Drauzio

Simplicidade e eficiência | Artigo



Trabalhos demonstram que metade das complicações cirúrgicas são evitáveis com a adoção de alguns cuidados simples. Veja artigo do dr. Drauzio.

 

Em medicina, como na vida, procedimentos simples às vezes provocam impactos surpreendentes.

É o caso da redução de complicações cirúrgicas obtida pela aplicação de um questionário, apenas para conferir se as medidas rotineiras de segurança foram adotadas na sala de operações.

 

Veja também: Entrevista sobre a história da anestesia

 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que sejam realizadas a cada ano 234 milhões de cirurgias ao redor do mundo, número que ultrapassa o de nascimentos.

Segundo o Banco Mundial, 164 milhões de anos de trabalho são perdidos por problemas de saúde tratáveis por meios cirúrgicos, estimativa que corresponde a 11% do total de anos perdidos por doença.

Cirurgias, no entanto, estão associadas a complicações e risco de morte. Mesmo nos países industrializados, a mortalidade perioperatória hospitalar é da ordem de 0,4% a 0,8%, e as complicações variam de 3% a 17%. Diversos trabalhos demonstram que cerca da metade das complicações cirúrgicas são evitáveis e que equipes bem treinadas, capazes de executar todos os procedimentos de forma padronizada, obtêm resultados significativamente melhores.

Por essa razão, em 2008, a OMS publicou uma lista de medidas para melhorar a segurança das cirurgias.

Um grupo de pesquisadores acaba de publicar um estudo sobre o tema, conduzido em oito hospitais localizados em oito cidades: Toronto (Canadá), Aman (Jordânia), Auckland (Nova Zelândia), Manilha (Filipinas), Ifakara (Tanzânia), Londres (Inglaterra) e Seattle (Estados Unidos).

Os autores começaram levantando os dados referentes à mortalidade e às complicações cirúrgicas de 3.733 pacientes operados nesses hospitais. Em seguida, compararam esses números com aqueles obtidos entre os 3.955 operados depois da implantação de uma lista de medidas de segurança, nas salas de operação.

Resumidamente, a lista envolvia os seguintes cuidados:

Antes da anestesia, enfermeiras e anestesistas precisavam confirmar oralmente:

  • a identidade do paciente, o local da cirurgia e o tipo de operação;
  • se o oxímetro estava instalado;
  • se o paciente apresentava alguma alergia;
  • se as condições das vias aéreas tinham sido avaliadas e se os equipamentos de aspiração e de oxigenação estavam em ordem;
  • se existia risco de perder 500 mL ou mais de sangue, e se os meios para reposição haviam sido providenciados.

Antes da incisão cirúrgica, todos os membros precisavam confirmar oralmente:

  • seu nome e função na equipe;
  • a identidade do paciente, o local da incisão e o tipo de procedimento a ser realizado;
  • se os momentos críticos da cirurgia eram conhecidos por todos;
  • se os antibióticos usados preventivamente (quando indicados) tinham sido administrados nos 60 minutos que precediam a cirurgia;
  • se as radiografias mais importantes estavam exibidas em local visível.

Antes de o paciente deixar a sala de operação, a equipe devia confirmar oralmente:

  • se as agulhas, compressas e instrumentos tinham sido conferidos;
  • se as peças operatórias enviadas para exame estavam corretamente identificadas;
  • se todos estavam cientes das possíveis complicações pós-operatórias.

O objetivo do estudo foi o de avaliar a mortalidade e o número de complicações ocorridas nos 30 dias seguintes à cirurgia.

A comparação feita entre os 3.733 pacientes operados antes da adoção das medidas de segurança, e os 3.955 operados depois delas, revelou que:

  • o número de complicações caiu de 11% para 7%;
  • houve diminuição do número de infecções na cicatriz cirúrgica e do número de reoperações;
  • as diferenças foram significantes em todos os países; industrializados ou não;
  • a confirmação da administração preventiva de antibióticos, nos 60 minutos que precederam a cirurgia, fez cair de 33% a 88% o número de infecções;
  • a mortalidade perioperatória foi reduzida de 1,5% para 0,8%.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.