Presente em 8,3% dos adultos em todo o mundo, a diabetes segue na esteira da epidemia de obesidade e atualmente se fala até em cirurgia para diabetes.

 

O diabetes segue na esteira da epidemia de obesidade.  No mundo, cerca de 8,3% dos adultos sofrem da doença, prevalência que aumentará para 10% em 2030. Nos casos de obesidade grave, a prevalência chega a 23%.

O tratamento com medicamentos permite controlar os níveis sanguíneos de glicose, desde que os pacientes percam peso, sigam dietas rigorosas, abandonem a vida sedentária e tomem os remédios com regularidade, prescrições que poucos conseguem seguir à risca.

O descontrole da glicemia está associado a complicações graves: infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência renal, cegueira, neuropatia periférica e amputações de membros. Paradoxalmente, a insulina e outros medicamentos empregados no tratamento hipoglicemiante provocam aumento de peso, condição que dificulta a normalização dos níveis de glicose.

 

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É pensamento mágico imaginar que alguém seja capaz de controlar a glicemia por muitos anos, unicamente à custa de remédios. Nos anos 1990, quando as operações para redução de volume do estômago (cirurgias bariátricas) começaram a ser indicadas para tratamento da obesidade, os cirurgiões verificaram que muitos pacientes entravam em remissão do diabetes sem haver necessidade de medicá-los.

Essas observações demoraram mais de dez anos para serem levadas a sério, porque havíamos aprendido na faculdade que a doença é incurável. Naquele tempo, quem poderia imaginar que os cirurgiões curariam diabetes?

No fim de abril, foram publicados dois estudos randomizados no The New England Journal of Medicine, nos quais um grupo de diabéticos obesos recebeu tratamento medicamentoso convencional, enquanto o outro foi encaminhado para cirurgia bariátrica.

O primeiro estudo, coordenado por um grupo da Cleveland Clinic, acompanhou, durante dois anos, 150 adultos obesos, com diabetes descontrolado. Eles foram sorteados para receber os medicamentos convencionais ou cirurgia bariátrica realizada segundo duas técnicas diferentes.

Depois de dois anos, o grupo submetido à cirurgia havia emagrecido de 25 kg a 29 kg, enquanto os que foram tratados clinicamente perderam em média 5,4 kg. Entraram em remissão completa do diabetes 75% a 95% dos pacientes operados (variação de acordo com o tipo de cirurgia), contra nenhum dos casos tratados clinicamente.

O segundo estudo foi conduzido por um grupo da Universidade de Roma em conjunto com colegas da Cornell University. Sessenta portadores de diabetes diagnosticado há mais de cinco anos, também foram divididos em dois grupos: as mesmas duas técnicas de cirurgia bariátrica versus tratamento clínico convencional.

Depois de um ano, a glicemia estava rigorosamente controlada em 37% a 42% dos operados; naqueles tratados clinicamente, menos de 6% apresentavam glicemias normais.

Em ambos ensaios, a cirurgia bariátrica obteve controle metabólico superior ao dos hipoglicemiantes. Em nenhum deles houve óbitos ou complicações cirúrgicas graves.

Isso quer dizer que devemos reduzir o estômago de todos os portadores de diabetes?

A resposta é ainda não. Os resultados publicados até agora se referem a pequeno número de pacientes acompanhados durante um ou dois anos, períodos curtos para avaliar uma condição crônica como o diabetes.

Embora seguras em mãos experimentadas, cirurgias bariátricas não são desprovidas de complicações; deficiência de micronutrientes como vitamina B12 e ferro são algumas delas. Há pacientes que se adaptam mal à nova realidade e desenvolvem quadros psiquiátricos; a incidência de alcoolismo entre os operados aumenta.

Há ainda a dúvida sobre o significado das remissões induzidas pela cirurgia: seriam temporárias ou representariam curas definitivas?

A International Diabetes Federation reconhece a cirurgia bariátrica como tratamento adequado para os casos de diabetes do tipo 2 em obesos, nos quais a glicemia não é controlada pelos tratamentos medicamentosos disponíveis.