Monkeypox e racismo

A varíola dos macacos, chamada de monkeypox, assola a África há décadas, mas só se tornou mundialmente conhecida agora.

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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Publicado em: 29 de junho de 2022

Revisado em: 29 de junho de 2022

A varíola dos macacos, chamada de monkeypox, assola a África há décadas, mas só se tornou mundialmente conhecida agora.

 

É impressionante como o racismo contra os negros resiste. Não respeita sequer a ciência.

A doença que agora ganhou popularidade com o nome de “monkeypox” assola, há décadas, países como a Nigéria, a República Centro-Africana e a República Popular do Congo, sem que a ciência ocidental se dignasse a estudá-la. Afinal, a mortalidade associada a ela é baixa e ficava restrita aos negros.

Veja também: Da prevenção à vacinação, negros não são prioridade para os governos

Em entrevista à revista “Nature”, Ifedayo Adetifa, diretor do Centro Nigeriano para o Controle de Doenças, diz que os virologistas africanos estão muito irritados: lutam, há anos, atrás de fundos para financiar seus estudos sobre o poxvírus causador da doença. Bastou surgirem alguns casos fora da África para a ciência dos países mais ricos acordarem para o problema.

Em poucas semanas, foram descritos casos no Reino Unido, Portugal, Espanha, França e demais países europeus. Ao mesmo tempo, o vírus foi detectado na Austrália, Israel, Oriente Médio e Cingapura. Logo em seguida, vieram Canadá, Estados Unidos, Brasil, Argentina, Colômbia, Chile e outros países das Américas. Em dois meses, monkeypox se espalhou por mais de 30 países.

Embora tenham aparecido casos fora da África desde 2003, o que preocupa os especialistas é o fato de o vírus emergir ao mesmo tempo, em tantos países, nos cinco continentes, sem que se consiga estabelecer relações de contágio direto entre os grupos infectados. A multicentricidade permite concluir que o vírus esteja se disseminando localmente em transmissão comunitária.

No Brasil, o Ministério da Saúde havia confirmado 16 casos até o dia 23 de junho. Ao contrário dos 11 primeiros pacientes diagnosticados depois de viagens ao exterior para países com a presença desse poxvírus, os cinco últimos ocorreram em pessoas que não tinham saído do país (três em São Paulo e dois no Rio de Janeiro). O Ministério concluiu que a transmissão foi comunitária.

Desde que o surto atual começou, o DNA do vírus colhido em pacientes de diversos países europeus e dos Estados Unidos revelou sequências muito semelhantes às do poxvírus, que se dissemina no Oeste da África há décadas, provocando letalidade abaixo de 1%, mesmo em zonas rurais que não dispõem de serviços de assistência médica organizados. Essa cepa difere daquela que é mais prevalente nos países da África Central associada à mortalidade de cerca de 10%.

O problema é que o mundo praticamente parou de produzir vacinas contra a varíola humana, desde que a OMS declarou a doença extinta, em 1980.

As sequências analisadas também guardam similaridade com as dos casos ocorridos fora da África em 2018 e 2019, todos ligados a viagens para o oeste africano.

Tais semelhanças levantam a suspeita de que o surto atual fora da África teria sua origem num único paciente – ainda não identificado – infectado por contato com algum animal ou ser humano do oeste africano.

A hipótese de que a transmissão vinha ocorrendo de forma silenciosa na Europa e nas Américas é pouco provável numa doença que provoca lesões na pele facilmente reconhecíveis.

Identificar fatores genéticos para explicar o surto atual não será tarefa fácil. O genoma desse poxvírus é pelo menos seis vezes maior do que o do Sars-CoV-2. A essa dificuldade acrescenta-se a de que as sequências do vírus que se dissemina em partes do continente africano são mal estudadas, apesar das seguidas advertências dos virologistas de países como a Nigéria.

Um vírus com período de incubação longo (5 a 21 dias) oferece a possiblidade de vacinação preventiva dos contatuantes. A vacina contra a varíola do passado administrada em dose única, nos quatro primeiros dias depois do contágio, é considerada eficaz para prevenir a instalação do quadro clínico. Os sanitaristas das organizações internacionais, no entanto, não consideram factível nem justificável vacinar a população inteira. Defendem que o ideal, nesta fase, é imunizar os contatuantes, o mais depressa possível, e o pessoal de saúde encarregado do atendimento de pacientes infectados.

O problema é que o mundo praticamente parou de produzir vacinas contra a varíola humana, desde que a OMS declarou a doença extinta, em 1980.

Tedros Adhanom, da OMS, considera a doença uma “ameaça séria e em evolução, mas que, no momento, não constitui emergência em saúde pública”.

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