Por mais de mil anos, o homem acreditou ser a Terra o centro do Universo. Nosso planeta estaria parado, e todos os corpos celestes girariam ao nosso redor.

Lá pela época em que o Brasil foi descoberto, Copérnico demonstrou que a Terra e os planetas rodavam pelo céu e que o movimento das estrelas na noite era causado pela rotação da Terra. Perdíamos a supremacia do centro de tudo.

Poucos anos depois, novo baque no orgulho humano: Galileu Galilei. Ele e os que vieram depois nos constrangeram a aceitar que nosso pequeno planeta não passava de um dos bilhões de componentes da Via Láctea, uma das bilhões de galáxias do Universo (se é que não existem bilhões de universos).

Como consolação, apegamo-nos ao fato de que a Terra, pelo menos, deveria ser um planeta especial porque nela vivemos nós, criados à imagem e semelhança de Deus. Por isso, não só as pessoas comuns, mas a ciência também acreditou por muito tempo que Deus havia criado todas as plantas e animais num só dia de trabalho.

Há 150 anos, apareceu Charles Darwin para resolver o problema dos fósseis colecionados nos museus britânicos: seres desaparecidos que guardavam semelhanças importantes com os atuais. Seriam eles ancestrais desses? Por que teriam desaparecido alguns e sobrevivido outros?

Darwin deu uma explicação simples: a vida na Terra seria um eterno competir e sobreviveriam apenas os mais aptos. Aqueles fósseis, eliminados por incompetência, teriam deixado descendentes portadores de características que lhes conferiram vantagens na competição.

Foi o golpe de misericórdia nas pretensões humanas: não passávamos de uma entre milhões de espécies que se formaram a partir das bactérias de 3,5 bilhões de anos atrás! O choque foi de tal ordem que 150 anos depois, na era da informática, muitos ainda combatem as ideias do naturalista inglês: como podemos descender de seres inferiores, se somos tão inteligentes?

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A única saída que restou para conciliarmos as evidências cristalinas da seleção natural com a vaidade humana foi a de nos voltarmos para um ser transcendental. Afinal, somos ou não a semelhança Dele? Deus tem barba e veste manto, nunca foi representado como um besouro, embora existam 300 mil, ou talvez 1 milhão, de espécies de besouros.

Conduzidos pela mão divina fica mais fácil aceitar a evolução: todas as espécies teriam sido criadas com o objetivo de evoluir até chegar ao objetivo final da evolução: o Homem. Afinal, temos o sistema nervoso de mais alta complexidade. Que mais poderiam almejar amebas, ostras, samambaias ou gorilas do que atingir a condição humana, um dia?

Assim, a evolução seria um rio caudaloso, ávido por desembocar na espécie humana. Todos os que ousaram opor-se à fúria de suas águas foram suprimidos pela seleção natural. Não estão aí os fósseis para provar?

Infelizmente, não foi tudo tão simples. Há 530 milhões de anos, houve uma explosão de biodiversidade na Terra. Entre milhões de espécies da época, há fósseis de uma única dotada de um eixo duro nas costas. Se ela não estivesse lá naquele momento, não teriam nascido os vertebrados de hoje.

Mais tarde, se não estivesse presente um pequeno grupo de peixes com os ossos distribuídos em torno de um eixo firme, central, que dificultava a natação, mas permitia a locomoção fora da água, não existiria a vida terrestre.

Os dinossauros dominaram o planeta por quase 200 milhões de anos. Enquanto andavam por aqui, os mamíferos não passavam de um pequeno grupo de roedores noturnos, assustados com o tamanho da vizinhança.

Então, há 65 milhões de anos caiu um corpo celeste no México, que abriu uma cratera de 10 quilômetros. O impacto levantou uma nuvem enorme de poeira e muitos vulcões entraram em atividade. A força física de nada valeu aos dinossauros no meio da poluição que se formou.

Azar deles, sorte nossa! Um desvio de milésimo de grau na trajetória do asteroide, e não estaríamos aqui para fazer filmes sobre eles.

Se, há 5 milhões de anos, não tivesse surgido na África um primata de um metro e pouco, franzino, mas capaz de andar ereto sobre duas pernas e viajar pelo planeta, nossa linhagem provavelmente estaria em extinção como a de nossos primos chimpanzés, muito mais fortes fisicamente.

Muitos preferem pensar que está evidente nessas coincidências a intenção divina. Afinal, tudo deu tão certo para nós. Outros acham que não é bem assim: deu certo para milhões de outras espécies também. Que diferença faz para uma formiga da floresta existirem homens e mulheres na face da Terra? E para os dinossauros e tantas espécies extintas a evolução foi justa?

Os que acreditam num gesto divino provocando sucessivas extinções em massa para abrir caminho ao nascimento do homem não admitem o acaso para explicar nossa presença neste momento. Para os outros, negar que o Homo sapiens tenha surgido por mera casualidade destroi a beleza da criação.