“Já fui expulsa de hospital”: doulas ganham regulamentação nacional e relatam desafios - Portal Drauzio Varella
Página Inicial
Obstetrícia

“Já fui expulsa de hospital”: doulas ganham regulamentação nacional e relatam desafios

De suporte durante a gestação a conflitos em maternidades, doulas contam como chegaram à área e o que muda com a nova lei

A professora licenciada em artes visuais e presidenta da Federação Nacional de Doulas, Morgana Eneile, teve o primeiro filho aos 17 anos. Criada em Padre Miguel, na zona oeste do Rio de Janeiro, cresceu ouvindo relatos de parto normal das mulheres da família e queria viver a mesma experiência. Mas não foi o que aconteceu. No hospital, acabou submetida a uma cesárea sem entender exatamente o que estava acontecendo. 

“Fiquei sozinha com a equipe — minha família ficou do lado de fora — e aí começou todo aquele terrorismo: ‘você está se matando’, ‘não sabe quanto tempo isso ainda vai durar’, ‘tem que ser cesárea’. E eu não tinha com quem conversar”, relembra Eneile, de 45 anos. 

Depois da cirurgia, mal viu o bebê e não chegou a pegá-lo no colo. O recém-nascido foi levado para a UTI, e ela só recebeu a notícia no dia seguinte. O filho ficou bem, mas a experiência deixou marcas. “Tudo isso me causou muito horror à ideia de ficar grávida novamente”, conta. 

Quinze anos depois, engravidou novamente, sem planejamento. Na segunda gestação, a experiência foi diferente. Ela conheceu o trabalho das doulas por meio de uma amiga e passou a frequentar grupos de gestantes. Ao ouvir relatos e trocar experiências, percebeu que, no primeiro parto, as decisões haviam sido tomadas por outras pessoas, e não por ela. Dessa vez, teve um parto normal e uma experiência acolhedora, conta.

E o respeito não está ligado ao parto vaginal. Está ligado à possibilidade de viver uma experiência positiva e acolhedora, sem que um momento fisiológico seja atravessado pelo horror”, destaca. 

A experiência foi o ponto de partida para que ela começasse a atuar como doula, em 2015.

 

O que as doulas fazem? 

O trabalho da doula começa ainda na gestação e segue durante o parto e no pós-parto. Antes do nascimento do bebê, elas costumam acompanhar a gestante e a família por meio de encontros, conversas e orientações. Também auxiliam na elaboração do plano de parto, no preparo emocional do casal e no acesso a informações para que todos se sintam mais seguros durante o processo. Parte desse acompanhamento segue as Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, do Ministério da Saúde.

“Aí você pode me questionar qual é a diferença da informação que a doula traz para uma enfermeira obstetra ou para uma obstetra. A diferença é que a informação que a gente passa não vem de cima para baixo, ela chega mais pelo entendimento. Como é que você recebe essa informação? Como essa informação toca você? O que ela muda na sua perspectiva sobre o nascimento e também sobre a criação?”, afirma Beatriz Raquel Silva Souza, 43 anos, doula que atua na área desde 2015.

Durante o parto, a função das doulas é oferecer suporte físico e emocional à mulher. Elas também ajudam a interpretar mudanças no cenário do parto que não estavam previstas no plano construído no pré-natal, explicando a situação de forma acolhedora para evitar estresse e desestabilização emocional da gestante.

Já no pós-parto, considerado um período intenso e sensível, o apoio continua. “Auxílio na adaptação da nova rotina, amamentação, recuperação emocional e física da mãe, além de acolher todas as mudanças que chegam junto com o nascimento de um bebê”, diz Gabriela Vilar do Prado, 22 anos, profissional que se formou como doula em agosto de 2025.

Para Souza, esse cuidado no pós-parto é essencial porque, no Brasil, a atenção costuma se concentrar quase exclusivamente no recém-nascido. “Mas e a mulher? Como ela fica no pós-parto?”, questiona. Segundo ela, a falta de acolhimento nessa fase pode contribuir para problemas físicos e emocionais. “O pós-parto também precisa ser um momento de cuidado.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o apoio durante o trabalho de parto é uma prática recomendada para garantir uma experiência de parto mais positiva e respeitosa. Em diretriz sobre cuidados durante a gravidez, a entidade diz que mulheres devem ter acompanhamento contínuo ao longo do parto, incluindo suporte emocional, acolhimento e assistência para conforto físico – funções frequentemente desempenhadas por doulas. 

Veja também: Plano de Parto: o que é e como montar?

 

Uma profissão regulamentada

O Brasil tem cerca de 3 mil doulas cadastradas, segundo dados da Federação Nacional de Doulas do Brasil. A maior parte está no Rio de Janeiro (625), seguido de São Paulo (580), Minas Gerais (250) e Bahia (170). Até então, 22 estados tinham legislações locais relacionadas à atuação das doulas, mas não existia uma garantia nacional sobre o exercício da profissão. Esse cenário mudou em abril deste ano.

O governo federal sancionou o projeto de lei que regulamenta a profissão de doula e garante o livre exercício da ocupação em todo o território nacional. O texto define a doula como a profissional que oferece apoio físico, informacional e emocional à pessoa grávida durante o ciclo gravídico-puerperal.

“Além da segurança jurídica e da possibilidade de atuar independentemente da opinião de outras profissões ou gestões, esse processo de regulamentação abre um novo universo de possibilidades. Não apenas para quem já é ou pretende se tornar doula, mas também para que mais pessoas tenham acesso a um modelo de acompanhamento baseado no acolhimento e na experiência da gestante”, afirma Eneile.

 

“Já fui expulsa de hospital”

A legislação também assegura a presença da doula em maternidades, casas de parto, hospitais e outros serviços das redes pública e privada. Para elas, isso representa um avanço importante, já que profissionais relatam já terem sido impedidas de atuar dentro de hospitais.

“Já fui expulsa de hospitais por médicas. Muitas vezes existe a ideia de que a doula não tem conhecimento para estar dentro da sala de parto, não sabe o que está fazendo e não conhece a fisiologia”, conta Souza. 

Ela, que se identifica como mulher preta e periférica, também acredita que existe um recorte racial nessa resistência. “Não tem como ignorar isso.”

Prado conta que a relação com os profissionais da saúde depende muito da equipe. Segundo ela, há profissionais que entendem a importância do suporte emocional dado por elas, mas também existem aqueles que ainda têm certa resistência ou não compreendem totalmente a nossa atuação.

“Acho que isso acontece muito por falta de informação sobre o papel da doula. A doula não substitui nenhum profissional da equipe médica e também não realiza procedimentos técnicos. Não fazemos exames, diagnósticos ou qualquer conduta clínica. O nosso papel é oferecer suporte emocional, físico e informativo para a gestante e sua família durante a gestação, parto e pós-parto”, destaca.

 

Formação e motivação para atuar na área 

Hoje, para ser doula, há alguns cursos livres e de qualificação profissional disponíveis. A Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fiocruz, por exemplo, oferece um curso com carga horária de 240 horas.

Eneile decidiu trabalhar na área após viver uma experiência traumática no primeiro parto. As trajetórias das outras entrevistadas, porém, foram diferentes. Souza, por exemplo, não chegou à profissão por meio de um plano de carreira, mas a partir de uma trajetória ligada ao cuidado com mulheres e à atuação comunitária.

Formada em turismo, ela trabalhou durante anos com povos e comunidades tradicionais, incluindo períodos em aldeias indígenas e uma atuação próxima às mulheres dessas comunidades. Depois dessa vivência, fez uma formação em yoga, passou a dar aulas e acabou formando turmas de gestantes. Foi nesse contato que começou a ouvir relatos sobre gravidez, parto e violência obstétrica — histórias que, segundo ela, também faziam parte da realidade de sua própria família e das mulheres indígenas com quem conviveu.
As próprias gestantes que participavam das aulas passaram a incentivá-la a atuar como doula, dizendo que ela já exercia um papel de acolhimento e articulação. “Você já cuida da gente”, ouviu de um grupo de mulheres, que chegou a ajudá-la para que ela pudesse fazer a formação como doula em Minas Gerais.

Já Prado diz que decidiu trabalhar como doula porque sempre sentiu que existia algo muito “sagrado” no nascimento. Antes mesmo da formação, conta, ela já me emocionava muito com esse universo da gestação e do parto. 

“Sempre enxerguei o nascimento como um momento de transformação profunda, não só do bebê que nasce, mas da mulher que também renasce ali. Quando conheci o trabalho da doula, senti que tinha encontrado meu propósito de vida, acolher mulheres em um dos momentos mais intensos, vulneráveis e poderosos da vida delas”.

Veja também: Serviços disponíveis no SUS para uma boa experiência de parto

Compartilhe