Coronavírus

Brasilândia: Qual a situação do bairro de SP no combate à pandemia?

Brasilândia, um dos bairros mais afetados em São Paulo pela pandemia do coronavírus. Foto: Avelino Regicina (CC BY-SA 2.0)

O bairro com o maior número de mortes por coronavírus em São Paulo sofre com desinformação e descaso do governo.

 

A pandemia do novo coronavírus segue avançando pelo país. Até o dia 8 de junho, mais de 693.953 casos e 36.593 mortes foram registradas em todo o Brasil. São Paulo, primeiro estado a registrar um caso de Covid-19, é o mais afetado, respondendo por 17,7% do total nacional. Mesmo assim, a quarentena decretada pelo governador João Doria tem se mostrado ineficaz no controle da pandemia; o estado vem mantendo um índice de isolamento social de cerca de 52%, quando o ideal para conter a disseminação do vírus teria de ser por volta de 70%.

A capital paulista é o epicentro dos casos no estado. Entre os bairros afetados, a Brasilândia, na zona norte da cidade, revela o pior cenário. O 7º bairro mais populoso da capital, com 264.918 habitantes, sendo 50,6% de negros, é também um dos mais pobres. Cerca de 20% das famílias possuem renda menor que dois salários mínimos, de acordo com o último dado do IBGE, publicado em 2000. É também o segundo bairro com mais favelas na cidade – cerca de 29% do total de domicílios. Na região, foram registradas 185 mortes até 20 de maio, mais que oito vezes a contagem do Morumbi, bairro de classe alta que possui 23 óbitos.

Outros problemas da região, como falta de saneamento e energia elétrica, moradia precária e alta prevalência de trabalhadores informais, impossibilitam o isolamento social. A soma desses fatores é uma bomba, e a chegada do coronavírus acendeu o pavio.

 

Palavra do morador

 

“Essas semanas ouvi falar muito por aqui frases como ‘Não tem jeito. Quem tiver que pegar vai pegar. Não tem como evitar, ainda mais aqui.’”, afirma o artista visual Griô, morador da região. Apesar de estar cumprindo a quarentena trabalhando em casa, ele entende que cumprir o isolamento é uma das maiores dificuldades dos moradores da Brasilândia devido às condições de moradia. 

Sua família, por exemplo, mora em um terreno (pejorativamente chamado de cortiço) dividido por 20 pessoas distribuídas em cinco casas. Com poucos cômodos, cada casa possui um quarto onde dormem de três a cinco familiares. Das pessoas que trabalham, três fazem jornadas em hospitais, o que aumenta o risco de infecção. Outras três pessoas são diaristas que, apesar de terem reduzido o número de dias de trabalho, ainda vão esporadicamente, às vezes percorrendo longas distâncias em que ficam expostos ao coronavírus. O auxílio de 600 reais fornecido pelo governo federal é insuficiente para que possam permanecer em casa.

O uso de máscaras, uma das principais medidas para prevenir o vírus, passou a ser obrigatório em todo o Estado de São Paulo. “Na maioria das vezes as pessoas não têm a informação sobre como usar de forma correta e acaba sendo uma medida ineficaz. Vejo máscaras abaixo do nariz, pessoas coçando olhos e boca durante o uso, usando apenas em alguns momentos”, alerta o artista. A falsa segurança que a máscara traz — visto que ela diminui o risco de propagar a doença, mas não de pegar — contribui para que a população afrouxe o isolamento.

É a mesma situação que Sofia Schuvab tem visto na Vila Nina, bairro que pertence ao distrito da Brasilândia. “Estou em quarentena há 3 meses. Saí duas vezes por extrema necessidade e vi que aqui no bairro e mais pro centro da Brasilândia, a maioria da pessoas não está aderindo às normas, tem muita aglomeração, comércios abertos e as pessoas não usam máscaras”, afirma a estudante de design.

Assim como Griô, a família de Sofia consegue trabalhar em casa, o que diminui a exposição ao vírus, mas ela enxerga que para a maioria da população da região o isolamento pode ser uma tarefa complicada. “Já é difícil fazer um isolamento em um casa no Morumbi, por exemplo, por questões psicológicas e sociais entre a própria família. Agora coloca tudo isso com uma casa pequena que não atende às necessidades das pessoas, além da fome e da falta de dinheiro. É desconfortável física e mentalmente.”

O coronavírus chegou ao Brasil com o rótulo de “doença que só pega idosos”. Isso fez com que o discurso se reproduzisse em prática, com jovens mais relaxados que ignoravam o fato de que, embora tenham menos risco de morrer, continuam podendo matar ao transmitir o vírus a pessoas mais vulneráveis. Griô diz que nota na Brasilândia a diferença no comportamento dessas faixas etárias. “Os mais jovens daqui frequentam lugares aglomerados sem o cuidado necessário, dividindo copos e narguilés, sem usar máscara nem álcool gel o tempo todo. Acredito que esse perfil é o que acaba espalhando mais a doença e até levando para dentro de casa.”

A maioria da população depende dos órgão públicos para receber o suporte necessário para passar essa fase, seja pela questão financeira ou pela prevenção e diminuição de casos. Em São Paulo, porém, as medidas tomadas pelo governantes parecem ser insuficientes. “Acredito que o que a prefeitura está fazendo ainda é básico, infelizmente não alcançaram todas as pessoas. À população está se apoiando nas ONGs e projetos de arrecadação para ter o mínimo. O auxílio emergencial [do governo federal] é o começo”, afirma Sofia.

 

Nós por nós

 

Algumas dessas ações que buscam ajudar os moradores estão centralizadas na Rede Brasilândia Solidária, um coletivo com mais de 30 organizações que nasceu em meio à pandemia para ajudar a diminuir os impactos na região. “Pedágio” informativo, carro de som, distribuição de máscaras e contato com famílias que precisam de doações são algumas das ações desenvolvidas em parceria com os agentes de saúde do perímetro pelos nove núcleos (saúde, educação, comunicação, trabalho e renda, juventude, assistência social, captação de recursos, cultura e atendimento à pessoa com deficiência). “Nossa meta é distribuir 500 mil máscaras. Ela é fundamental para minimizar as infecções, mas ela sozinha não é o suficiente”, afirma Jabes Campos, um dos integrantes da Rede, que vem tentando contato com órgãos públicos para desenvolver ações conjuntas mais efetivas na prevenção e atendimento da população.

Cerca de 15 postos de saúde estão distribuídos pela Brasilândia e recebem os casos suspeitos de coronavírus, mas já mostram sinais de não dar conta. “Por mais que os profissionais de saúde se desdobrem — e eles estão fazendo isso — eles não conseguem fazer o atendimento da população, identificar os infectados e encaminhar para os hospitais”, afirma Jabes. É um reflexo da sobrecarga do sistema e da falta de testagem adequada. Antes mesmo da pandemia, o bairro já se encontrava em situação de difícil acesso à saúde. De acordo com o Mapa da Desigualdade de 2019, a Brasilândia é o segundo pior da cidade em tempo de espera para uma consulta com clínico geral na rede pública, com tempo de espera de 62 dias. Imaginemos no cenário atual.

O recém-inaugurado Hospital da Brasilândia foi entregue com apenas 36 leitos, entre eles 20 de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), necessária para atender os casos mais graves da doença. A maioria dos moradores da região com complicações acaba encaminhada para o hospital de campanha do Anhembi, mas a progressão da pandemia preocupa: sistema público de saúde da região metropolitana de São Paulo se encontra com 80,1% dos leitos de UTI ocupados.

No ranking de países mais casos pela covid-19, o Brasil se encontra na segunda colocação, atrás apenas dos Estados Unidos. Mas segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre os dez países com mais casos é o que menos realizou testes, ou seja, estamos longe de saber o número real de infectados. “A gente pedir para que os moradores daqui façam isolamento social é uma ilusão. Nós falamos para a população fazer o isolamento possível. Nós precisamos de testagem em massa para que a gente possa separar os infectados das pessoas não contaminadas”, afirma Jabes.
Cerca de 40% dos moradores da região são trabalhadores informais, de acordo com a Rede. Mesmo quem recebeu o auxílio emergencial, muitas vezes continua precisando sair para o trabalho para complementar a renda. Outros encontram-se em situação de ainda maior vulnerabilidade e necessitam doações de cestas básicas e do Auxílio-Merenda de 55 reais, fornecido pelo governo de São Paulo aos alunos matriculados na rede pública. Jabes afirma que a Rede fez um pedido de 6 mil cestas básicas para a Cruz Vermelha para os próximos três meses. “Mas sabemos que não é o suficiente. O número real é bem maior.”

Criatividade

 

Outro morador que começou a agir para tentar diminuir os efeitos da quarentena é Ivan Nascimento, formando em Educação Física. Ele passou a ministrar aulas gratuitas de ginástica para os vizinhos. Nascido e criado na Brasilândia, o estudante ganhou notoriedade na mídia após sua ação repercutir em jornais de televisão. Ele mora com a esposa e quatro filhos, que sem ir para escola, ficam com atividades restritas na casa de quatro cômodos. Ivan começou, então, a passar treinos específicos para as crianças gastarem energia.

Ele postou um vídeo da atividade nas redes sociais e um amigo sugeriu fazer as aulas para mais pessoas.
Fiz contatos com meus vizinhos da frente, avisando que no outro dia ia fazer a aula. Eu subi na laje às 10 horas da manhã, as pessoas apareceram nas suas sacadas, nas lajes, e foi bom ver elas participarem”, afirma ele. Seu raio de alunos se tornou maior com a aparição dele na mídia e hoje as aulas estão “lotadas”. Ocorrem aos sábados, domingos e feriados.

O formando é uma das pessoas que perderam suas fontes de renda por conta da pandemia. Foi com os “Aulões na Laje”, como ficou conhecido o projeto, que Ivan conseguiu um emprego em uma rede de academias. “Estamos fazendo ações em condomínios e lares de idosos. A gente passa os exercícios para as pessoas sem elas saírem de casa, de cima de um caminhão”, conta ele.

Antes disso, Ivan estava saindo de casa apenas para atividades essenciais, como ir ao mercado. Com o novo emprego, ele voltou a utilizar o transporte público e viu como está a realidade do trabalhador que tem que enfrentar a pandemia. “A gente fica de mãos atadas. Você não consegue manter uma distância dos outros. Fora do horário de pico, os ônibus estão mais vazios, mas eu já peguei uma lotação que — como diz o nome — estava lotada. Mas as pessoas precisam trabalhar, ninguém estava ali sem necessidade.”

Mesmo precisando sair de casa, Ivan, a esposa e os quatro filhos seguem com as medidas de prevenção recomendadas, como lavar bem as mãos, utilizar máscara, deixar os sapatos do lado de fora, tomar banho e trocar de roupa ao chegar da rua. Todas são práticas essenciais para evitar a disseminação do coronavírus, mas ele também observa que não são ações mantidas por todos. “Às vezes é a própria ignorância da pessoa, falta de conhecimento. A gente ouve as pessoas falarem ‘Eu já superei várias coisas e tô vivo, não é esse vírus que vai me atingir'”, conta o futuro educador.

Apesar do Aulão da Laje ter surgido na pandemia, Ivan planeja manter as aulas.” Talvez não na mesma quantidade, mas quero continuar. Tem pessoas que não têm condições de pagar uma academia.”

 

Lockdown e informação

 

Diversas comunidades ao redor do país estão passando por situação semelhante à Brasilândia, escancarando anos de descaso do poder público. Tentativas como a intensificação do rodízio de carros, a antecipação de feriados e o decreto de quarentena falharam na diminuição de novos infectados em São Paulo. O lockdown, fechamento total de vias e comércios, impedindo que pessoas de saiam de casa sem necessidade, é uma das medidas que vêm sendo cogitadas pelos governos de vários estados para diminuir o número de novos casos e de mortes diárias. 

Mas como seria o lockdown em áreas de vulnerabilidade social? Jabes espera que, se houver, que haja todo o suporte necessário. “Seria muito interessante, mas de uma forma organizada e que a população possa entender e se sentir protegida. A gente protege da doença, mas e a alimentação? Quem tem força para resolver isso é o Estado.” No entanto, o governador vai na contramão. Mesmo com o número crescente de casos diários, São Paulo decidiu iniciar uma reabertura dos serviços não essenciais em 1º de junho, como shoppings e concessionárias de veículos.

Além das medidas de prevenção, do suporte necessário para o isolamento e do tratamento, a Rede defende que a informação é uma importante arma contra o coronavírus. Entretanto, eles encontram algumas dificuldades na hora de conversar com a população. “Existe uma grande confusão. Enquanto você vê a prefeitura e o Estado fazendo um trabalho para conter o avanço da doença, você vê o governo federal fazendo o oposto. Essa confusão prejudica. Muitas pessoas acham que a gente está exagerando”, lamenta Jabes. 

Desde o início da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro vem minimizando a situação no país e adotando medidas arriscadas, colocando em risco toda a população. A demora para adotar a utilização de máscara, a presença em locais de grandes aglomerações, a tentativa de reabrir salões de belezas e academias, as afirmações de que todos nós vamos pegar a doença ou o famoso “e daí?”, sobre as mortes de mais de mil pessoas por dia, são algumas das atitudes que sem dúvida influenciam o pensamento da população sobre o cenário que vivemos.

Na brecha dos líderes políticos, a Rede segue fazendo seu trabalho. Ela necessita de doações, sejam elas financeiras ou de máscaras, alimentos, álcool gel e força de trabalho voluntário que possa ajudar no enfrentamento à desinformação e ao vírus. Entre em contato pela página no Facebook. “As pessoas vão mudando de pensamento à medida que as mortes vão chegando perto delas. A Brasilândia pede socorro neste momento grave que estamos vivendo”, alerta Jabes.

Sobre o autor: Rafael Machado

Rafael Machado é jornalista e repórter do Portal Drauzio Varella. Tem interesse nas editorias de saúde pública e direitos humanos.

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