Ela chegou sorrateira, quase imperceptível, no fundo da alma. Até fiquei em dúvida se estaria mesmo presente.

Tudo bem naquele fim de tarde, nenhum problema familiar, financeiro ou ligado ao trabalho me importunava, nenhum doente passava mal. Na frente do computador, eu escrevia um artigo, atividade para a qual tenho pouco tempo e que me dá muito prazer.

Quando percebi, estava melancólico, com os olhos fixos na tela, perdido em pensamentos fragmentados alheios ao texto.

Fui até a janela. O centro de São Paulo refletia a luz alaranjada que o pôr do sol projetava na fachada dos prédios. A silhueta da Serra da Cantareira nos confins da zona norte e os jacarandás da calçada desfolhados pela seca compunham a imobilidade solitária e desesperançada dos quadros de Hopper.

Não tenho experiência, entretanto, em lidar com angústias que invadem o espírito sem razão que as justifique. Muito menos com a sensação de aperto que se instalou meio no peito, meio na garganta.

Procurei reagir. Tentei pôr ordem nas revistas científicas que empilho na mesa à espera de tempo para ler, mas me aborreci e voltei à janela.

Pensei em ir para a rua, tomar um café, um copo de cerveja, ligar a TV, assistir a um filme, telefonar para um amigo ou alguém da família, mas faltou ânimo. Ouvir música, nem pensar. Naquele estado, samba do Zeca Pagodinho virava marcha fúnebre. A tristeza paralisa, é areia movediça em que atolamos sem disposição para o esforço de sair.

Os anos me ensinaram a enfrentar com racionalidade os desencontros e as frustrações que o dia a dia impõe. Faço de tudo para impedir que a dor de uma perda não me torne amargurado nem descrente do sentido que a duras penas consegui atribuir à existência. A maturidade, conselheira persistente, traz alguma sabedoria para evitar que as adversidades nos roubem a alegria de estarmos vivos.

Não tenho experiência, entretanto, em lidar com angústias que invadem o espírito sem razão que as justifique. Muito menos com a sensação de aperto que se instalou meio no peito, meio na garganta.

 

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A dor trouxe meu pai à memória.

Era um homem dedicado a manter a família e à criação dos filhos, responsabilidades que lhe exigiam trabalhar em dois empregos, das 8 da manhã à meia-noite. Num tempo em que nem aos sábados havia folga, o único dia em casa era o domingo, que ele passava entre dezenas de vasos de flores e o pequeno jardim na frente do sobrado em que morávamos.

O prazer silencioso que as plantas lhe davam era contagiante. Eu gostava de sentar no chão para observá-lo nessas horas. No fim da tarde, depois do banho, ele vinha para a poltrona da sala, ensimesmado, com a fisionomia carregada. Era tomado por uma angústia que ele comparava à do momento em que fecham a tampa do caixão de um ente querido.

A fim de torturá-lo, o padre da paróquia do bairro colocava a “Ave Maria”, de Gounod, que anunciava a missa das 6. Meu pai fechava as janelas e as cortinas para abafar a música que associei para sempre à angústia que ele sentia.

No frontispício do Pavilhão Dois do antigo Carandiru, havia um alto-falante para dar avisos e convocar presos para audiências, conhecido por todos como Rádio Boca de Ferro.

O vai e vem dos presidiários deixa mais descontraídas as manhãs das cadeias. Chegam a dar a impressão de alunos num internato. À medida que a tarde avança, no entanto, o ambiente fica mais pesado, até atingir o auge no horário em que os carcereiros com os molhos de chaves trancam cela por cela. É quando o bater metálico das portas e o estalido dos cadeados ecoam pelas galerias vazias, que o aprisionamento mostra sua face mais impiedosa.

Eu entrava na cadeia na hora do almoço e saía à noite. Não é que pontualmente às 6 da tarde, um infeliz colocava na Boca de Ferro um disco com a “Ave Maria” que me evocava a tristeza da infância.

Uma segunda-feira em que terminei mais cedo o atendimento na enfermaria, atravessei o pátio central que dava acesso aos pavilhões no momento exato em que os camburões desembarcavam os presos transferidos das delegacias. Eram cerca de 50, que formaram fila indiana à espera da triagem.

Parei para conversar com o funcionário que os vigiava, um homem de cabeça raspada que dava dois de mim na altura e na largura, afamado por impor disciplina com metodologia pouco convencional, quando o alto-falante rachado da Boca de Ferro entoou a “Ave Maria”.

O cair da noite, os recém-chegados, as muralhas a confiná-los e a “Ave Maria” angustiaram meu interlocutor:

– Eu nessa fila, doutor, com essa trilha sonora, cortava os pulsos.

Meu pai faria o mesmo.