Drauzio

Ciência e ignorância | Artigo

cientista de luva e máscara segura comprimido de hidroxicloroquina.

Nenhum estudo científico, essencial para demonstrar atividade de um medicamento contra determinada enfermidade, mostrou que a hidroxicloroquina é eficaz para tratar covid-19.

 

A ciência é uma frágil conquista civilizatória da sociedade baseada no raciocínio lógico, na observação empírica, na significância estatística, no confronto de dados e na reprodutibilidade dos experimentos, regra segundo a qual a repetição de uma experiência deve levar aos mesmos resultados, independentemente do observador.

Veja também: Existem drogas para tratar  a covid-19?

Não é tarefa simples convencer sociedades inteiras de conceitos tão abstratos. Veja o caso do uso da hidroxicloroquina no tratamento da infecção pelo atual coronavírus, droga dotada de ação antiviral no tubo de ensaio, já testada sem sucesso contra dengue, gripe, zika, chikungunya e outras viroses.

Para demonstrar atividade de um medicamento contra determinada enfermidade, para a qual não há tratamento conhecido, o estudo deve pertencer à categoria dos ensaios clínicos controlados, randomizados, prospectivos, em duplo-cego.

Isso quer dizer que os participantes precisam ser alocados ao acaso para dois grupos: um deles servirá de controle, outro receberá pela primeira vez a droga em teste. No entanto, como o simples ato de tomar remédio altera a percepção dos sintomas que nos afligem, os pacientes não devem saber para que grupo foram sorteados. Da mesma forma, é preciso evitar que o julgamento do médico seja comprometido.

Para evitar esses vieses, há necessidade de administrar um placebo para o grupo-controle, comprimido inerte (geralmente talco), com aparência idêntica à do que contém a droga em teste, de modo que nem o participante nem o médico possam identificar quem está em cada grupo (duplo-cego).

No caso específico da hidroxicloroquina, nenhum estudo prospectivo, randomizado, controlado, em duplo-cego, mostrou que os pacientes tiveram qualquer benefício em comparação com os que receberam placebo.

Os participantes serão seguidos até que o número de desfechos clínicos nos dois grupos (cura, piora, mortalidade, sobrevida ou outro), seja suficiente para que os dados nos deem pelo menos 95% de certeza de que são significantes do ponto de vista estatístico.

Como explicar a necessidade de estudos tão detalhados para quem não teve formação científica? É muito mais fácil para os mistificadores contestá-los com base em crenças pessoais, opiniões, dados falsos, interesses políticos ou financeiros. Nem precisam se dar ao trabalho de contra-argumentar, basta colocar os resultados em dúvida: “não é bem assim”, “eu não acredito nisso”.

Médicos criteriosos se baseiam em estudos conduzidos com tanto rigor, porque foi graças a eles que a Medicina contribuiu para duplicar a expectativa de vida da população, no decorrer do século 20.

No caso específico da hidroxicloroquina, nenhum estudo prospectivo, randomizado, controlado, em duplo-cego, mostrou que os pacientes tiveram qualquer benefício em comparação com os que receberam placebo.

Então, por que há médicos que a prescrevem? A resposta, prezado leitor, deixo a seu critério.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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