O Nobel de Medicina 2009 foi concedido a três cientistas que descobriram uma enzima chamada telomerase, capaz de repor as unidades de DNA perdidas durante a divisão celular.

 

A ciência encanta o homem tanto quanto a arte. Se considerarmos a criatividade humana como o ato através do qual a informação disponível é disposta de uma forma jamais imaginada, que diferença existe entre criatividade artística ou científica?

Um guidão de bicicleta se transforma em chifre de boi numa escultura de Picasso, por meio de um processo intelectual indistinguível daquele que Newton empregou para interpretar a queda de uma maçã, como resultado da força de atração que a gravidade exerce sobre os corpos celestes.

 

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Faço esse preâmbulo, leitor, porque na coluna de hoje tentarei explicar por que Elizabeth Blackburn, Carol Greider e Jack Szostak acabam de receber o Nobel de Fisiologia e Medicina.

Quando a estrutura do DNA foi elucidada nos anos 1950, ficou claro que nossos genes nada mais são do que moléculas. Nelas, a informação está codificada pelas sequências em que estão dispostas apenas quatro bases: adenina, timina, citosina e guanina. Em cada uma de nossas células, o DNA está arquivado em dois cromossomos: um recebido da mãe, outro do pai.

Como todos os seres vivos descendem de um ancestral comum, a estrutura química dos genes é sempre a mesma. Tanto faz se os genes são de tomates, eucaliptos, baleias, fungos, mosquitos, dinossauros extintos ou da mais reles das bactérias. Ao contrário do que pregam os místicos, a espécie humana não foi criada à imagem e semelhança de ninguém; surgimos há cinco ou seis milhões de anos através de um percurso penoso, no qual os menos aptos foram eliminados impiedosamente.

Partindo do princípio que nosso DNA não é melhor do que o dos outros, os três cientistas estudaram os cromossomos (as moléculas gigantes que arquivam o DNA) de um microrganismo que cresce em água parada (Tetrahymena) e de alguns fungos, com a convicção de que os resultados obtidos poderiam ser transpostos para a espécie humana.

Nesse trabalho conduzido nos anos 1970, perceberam que as extremidades dos cromossomos eram constituídas por uma sequência monótona de seis bases, repetidas até 50 vezes: os telômeros. Se compararmos o DNA com os cadarços de sapato, os telômeros corresponderiam à estrutura de plástico que protege as pontas dos cordões.

Sempre que uma célula vai se dividir, os cromossomos precisam ser duplicados para que cada célula-filha receba um par idêntico ao da que lhe deu origem. Ocorre que durante a divisão os telômeros encurtam, isto é, parte do DNA da extremidade é perdida. É como se as pontas do cadarço ficassem cada vez mais curtas cada vez que amarrássemos o sapato.

O encurtamento dos telômeros causa problemas para o organismo: quando eles se tornam muito curtos a célula não consegue mais se dividir. Incapazes de se multiplicar, as populações celulares não se renovam; está instalado o envelhecimento.

O que deu o Nobel aos três cientistas foi a descoberta de que existe uma enzima chamada telomerase, capaz de repor as unidades de DNA perdidas durante a divisão celular, impedindo o encurtamento dos telômeros.

Se existe essa enzima por que nossos telômeros encurtam levando-nos à senescência? Porque a telomerase só está ativa no início da vida, fase em que o organismo tem pressa para crescer.

Agora, imagine que, na vida adulta, um processo qualquer provoque ativação da telomerase em determinado tecido do corpo. Ao reparar a perda de DNA, a telomerase manteria as células em divisão sem os limites impostos pelo encurtamento dos telômeros, num processo oposto ao do envelhecimento. É exatamente o que acontece no
câncer: a multiplicação celular que não tem fim.

Atualmente, há ensaios clínicos promissores que empregam drogas e vacinas para inativar a telomerase, como estratégia de tratamento de tumores malignos.

Elizabeth Blackburn e Carol Greider continuam suas pesquisas com a telomerase. Jack Szostak abandonou o campo há vinte anos para explorar um tema mais relevante: como a vida teria surgido a partir das moléculas existentes em nosso planeta recém-nascido.

Cientista obstinado, Szostak já conseguiu demonstrar de que forma as primeiras bactérias teriam incorporado a molécula de RNA. Se conseguir explicar como esse RNA primordial se dividiu espontaneamente para formar células-filhas, terá elucidado um mecanismo que lhe dará o segundo prêmio Nobel.