamente por ele ou por quem ele treinou. Até hoje, no exterior, existe certa perplexidade diante do fato de um país como o Brasil, com renda per capita tão baixa, ter-se tornado um dos lugares de maior desenvolvimento da cirurgia cardíaca, inclusive criando técnicas absolutamente originais. Isso, em grande parte, deve-se à atuação do Prof. Zerbini que estimulava muito o pessoal. No Hospital das Clínicas, por exemplo, quando comecei a mexer com mecânica e fazer coração artificial, ele me estimulou a montar uma oficina e nós fabricamos máquinas para circulação extracorpórea. Depois, no Hospital Dante Pazzanesi, fabricamos válvulas cardíacas artificiais, marcapassos, adaptando-os ao nosso nível tecnológico o que não ocorreu em outros países que importavam máquinas americanas e europeias.

Drauzio – A que o senhor atribui esse carisma que Prof. Zerbini manifestava no ambiente da Cardiologia?

Adib Jatene – Era um homem simples e modesto, não afeito a grandes espetáculos, mas altamente eficiente e trabalhador. Foi ele quem implantou a cirurgia cardíaca no Brasil.

TÉCNICAS CIRÚRGICAS

Drauzio – As primeiras cirurgias cardíacas foram feitas com o coração batendo. O cirurgião tentava resolver pequenos problemas com o dedo e às cegas. Quando se tornou possível parar o coração para operá-lo com visão direta?

Adib Jatene – As cirurgias realizadas em volta do coração, no canal arterial e a quartação da aorta datam de 1938, 1940, 1944. No entanto, as primeiras operações intracardíacas foram feitas em 1948, quando voltaram da Segunda Guerra muitos cirurgiões que trabalharam na frente de batalha. Tratar grande número de ferimentos cardíacos convenceu-os de que era possível introduzir o dedo ou um instrumento para abrir válvulas, por exemplo. Logo ficou evidente, porém, que era necessário abrir o coração para enxergar a estrutura que estava sendo corrigida e isso foi possível em duas etapas.
Na primeira, empregou-se a hipotermia. Em temperatura normal, o coração não resiste a uma parada cardíaca superior a quatro minutos, porque o cérebro se deteriora. Entretanto, se baixarmos a temperatura para 30ºC, ele poderá parar de bater por dez minutos. Essa informação fundamental permitiu que os cirurgiões elaborassem técnicas cirúrgicas que favorecessem a realização de correções nesse tempo e foi possível operar pacientes com estenose pulmonar, comunicação intraventricular, estenose aórtica. Parávamos o coração, baixávamos a temperatura do doente para 30ºC, interrompíamos a circulação, fechávamos as veias cavas superior e inferior, pinçávamos a aorta, abríamos a artéria pulmonar e tratávamos uma válvula. Ou seja, o coração ficava isolado do resto da circulação sanguínea.
Entretanto, logo se viu que esse tempo era muito curto para tratar de muitas afecções e aceleraram-se as experiências para usar um coração-pulmão artificial. Em 1954, foram realizadas cirurgias que empregavam técnicas de circulação extracorpórea usando o pai ou a mãe do paciente como oxigenador. Substituir a função do coração é fácil, porque existem bombas mecânicas de vários tipos que podem trabalhar em seu lugar. O grande problema é a função do pulmão, órgão que oxigena o sangue. Então, a ideia posta em prática consistiu no seguinte: o cirurgião retirava o sangue das duas cavas antes que entrasse no coração do paciente, passava por uma bomba e injetava na veia femural do pai ou da mãe da criança. Esse sangue passava pelo pulmão de um dos pais, ia para artéria femural de onde era retirado por outra bomba e injetado na aorta. Esse método permitia tirar de circulação, não apenas o coração como acontecia na hipotermia, mas também o pulmão.

Drauzio – Esse sangue que saia da criança e ia para o pai ou para a mãe não provocava uma sobrecarga na circulação?

Adib Jatene – Não, porque era retirada e devolvida exatamente a mesma quantidade de sangue. Esse era o melhor sistema até que foi levantada uma questão importante: seria eticamente defensável se algum acidente acontecesse com o pai ou a mãe que não eram pessoas doentes? Esse impasse favoreceu o desenvolvimento dos oxigenadores artificiais.

Drauzio – O senhor chegou a operar empregando essa técnica?

Adib Jatene – Não. Essa técnica foi desenvolvida em Mineapolis e na Mayo Clinic.

OXIGENADORES

Drauzio – O senhor poderia explicar o que são os oxigenadores?

Adib Jatene – Oxigenadores são artefatos mecânicos para oxigenar o sangue. Havia três modelos e dois deles foram usados no Brasil. Um era um oxigenador construído com discos de ácido inoxidável do tamanho aproximado de um CD. Noventa deles eram montados num eixo e prensados dentro de um cilindro de vidro onde se colocava sangue que cobria 2/3 da área do disco. Quando se girava o conjunto, cada disco carregava uma película de sangue que exposta num ambiente de oxigênio assimilava essa substância, pois entrava sangue venoso de um lado com 60% de oxigênio e saía sangue com 96%, 98%  de oxigênio do outro lado. Desse modo, não era necessário mais usar o pulmão do pai ou da mãe. Tirava-se o sangue da criança, passava-se pelo oxigenador e ele era recolocado na aorta do paciente.

Drauzio – Os discos ficavam girando durante toda a operação?

Adib Jatene – Ficavam girando o tempo inteiro a 120 rotações por minuto.  E garantiam o tempo necessário para a cirurgia. Esses oxigenadores, porém, exigiam 2 ou3 litros de sangue para funcionar o que limitava muito o número de operações.

Drauzio – Como era o outro tipo de oxigenador?

Adib Jatene – No Hospital das Clínicas, usávamos o oxigenador de disco. Quando fui para o Hospital Dante Pazzanezi, como havia muita dificuldade para conseguir sangue, adaptei o oxigenador de bolhas que estava sendo usado nos Estados Unidos. Esse artefato consistia num tubo de plástico de duas polegadas, com mais ou menos um metro de comprimento em que se punha sangue venoso e borbulhava-se oxigênio dentro dele. Uma bolha nada mais é do que um alvéolo, uma película fina com oxigênio em seu interior, que fazia a troca de sangue. As bolhas subiam, eram rompidas em esponjas de ácido inoxidável impregnadas com uma substância antibolhas, desciam por espiral de plástico. Quando o sangue chegava na parte de baixo, não havia mais bolhas e ele estava oxigenado.
No início, adaptei um suporte de madeira, coloquei uma bomba arterial, duas bombas aspiradoras e o oxigenador. Depois, eliminamos as hélices e construímos modelos compactos de oxigenadores que foram largamente usados no País inteiro. Eles não eram descartáveis. Então, mais tarde, tivemos que investir na produção dos descartáveis que chegaram na década de 1960.

Drauzio – Como funcionava a cirurgia cardíaca no resto do mundo? 
Adib Jatene
 – Os descartáveis foram desenvolvidos mais ou menos simultaneamente aqui e nos Estados Unidos, mas utilizamos muito tempo os não descartáveis, porque os descartáveis importados eram muito caros. O custo foi outro aspecto que impulsionou o desenvolvimento da Cardiologia e da cirurgia cardíaca no Brasil.

MÁQUINAS NACIONAIS

Drauzio – O senhor participou da construção dessas primeiras máquinas. O senhor sempre foi habilidoso nesse ramo?

Adib Jatene – Sempre tive bastante facilidade para mexer com mecânica. O primeiro instrumento que fiz foram as guilhotinas utilizadas na cirurgia cega junto com o dedo do cirurgião. Em 1957, fui professor de anatomia topográfica em Uberaba e comecei a mexer com coração artificial. O proprietário de uma retificadora de motores, o Chiquinho Veludo, resolveu me ajudar e colocou um torneiro mecânico, o Chicão – que tem uma oficina na cidade até hoje -, à minha disposição com um torno, uma furadeira e um esmeril. Ali foi construído o oxigenador. Foi então que o Prof. Zerbini me chamou de volta para o Hospital das Clínicas. Ele tinha importado duas máquinas e era difícil fazê-las funcionar. Como não havia componentes para substituir os que quebravam, a solução foi fazer a nossa máquina com os componentes que eram encontrados na rua Santa Efigênia, em São Paulo.

Drauzio – Funcionavam bem essas máquinas?

Adib Jatene – Funcionavam muito bem. Não eram máquinas sofisticadas. Podiam funcionar sem motor, desde que houvesse uma manivela para tocar a bomba. Esse era um recurso tão importante que até hoje as máquinas têm um dispositivo manual para o caso de faltar energia durante a operação.
Por comodidade, adapta-se um motor de corrente contínua com redutor de velocidade para dar mais torque, que foi desenvolvido numa fábrica de São Paulo, respeitando o nível tecnológico do nosso País. Por isso, a cirurgia cardíaca pode evoluir e funcionar bem no Brasil.

Drauzio  Alguém colaborou com o desenvolvimento desse projeto?

Adib Jatene – Dr. Braile, um médico também formado na USP e que entendia de mecânica, ajudou muito a fazer essa máquina. Dr. Zerbini não queria que ele se transferisse para Rio Preto, mas foi bom ter ido porque prestou enorme serviço médico e montou uma indústria de oxigenadores que funciona até hoje.

Drauzio  Como foram desenvolvidos os oxigenadores descartáveis no Brasil?

Adib Jatene – Nós desenvolvemos primeiro um oxigenador descartável de bolhas. São tubos de 200 micras de diâmetro, com 35/40 micras de espessura na parede, que permitem a troca gasosa. Depois, fizemos o oxigenador de membranas. Nessa altura, estava trabalhando no Hospital Dante Pazzanezi e contei com a colaboração de José Francisco Bicelli, um rapaz que era torneiro-mecânico, formado na FEI e hoje é um dos maiores especialistas em oxigenadores do mundo. Tenho a patente desses aparelhos, que são fabricados sob licença e exportados para o mundo inteiro. Isso consolidou a evolução da cirurgia cardíaca, dentro da nossa realidade tecnológica, num nível de aprimoramento progressivo.
Atualmente, nossos oxigenadores competem em qualidade com os melhores do mundo e são usados na Itália, França, Alemanha, entre outros países. Isso e a competência dos cirurgiões treinados nessa tecnologia nacional trouxeram enorme prestígio para a cirurgia cardíaca brasileira.

Drauzio – Com esses oxigenadores vocês puderam desviar o sangue do corpo e operar com o coração completamente parado.

Adib Jatene – Parado, mas, ao contrário do que a maioria pensa, não se tira o coração do lugar para fazer as correções que se fazem necessárias. Até 1968 operávamos válvulas e doenças congênitas, como comunicação intra-auricular, interventricular, tetralogia de Fallot, um defeito cardíaco congênito. A partir dessa data, passamos a fazer as cirurgias de coronárias.

 

 

Sobre o autor: Maria Helena Varella Bruna

Maria Helena Varella Bruna é redatora e revisora, trabalha desde o início do Site Drauzio Varella, ainda nos anos 1990. Escreve sobre doenças e sintomas, além de atualizar os conteúdos do Portal conforme as constantes novidades do universo de ciência e saúde.