Drauzio

Os músculos da locomoção | Artigo

Ai, que preguiça | Artigo

Circuitos que movimentam os músculos da locomoção são semelhantes entre humanos, ratos, cavalos e aves.

 

Gostamos de acreditar que a vida evoluiu com o objetivo divino de chegar à espécie humana. Nessa visão antropocêntrica, a evolução teria criado para nós mecanismos inacessíveis aos demais seres vivos, justamente o oposto do que ensinaram Wallace e Darwin há mais de um século e meio.

No reino animal, o que nos diferencia são habilidades como escrever, falar e compor sinfonias. Do ponto de vista da motricidade, somos medíocres: corremos menos do que as onças, subimos em árvores com mais dificuldade do que os demais primatas, e seríamos incapazes de construir ninhos com a boca, como os pássaros.

Mal acabam de nascer, cavalos e bezerros já se equilibram e ensaiam os primeiros passos, enquanto nós levamos em média um ano para fazê-lo. Para muitos, essa é uma evidência de que andar sobre dois pés exigiria circuitos de neurônios fundamentalmente distintos daqueles dos mamíferos quadrúpedes.

O grupo de Nadia Dominici, da Universidade de Roma, acaba de publicar na “Science” um estudo sobre a atividade elétrica dos neurônios motores em recém-nascidos, crianças pequenas, pré-escolares e adultos, mostrando que, apesar das distâncias filogenéticas que nos separam dos ratos, gatos, cavalos e aves, a locomoção é controlada por uma circuitaria de neurônios semelhante à dos ancestrais que compartilhamos com eles.

 

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Os autores compararam a atividade elétrica em 20 músculos envolvidos na locomoção, em quatro grupos: bebês de11 a14 meses, crianças de 22 meses a 4 anos, adultos de25 a40 anos, e no “andar reflexo do recém-nascido”.

O “andar reflexo” é o que surge ao levantarmos o corpo do bebê, mantendo a sola dos pés em contato com uma superfície lisa. O movimento resultante pode ser reduzido a apenas duas fases: flexão-extensão das pernas e alternância entre as duas.

Como bebês anencéfalos também apresentam o mesmo reflexo, ele parece ser controlado pelas medula espinal e oblonga, estruturas preservadas nesses recém-nascidos inviáveis.

O reflexo de andar do recém-nascido é irregular e temporário: desaparece espontaneamente entre 4 e 6 semanas de idade (a menos que a criança esteja parcialmente imersa em água), para reaparecer ao redor dos6 a8 meses, evoluindo para o andar intencional.

Ao mesmo tempo, o tamanho, a massa e a proporção dos segmentos inferiores do corpo sofreram alterações dramáticas, em conformidade com as necessidades biomecânicas da locomoção.

À medida que a criança amadurece, a marcha passa a acontecer em quatro fases. Além da flexão-extensão e da alternância dos membros, surgem fases de transição, nas quais se estabelece o padrão de firmar a ponta dos dedos contra o solo para impulsionar a flexão das pernas. Essas fases são virtualmente idênticas às dos macacos Rhesus, gatos, ratos, camundongos, e também à de bípedes, como as aves.

Por que demoramos tanto para aprender a andar?

Um estudo conduzido entre 24 espécies de mamíferos mostrou que o intervalo entre a concepção e os primeiros passos está relacionado com o peso do cérebro adulto. Contado a partir da concepção, os elefantes demoram mais tempo para andar, seguidos pelos humanos, enquanto os ratos representam o extremo oposto. Se a gestação humana durasse 1 ano e 9 meses, sairíamos andando da sala de parto.

O cérebro precisa atingir certo grau de maturidade antes de adquirir a habilidade para andar. Como essa capacidade requer a interação de diversos sentidos, nos cérebros de maior tamanho é preciso mais tempo para que sejam instaladas entre os neurônios as conexões necessárias (sinapses).

Demonstrar que a locomoção humana utiliza circuitos semelhantes aos de todos os mamíferos e  até das aves, demonstra que eles já estavam presentes no ancestral de origem reptiliana que lhes deu origem, há mais de 130 milhões de anos.

O controle neurológico do sistema locomotor, entretanto, é ainda mais arcaico: emergiu nos primeiros vertebrados há 560 milhões de anos, num estágio em que os membros ainda nem haviam se desenvolvido.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.