Câncer

Mieloma Múltiplo e fraturas ósseas: qual a relação?

A fratura óssea sem trauma é o principal sintomas provocado pelo mieloma múltiplo.

Fratura óssea sem causa aparente pode ser um alerta para o mieloma múltiplo. Entenda por que isso ocorre.

 

Vômitos, diarreias e sangramentos sem causas aparentes são sintomas que normalmente chamam a atenção e fazem com que procuremos um médico para investigar. Mas existem doenças que apresentam sinais mais complexos e que podem, muitas vezes, ser confundidas com outras causas. É o caso do mieloma múltiplo, um tipo de câncer sanguíneo que atinge a medula óssea, parte do interior dos ossos, devido ao crescimento descontrolado e anormal de um tipo de glóbulo branco (célula de defesa), o plasmócito, que participa do combate às infecções. Quando essas células que estão disfuncionais se multiplicam sem controle, a doença passa a atingir todo o organismo, principalmente os ossos e os rins.

Apesar de ser um tipo de câncer raro — acomete 7 em cada 100 mil pessoas –, é preciso ficar atento aos sinais. Por exemplo, um dos principais indicativos do mieloma é a fratura óssea sem trauma. O paciente quebra um osso sem ter sofrido uma queda, acidente ou algum impacto que normalmente seria identificado como causa. Esforços leves bastam para que o osso já enfraquecido sofra uma fratura. É nesse momento que deve começar a investigação, já que a doença pode ser facilmente confundida com outras doenças ósseas, como a osteoporose.

Para entender melhor porque isso ocorre é necessário saber que existem dois tipos de células ósseas que trabalham juntas para reconstruir os ossos. As que constroem um novo osso são chamadas osteoblastos, e as que reabsorvem o “osso velho”, osteoclastos.

O paciente com mieloma possui células defeituosas que produzem uma substância responsável por fazer com que os osteoclastos aumentem a velocidade da reabsorção óssea. Entretanto, os osteoblastos não recebem esse mesmo “sinal”, ou seja, eles não constroem um novo osso. Dessa forma, o “osso velho” é reabsorvido sem ter um osso recém-formado para substituí-lo.

“No mieloma, os osteoclastos, responsáveis por absorver os ossos, estão hiperativados. Basicamente, não dá tempo do corpo utilizar o cálcio na produção de novos ossos”, explica o dr. Guilherme Perini, médico hematologista do Hospital Isrelita Albert Einstein e coordenador de hematologia do Grupo Américas Oncologia. Essa condição está ligada à fraqueza óssea. Durante os exames para diagnosticar o mieloma, os médicos podem identificar um excesso de cálcio no sangue, já que o organismo não absorve corretamente esse nutriente.

O ideal é que após o médico identificar a fratura, seja solicitado um exame de sangue, chamado eletroforese de proteína. Com esse exame é possível observar uma alteração chamada “pico monoclonal”, e a partir daí partir para uma investigação da medula óssea, com mielograma e biópsia, e outros exames complementares.

Normalmente, os plasmócitos se dividem e formam clones que produzem tipos distintos de anticorpos. “Já em pessoas com mieloma múltiplo, eles produzem a mesma proteína, criando um pico de um único [mono] clone [clonal]. É isso que a gente observa no exame de eletroforese”, afirma o médico. Esse excesso de clones se multiplicando faz com que a produção de glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e plaquetas seja reduzida.

Apesar de ser um dos sintomas mais característicos, existem casos de mieloma sem fratura. Ainda assim, o paciente pode apresentar dor nos ossos, dor nas costas, anemia e insuficiência renal. “No Brasil, há certo atraso no diagnóstico. Os pacientes chegam com a doença mais avançada, com comprometimento renal e ósseo, com mais frequência do que a gente vê na literatura”, afirma Perini. Dados da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) mostram que 26% dos pacientes com mieloma levaram um ano após o primeiro sintoma, e 28% levaram mais de um ano, para serem encaminhados a um especialista (hematologista ou oncologista) após procurar um serviço de saúde. Apesar de raros, existem ainda casos assintomáticos da doença.

Tratamento

A idade é o fator de risco identificado para a doença. A partir dos 50 anos os casos de mieloma são mais frequentes, aumentando o risco com o passar dos anos. Apesar de não ter cura, existem tratamentos disponíveis que melhoram a qualidade de vida do paciente com mieloma múltiplo e reduzem os sintomas e as complicações. A principal opção é o transplante de medula, um procedimento semelhante a uma transfusão de sangue. Antes, o paciente passa por uma quimioterapia para “enfraquecer” as células anormais. Mesmo pacientes que fizeram transplante utilizam medicamentos para fazer a manutenção do tratamento ao longo da vida.

“Muitos pacientes não são elegíveis para um transplante. Por causa da idade, comorbidades e condições de saúde. Para esses, nós temos uma série de medicamentos que funcionam bem contra o mieloma”, explica Perini. Imunomoduladores (que aumentam os anticorpos do paciente), inibidores de proteassomas (combatem as células doentes), anticorpos monoclonais (para combater um tipo de célula específica), bisfosfonatos (controlam a perda óssea), entre outros podem ser utilizados no tratamento.

Um dos medicamentos mais utilizados, a lenalidomida, foi aprovado em 2017 pela Anvisa e ganhou destaque no tratamento da doença. Ele faz parte da segunda geração dos imunomoduladores e é usado como alternativa à talidomida, de primeira geração. Fora do país, a pomalidomida, terceira geração de medicamentos contra o mieloma múltiplo, já vem sendo utilizada. Não há, porém, previsão de liberação no Brasil. “Geralmente os remédios recém aprovados são mais eficazes porque você está melhorando os medicamentos da geração anterior”, aponta o dr. Perini.

Além de novos medicamentos sendo estudados e aprovados, também são avaliados os possíveis avanços nas combinações de medicamentos existentes. Atualmente, existe um estudo em fase de avaliação na Anvisa que se aprovado, representará uma nova opção de tratamento, consistindo na combinação de um anticorpo monoclonal e um inibidor de proteassoma de segunda geração.

Com os avanços da medicina e das pesquisas, o período de remissão do mieloma e a expectativa de vida dos pacientes têm aumentado, podendo chegar a 15 anos. O diagnóstico precoce e a adesão ao tratamento podem influenciar na longevidade. O acompanhamento médico é essencial para verificar qual o quadro da doença e, caso necessário, indicar um novo tratamento.

 

Conteúdo produzido em parceria com a biofarmacêutica Amgen: https://www.amgen.com.br

Veja também: Mieloma múltiplo: Quais os impactos após o reaparecimento da doença? | Vânia Hungria

Sobre o autor: Rafael Machado

Rafael Machado é jornalista e repórter do Portal Drauzio Varella. Tem interesse nas editorias de saúde pública e direitos humanos.

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