Drauzio

Cosme e Damião | Artigo

dois meninos de costas, assistem à partida de futebol próximos á rede. cosme e damião eram amigos desde a infância

Cosme e Damião foram dois amigos, cuja proximidade aumentou quando se casaram com duas irmãs.

 

Cosme e Damião foram criados um na casa do outro. Nascidos no mesmo dia, estudavam na mesma classe, iam e voltavam juntos da escola. Eram até parecidos, muita gente duvidava que não fossem irmãos.

Os apelidos vieram na adolescência. Churrascos, aniversários, cultos na igreja, não havia evento social em que um deles aparecesse sozinho. As diferenças se manifestavam aos domingos nos jogos da várzea: de gênio impositivo, Damião era um meio campista de rara habilidade, que fez fama no Jaçanã e adjacências com os dribles desconcertantes e os pontapés que revidava. Cosme, de compleição mais frágil, era goleiro reserva do mesmo time.

 

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Ao completar a maioridade, Damião abandonou o futebol e foi trabalhar numa metalúrgica da Vila Carrão; Cosme, num escritório da Barão de Itapetininga, no centro.

A distância não os afastou. Ao contrário, parece tê-los unidos ainda mais, especialmente quando começaram a namorar duas irmãs.

Casaram na mesma cerimônia evangélica, deram uma festa e viajaram em lua de mel para uma casa na Praia Grande, emprestada pelos tios das mulheres.

As irmãs não precisaram insistir para convencê-los a comprar dois apartamentos no conjunto habitacional em que viviam os pais delas, em Ermelindo Matarazzo, na zona leste. Cosme teve duas filhas; Damião, um casal.

A proximidade criou um estilo de vida comunitária que os amigos invejavam. Se um dos casais queria sair, os filhos ficavam com os tios; aos sábados e domingos, os almoços se alternavam entre as casas dos pais e das duas filhas. As chaves das portas eram compartilhadas de modo a evitar a inconveniência da campainha.

Os pequenos desentendimentos que infestam o cotidiano sempre se restringiram às irmãs. Os cunhados jamais se envolveram ou tomaram partido; quando interferiam, era para convencê-las a relevar as idiossincrasias da outra.

Na noite em que completou 50 anos, Damião sentiu uma dor em aperto, no peito. Cosme correu com ele para o hospital Santa Marcelina, referência na zona leste. Não fosse o pronto atendimento, teria morrido de ataque cardíaco. Teve alta com a recomendação de perder 20 quilos, parar de fumar e fazer exercícios.

Seis meses mais tarde, num sábado em que as mulheres tinham viajado para o enterro da tia, na Praia Grande, Cosme desceu até a casa do cunhado para tomar um café e contar as novidades da semana, como de hábito. Encontrou-o de calção, camiseta e tênis.

— Criou vergonha na cara, meu?

Damião tinha decidido seguir os conselhos médicos. Quando Cosme se ofereceu para fazer-lhe companhia na caminhada, recusou:

— Depois, preciso passar na casa de um amigo.

Cosme preparava uma caipirinha, quando o telefone tocou. Do outro lado, uma voz angustiada:

— O Damião morreu aqui em casa, me ajuda pelo amor de Deus.

Incrédulo, insistiu em saber quem era o interlocutor que chorava compulsivamente. Só se convenceu de que podia ser verdade, quando ele descreveu as roupas que o cunhado vestia.

No endereço, o rapaz o esperava na porta do prédio. Subiram até uma quitinete do segundo andar. Damião jazia na cama de casal, com um copo de leite pela metade, ao lado da mão inerte.

Depois do silêncio contemplativo que a morte impõe, Cosme perguntou como Damião fora parar naquele local.

— É uma longa história de amor.

Os dois tinham um caso que durava quase dez anos, entre idas e vindas.

Perplexo, Cosme olhou fundo nos olhos inchados do outro:

– Se você amou o meu amigo, tem todo meu respeito, mas esse segredo vai morrer entre nós.

Dirigiu-se à Funerária e providenciou o transporte do corpo para o Instituto Médico Legal. Voltou para o lado do amigo, até chegar o camburão.

Só então telefonou para as mulheres no litoral. Para as filhas e sobrinhos, deu a notícia pessoalmente. A todos contou que Damião tinha saído para tomar cerveja com amigos. Passou mal. Um deles, que morava na esquina do bar, levou-o para descansar em casa, trouxe-lhe um copo de leite para a azia e foi atender o telefone. Quando voltou, encontrou-o sem reação.

Na saída do cemitério com a esposa, lamentou:

— Que tristeza, ver meu amigo morto na cama de um estranho.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.