Drauzio

Mortalidade e coronavírus | Artigo

monitor cardíaco. relação entre mortalidade e coronavírus no Brasil é complexa

Com a falta de testes, é difícil calcular a mortalidade do novo coronavírus no Brasil.

 

*Artigo publicado em 16/7/2020

Quando emerge uma nova doença infecciosa, é fundamental calcular a proporção de mortes em relação ao total de pessoas infectadas. No caso do novo coronavírus, o índice de fatalidade (IF = número de óbitos/ número total de infectados) divulgado em diversas cidades, regiões e países, é muito conflitante pelas seguintes razões:

Veja também: Quem é mais vulnerável a complicações pelo novo coronavírus

1) Até 40% das pessoas que adquirem o vírus, evoluem sem sintomas ou com sintomas mínimos insuficientes para levá-las ao sistema de saúde para receber o diagnóstico;

2) Em muitos países — entre os quais o Brasil — a dificuldade de acesso aos testes RT-PCR impossibilita a identificação de boa parte dos infectados;

3)  A mortalidade pela doença guarda relação com a qualidade do atendimento médico recebido;

4)  Como o intervalo entre os primeiros sintomas e o óbito pode chegar a dois meses, muitos casos não são notificados.

No início da epidemia, os dados superestimaram a mortalidade causada pelo coronavírus. Quando ocorreram as primeiras mortes na Europa, os cálculos do índice de letalidade eram de que estaria entre 0,5% e 10%, números muitos mais altos do que 0,1% a 0,5% que os epidemiologistas julgam refletir com mais precisão a realidade atual.

No Brasil, o índice de fatalidade apresentado nas estatísticas oficiais não merece crédito.

Smiriti Mallapatti publicou na revista “Nature” uma discussão sobre o tema, na qual explica que, para avaliarmos a mortalidade causada por um vírus, é preciso saber como ele se comporta ao infectar diferentes grupos populacionais. No caso de uma doença em que o comportamento do agente causador depende de fatores como faixa etária, etnia, acesso a cuidados médicos, classe social e a presença de comorbidades, estimar um índice geral de fatalidades é tarefa mais complexa.

Para complicar, o índice é específico para cada população e varia com o tempo, à medida que a doença se torna mais conhecida e os serviços de saúde mais preparados para enfrentá-la.

No fim de fevereiro, baseada nos números que vinham da China, a Organização Mundial da Saúde (OMS) calculava que haviam perdido a vida 38 pessoas em cada mil infectadas, número que, na cidade em que o vírus emergiu (Wuhan), chegaria a 58. Essas estimativas eram exageradas pela falta de testes para detectar os portadores assintomáticos.

Avaliações posteriores que empregaram outros modelos epidemiológicos projetaram índices de fatalidade, na China, entre 0,4% e 3,6%. Segundo o modelo empregado por Robert Verity, epidemiologista do Imperial College of London, o número mais próximo da realidade seria de 7 óbitos em cada mil infectados ou 0,7%, estimativa que cresce para 3,3% entre aqueles com 60 anos ou mais.

No Brasil, o índice de fatalidade apresentado nas estatísticas oficiais não merece crédito. Comparemos: Reino Unido, Espanha, Estados Unidos, Rússia e Bélgica testaram mais de 10% da população; Peru e Chile já se aproximam de 6%. A China fez mais de 90 milhões de testes, que alcançaram 6% dos habitantes.

Todos esses países continuam testando a população. O Brasil mal aplicou 3,5 milhões de testes, em cerca de 1,5% da população.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.