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A saúde na pandemia | Artigo

pessoas na índia aguardam atendimento médico. Pandemia pode gerar uma sindemia de outras doenças

A pandemia do novo coronavírus pode gerar uma sindemia, quando duas ou mais doenças interagem de forma a causar danos maiores do que a soma delas, no mundo todo.

 

O novo coronavírus causou prejuízos de toda ordem. Entre eles, a execução de três programas prioritários da Organização Mundial da Saúde (OMS): vacinação contra a poliomielite, diagnóstico e tratamento da tuberculose e o combate à malária.

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Algumas das barreiras enfrentadas por esses programas já existiam antes da chegada da pandemia. Em agosto de 2020, depois de passar quatro anos sem detectar um caso sequer na África, a OMS certificou que a poliomielite estava erradicada do continente africano.

No entanto, a pretensão de eliminar a doença do mundo (como aconteceu com a varíola) tem fracassado, porque a vacinação universal em zonas conflagradas como as das cidades e povoados ao longo da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, demonstrou ser muito difícil.

No ano de 2020, as interrupções da imunização contra a pólio provocadas pela pandemia do coronavírus deixaram, somente no continente africano, cerca de 80 milhões de crianças sem receber a vacina. A OMS defende um grande esforço para a cobertura vacinal desse contingente, para evitar o retorno da poliomielite ao continente.

No combate mundial à tuberculose, a OMS tinha estabelecido a meta de reduzir em 25% a incidência de casos e em 35% a de mortes pela doença, até 2020. Como dos U$ 2 bilhões que pretendia investir em estratégias para atingir esses números, só foi possível aplicar U$ 900 milhões, os resultados frustraram essas expectativas. A Agência admite agora que haverá aumento de 1 milhão de casos anuais, até o ano de 2025.

Apesar desses dissabores, a Organização lançou, em 2020, a campanha “Estratégia Global para Acelerar a Eliminação do Câncer Cervical”, destinada a erradicar o câncer de colo uterino.

Os programas de controle e tratamento da malária – uma das principais causas de óbito em vários países africanos – também sofreram o impacto da pandemia. A OMS esperava chegar em 2020 com redução de 37% na incidência de casos e 22% na de mortes. As dificuldades de acesso aos centros de diagnóstico e de tratamento causadas pela necessidade de adotar medidas de afastamento social para deter a disseminação do coronavírus, serão responsáveis por dezenas de milhares de óbitos nos países da África abaixo do deserto do Saara.

Apesar desses dissabores, a Organização lançou, em 2020, a campanha “Estratégia Global para Acelerar a Eliminação do Câncer Cervical”, destinada a erradicar o câncer de colo uterino. A iniciativa pretende vacinar contra o HPV (papilomavírus) 90% das meninas antes dos 15 anos de idade e garantir acesso ao tratamento de pelo menos 90% das mulheres diagnosticadas com a doença, até 2030. É o primeiro esforço internacional para eliminar um tipo de câncer para o qual existe vacina.

Se adicionarmos as dificuldades que a pandemia acrescentou ao acesso à assistência médica para controle das doenças crônicas, como diabetes, hipertensão arterial e suas complicações, é possível entender por que os técnicos consideram que o coronavírus causou uma sindemia, termo criado pelo médico e antropólogo americano, Merrill Singer, para caracterizar situações em que duas ou mais doenças interagem de forma a causar danos maiores do que a soma delas.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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