O seio materno | Artigo

Amamentar o bebê por pelo menos seis meses traz benefícios vão além da redução do risco de infecções. Veja artigo do dr. Drauzio sobre os efeitos protetores da amamentação.

Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

mulher amamenta filho na cama. veja efeitos protetores da amamentação

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Publicado em: 26 de novembro de 2012

Revisado em: 21 de outubro de 2021

Amamentar o bebê por pelo menos seis meses traz benefícios vão além da redução do risco de infecções. Veja artigo do dr. Drauzio sobre os efeitos protetores da amamentação.

 

Deficiências nutricionais durante a vida fetal têm consequências mais duradouras do que sonha nossa vã filosofia.

Experimentos naturais, como a epidemia de fome dos invernos de 1944 e 1945 na Holanda em guerra e os jejuns religiosos, deram origem aos primeiros estudos sobre o tema.

Veja também: Veja o segundo episódio da série “Amamentação sem culpa”

Os efeitos tardios da Fome do Inverno Holandês incluem a obesidade dos homens ao atingir 19 anos, as características da deposição de gordura no corpo das mulheres e o aumento da incidência de esquizofrenia e hipertensão arterial.

Inquéritos epidemiológicos mostram que a exposição pré-natal ao prolongado jejum diurno, praticado pela mulher grávida por ocasião do Ramadã, aumenta em 20% a incidência de problemas de saúde na vida de adultos muçulmanos de Uganda e Iraque.

Há muito se sabe que deficiência de iodo durante a gravidez pode provocar rebaixamento do QI. Antes da adição de iodo ao sal de cozinha, essa era a principal causa de retardo mental infantil passível de prevenção. Num trabalho realizado na Tanzânia, meninas nascidas de grávidas que receberam suplementação de iodo apresentaram seis meses a mais de escolaridade do que os irmãos nascidos sem esse cuidado pré-natal.

Observações desse teor sempre foram vistas com reservas, porque as deficiências nutricionais durante a vida intrauterina e a primeira infância dependem do tipo, da intensidade, do período em que ocorreram, da dieta na primeira infância, da atividade física, das condições familiares, econômico-sociais e da predisposição genética.

Apesar das ressalvas, a literatura especializada acumulou evidências sólidas de que a subnutrição do feto está associada a diversas enfermidades crônicas na vida adulta. Hipertensão, doença coronariana, câncer e diabetes são algumas delas.

Mulheres que amamentam seus filhos correm menos risco de câncer de mama antes da menopausa, e de câncer de ovário.

Um levantamento conduzido no Brasil, Guatemala, Índia, África do Sul e Filipinas, mostrou que o tamanho do bebê ao nascer e o ganho de peso nos 48 meses seguintes guardam relação com a resistência à insulina, distúrbio metabólico associado ao risco de diabetes na vida adulta.

Amamentar o bebê por pelo menos seis meses traz benefícios que vão além da redução do risco de diarreia e outras infecções. Um estudo randomizado revelou aumento de seis pontos no QI das crianças amamentadas exclusivamente no peito, em relação às que não mamaram. Outros encontraram aumentos menores: da ordem de um a três pontos.

Além do ganho em inteligência, a amamentação oferece a vantagem de retardar a ovulação e as menstruações por períodos que vão além dos seis meses, evitando gestações muito próximas, responsáveis pelo aumento da mortalidade infantil e materna.

A amamentação nos níveis atuais comparada com a falta dela evita o nascimento de 53 milhões de crianças por ano, principalmente nos lugares mais pobres. Se todos os países reforçassem a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de amamentar exclusivamente no peito pelo menos durante seis meses, deixariam de nascer mais 12 milhões.

A amamentação reduz o impacto de enfermidades degenerativas, como hipertensão, diabetes, doença pulmonar obstrutivo-crônica, eventos cardiovasculares e obesidade, que consumiram globalmente 863 bilhões de dólares, em assistência médica e perda de horas no trabalho, no ano de 2010.

Mulheres que amamentam seus filhos correm menos risco de câncer de mama antes da menopausa, e de câncer de ovário.

Em 1996, uma pesquisa sobre as políticas públicas para promover a amamentação, com o objetivo de reduzir a mortalidade infantil na América Latina, publicada na revista “Health Policy Plan”, demonstrou que basta investir 150 dólares para evitar uma morte por diarreia. A estimativa coloca essa estratégia entre as intervenções mais custo-eficazes para a sobrevivência das crianças, com impacto comparável ao das vacinações.

Esse cálculo não leva em consideração os ganhos de QI nem a redução da incidência de doenças degenerativas, que consomem grande parte dos recursos destinados à saúde, mesmo nos países mais pobres do mundo.

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