Barato muito louco

Dr. Drauzio conta a história de um preso por tráfico de droga que vendia uma substância muito estranha.

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

casca de fruta ralada em uma tigela. preso por tráfico de droga vendia casca de fruta como droga

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Publicado em: 4 de julho de 2022

Revisado em: 4 de julho de 2022

Dr. Drauzio conta a história de um preso por tráfico de droga que vendia uma substância muito estranha.

 

O paciente entrou algemado. O funcionário que me ajuda no atendimento veio com a chave.

O rapaz magrinho se coçava, de dar aflição. Chegou a pedir licença para esfregar as costas contra a soleira da porta. Quando levantei a camiseta surrada que ele vestia, confirmei o óbvio: escabiose.

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Desde os tempos do antigo Carandiru, as prisões masculinas que frequentei, vivem infestadas de sarna. Nas celas coletivas dos Centros de Detenção Provisória (CDPs) ocupadas por mais de 20 homens à espera de julgamento, o parasita deita e rola. Alojado na pele, causa lesões nas axilas, nas dobras dos dedos, na região pubiana, no pênis e nas nádegas, para depois se espalhar pelo corpo todo. O ato de coçar machuca a pele e serve de porta de entrada para bactérias, que formam furúnculos e abscessos.

Pedi que tirasse a roupa. Era uma infestação tão intensa e generalizada, que provocava descamação grosseira da pele. Em vários locais, havia feridas infectadas.

Falei que prescreveria uma injeção de penicilina, sabonete contra a sarna e dois comprimidos de ivermectina, droga que o deixou assustado: “Eu estou com covid?”

Expliquei que ivermectina é bom para sarna e inútil para a covid. Enquanto preenchia a receita, perguntei em que artigo estava enquadrado: “Trinta a três, doutor”.

Mulheres e homens presos evitam falar dos crimes cometidos, preferem se referir a eles pelo número do artigo do Código Penal.

Maconha ou cocaína?

– O que é isso, doutor? Nunca usei nem mexi com essas coisas.

– O que você traficava?

– Casca de fruta ralada.

– Ô meu! Atendo em cadeia há mais de 30 anos. Você tá me tirando?

– Não, doutor, com todo respeito. Eu vendia casca de fruta pros maluco fumar na quebrada.

– E dá barato?

– Ô se dá. O baguio é doido.

Contou que trabalhara como mecânico dos 15 aos 25 anos numa oficina na Grande São Paulo. Ganhava o suficiente para alugar a casa de dois cômodos em que morava com a esposa e o filho pequeno. Em 2016, quando ele e a mulher ficaram desempregados, a solução foi mudarem para a pequena chácara do avô, na periferia de Caieiras.

O barato veio com tudo. O cidadão estonteou, falava que saiu do corpo, que estava ali, mas não estava mais, que as árvores contorciam, que o meu cachorro ria da cara dele.

Para não viver às custas do avô aposentado, fazia o que aparecesse. Foi servente de pedreiro, entregador, carregador, guardador de carro, vendedor de porta em porta e segurança de um desmanche, local em que conheceu o amazonense que veio com a história dos indígenas que fumavam as cascas da tal fruta.

Ele não levou a sério, mas resolveu experimentar. Não precisou comprar, na chácara havia quatro pés carregados. Ralou a casca e deixou no sol para secar por três dias. Quando deu as primeiras tragadas, sentiu o baque:

– Doutor, do céu, fiquei leve, solto no ar, na paz, tudo psicodélico em volta.

Daí, para começar a vender “pros maluco” das redondezas, foi um passo. O entra e sai na chacrinha não preocupou o avô, incapaz de entender o gosto daquela gente que comprava casca de fruta.

Comercializava cada saquinho pequeno a R$ 50, quantia de um dia inteiro de trabalho nos bicos que fazia. Comprou roupa para a família, TV nova, brinquedos para o filho, presentes para o avô. A vida melhorou tanto que não fazia sentido procurar emprego.

Um dia apareceu um PM. Queria saber em que lugar estava a plantação de maconha, única justificativa para tanto movimento no portão. Trazia dois saquinhos apreendidos com um usuário.

– Quando expliquei qual era o conteúdo, o homem ficou bravo, ameaçou me bater. Eu insisti, ele continuou duvidando, até que falei para fazer um teste: se ele sentisse o efeito, me deixava livre.

Preparou um cigarro e recomendou ao policial que pegasse leve, porque o “baguio era muito doido”. O conselho não foi seguido. Sem sentir efeito, o PM deu uma tragada atrás da outra, apesar das admoestações. De repente:

– O barato veio com tudo. O cidadão estonteou, falava que saiu do corpo, que estava ali, mas não estava mais, que as árvores contorciam, que o meu cachorro ria da cara dele.

O policial descumpriu o trato. Enquadrado no artigo 33, o rapaz aguardava sentença havia cinco meses. Quando eu disse que não seria condenado por vender casca de fruta, e que um advogado conseguiria libertá-lo, esboçou um sorriso:

– Advogado, eu? Preto e pobre.

Você, leitor, deve estar curioso para saber que fruta é essa. Pois, vai ficar na curiosidade, como eu. Ele não quis contar, alegou segredo de ofício.

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