Pesquisas com chimpanzés contam com muitos opositores e foram banidas em alguns lugares.

 

Às pesquisas com chimpanzés em cativeiro não faltam opositores. Os argumentos são convincentes: mantê-los cativos sai caro e a necessidade de usá-los como modelo experimental é cada vez menor. Sem falar que chimpanzés e seres humanos, animais concebidos por um ancestral comum, compartilham mais de 98% dos genes, semelhança que lhes confere o “olhar humano” capaz de nos enternecer.

Esses argumentos explicam por que nos últimos dez anos houve apenas 110 projetos envolvendo chimpanzés, financiados pelos National Institutes of Health (NIH), nos Estados Unidos. Metade deles no campo das hepatites e o restante nas áreas de genômica comparativa, neurociência, comportamento e doenças infecciosas.

Com o objetivo de avaliar se o interesse científico justifica a escolha do chimpanzé como modelo experimental, em estudos financiados pelo governo americano, o NIH nomeou um comitê de especialistas que estabeleceu os seguintes critérios para regulamentar as pesquisas com esses parentes nossos.

1) O conhecimento adquirido com os chimpanzés deve necessariamente representar um avanço na área da saúde pública;

2) Não deve haver outro modelo experimental em que esse conhecimento possa ser obtido nem a possibilidade de realizar a pesquisa em seres humanos, por impedimentos éticos;

3) O chimpanzé que participar da pesquisa proposta deve ser mantido em ambiente física e socialmente apropriado ou em habitats naturais.

O comitê definiu, ainda, os critérios para os estudos sobre comportamento e genômica comparativa:

1) Devem fornecer dados que não poderiam ser obtidos de outra forma no terreno da genômica comparativa, saúde mental, emoção ou cognição;

2) Todos os experimentos devem ser realizados com procedimentos minimamente invasivos, em animais aquiescentes, de forma a minimizar a dor e o estresse.

 

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A aquiescência deve ser obtida em situações nas quais o chimpanzé não resista nem se rebele durante a intervenção proposta, nem precise ser ameaçado. Por exemplo: muitos animais são treinados para oferecer espontaneamente o braço na hora de colher sangue.

Os membros do comitê concordaram que a maioria dos estudos em andamento nas áreas de genômica comparativa e do comportamento já obedece aos critérios agora estabelecidos, ou pode ficar de acordo com eles desde que faça pequenas modificações. Trabalhos com animais estressados, irritados, assustados ou de alguma forma afetados pelo ambiente, não podem chegar a conclusões relevantes.

Quando houver necessidade de anestesia para a realização de um procedimento qualquer, o chimpanzé deverá contar com os cuidados de um veterinário que o submeterá a exames rotineiros.

Os membros do comitê reconhecem que “abandonar os estudos com chimpanzés poderá atrasar de forma significativa ou impedir avanços importantes para prevenir e controlar condições debilitantes ou que ameacem a vida humana”. Entre os estudos atuais, os mais importantes ocorrem na área das hepatites e dos anticorpos monoclonais.

O tema é complexo. A União Europeia baniu estudos com chimpanzés, gorilas, orangotangos e bonobos em 2010, mas abriu uma exceção: “Serão permitidas pesquisas com os grandes primatas, quando forem planejadas para combater condições debilitantes ou que ameacem a vida de seres humanos, desde que seus objetivos não possam ser atingidos com outras espécies ou métodos alternativos”.

Para complicar, a manutenção de um chimpanzé não sai por menos de U$ 44 por dia. Como eles vivem em média 40 a 45 anos, o custo total pode alcançar U$ 650 mil por animal.

Os que são contrários à proibição de experimentos com chimpanzés temem que o aparecimento de uma doença nova, para a qual não exista outro modelo experimental, venha colocar a humanidade em perigo, porque os chimpanzés se multiplicam devagar e demoram para atingir a vida adulta.

Mesmo que os estudos com chimpanzés acabem, dizem eles, será fundamental manter um pool de animais para uso em pesquisa, caso haja necessidade.