A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou na semana passada o recolhimento de um lote (terminado com o número 1) de produtos Ypê por falha técnica com risco sanitário. Um dos pontos citados foi a possibilidade de ocorrência de contaminação por bactérias que podem causar infecções em seres humanos. Isso gerou uma dúvida entre os brasileiros: o que fazer se você usou um produto recolhido e quando procurar um médico?
O primeiro passo, segundo a própria agência reguladora federal, é suspender imediatamente o uso do produto, guardar a embalagem com o rótulo intacto – número do lote e data de fabricação são exigidos para troca ou reembolso – e acionar o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da empresa para iniciar o procedimento de recolhimento ou substituição.
“O produto com lote é importante para notificar os órgãos governamentais”, diz Paula Tuma, médica infectologista, diretora de Qualidade, Segurança e Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo.
No caso da Ypê, por exemplo, após contato com o SAC, a companhia direciona o consumidor para o “Comunicado Oficial aos Nossos Consumidores”, disponível no site, para preenchimento do protocolo de atendimento. Lá, é preciso informar dados pessoais, dados do produto – por isso a importância do rótulo –, nota fiscal e PIX. Depois do preenchimento, um protocolo é enviado por e-mail para que o consumidor acompanhe os trâmites.
O que aconteceu?
No ano passado, foi identificada a bactéria Pseudomonas aeruginosa em um lote de detergentes da Ypê. Foi esse episódio que motivou a inspeção da Anvisa no fim de abril, quando a agência detectou descumprimentos relevantes em etapas críticas do processo produtivo, o que inclui falhas nos sistemas de garantia da qualidade, produção e controle de qualidade.
No dia 13, a Anvisa confirmou a identificação da bactéria em lotes de produtos da marca. No próximo dia 15, a diretoria colegiada da Anvisa julgará recurso da empresa.
Segundo especialistas, a bactéria normalmente não representa risco para pessoas com o sistema imunológico saudável, especialmente quando encontrada em baixa quantidade.
E quem já usou produtos contaminados?
Em casos de outros produtos contaminados, porém, a situação pode variar. Nem toda pessoa que entra em contato com um item recolhido desenvolve doenças, já que os efeitos dependem tanto do tipo de produto quanto do microrganismo envolvido, explica o médico patologista clínico Paulo Saldiva, membro das Academias Brasileiras de Ciência e de Medicina, da Transworld Academy of Sciences e professor titular de Patologia da FMUSP.
“Se for um creme ou uma substância de limpeza, um sabão, ele pode apresentar sintomas cutâneos. Se for uma bebida, no caso do metanol, você começa a ter um mal-estar sistêmico e às vezes deterioração da visão. Se for um alimento contaminado, você vai seguramente apresentar sintomas gastrointestinais.”
A atenção deve ser maior, diz o especialista, com grupos mais vulneráveis, como crianças e idosos, que podem ter dificuldade para identificar ou comunicar sintomas.
“As crianças às vezes não sabem verbalizar aquilo que sentem, especialmente os bebês. Você tem que prestar muita atenção em alterações de comportamento ou de sintomas. E os idosos, que têm uma percepção, às vezes, diminuída de doenças. Por exemplo, febre em idoso: podem ocorrer infecções muito graves e o idoso não apresentar sintomas”, diz a especialista.
Veja também: Como identificar sinais de intoxicação ou envenenamento?
Quando procurar um médico?
É preciso procurar atendimento médico quando a pessoa apresenta sintomas que merecem mais atenção, como infecção ou acometimento de áreas sensíveis, segundo Hélio Magarinos Torres Filho, patologista clínico, diretor médico do Richet Medicina & Diagnóstico, membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial.
“Na pele, é preciso observar vermelhidão que se espalha, dor, calor, inchaço, secreção, pus, bolinhas com conteúdo purulento, feridas que não cicatrizam ou que pioram depois da exposição”, diz.
Nos olhos, fala, qualquer dor, vermelhidão persistente, secreção, sensação de corpo estranho, sensibilidade à luz ou visão embaçada deve ser avaliada com prioridade, porque infecções oculares podem evoluir rapidamente. Já no ouvido, dor, coceira intensa, secreção ou sensação de ouvido tampado também merecem atenção.
“Sintomas gerais, como febre, calafrios, mal-estar importante ou queda do estado geral, são sinais de alerta. Em pessoas saudáveis, a manifestação mais provável, quando ocorre, tende a ser localizada”, afirma.
Nas redes sociais, circularam vídeos de pessoas ingerindo detergente ou usando o produto para escovar os dentes. Especialistas alertam que esse tipo de exposição pode causar irritações e intoxicações.
“Mesmo em pequenas quantidades, produtos de limpeza podem causar irritação importante em mucosas da boca, garganta, esôfago e estômago, levando a sintomas como náuseas, vômitos, dor abdominal, ardência, tosse e engasgos”, explica a toxicologista Andreia Miranda, da DB Toxicológico.
Nesses casos, a recomendação também é procurar ajuda médica.
O que a pessoa deve levar ao médico?
Se apresentar os sintomas e precisar de atendimento médico, o recomendado é que a pessoa leve embalagem original ou ao menos fotos nítidas do rótulo, lote, data de fabricação, validade, nome completo do produto e fabricante, segundo Filho. E não é necessário levar o produto aberto para dentro do consultório ou pronto atendimento sem orientação, diz.
“Também é útil informar quando o produto foi usado, por quantos dias, em que região houve contato, se havia feridas, se o produto foi usado em roupas, utensílios, superfícies ou diretamente nas mãos, e quando os sintomas começaram. Se houver lesões na pele, é importante relatar se houve secreção, pus, febre ou piora progressiva”, fala.
Do ponto de vista laboratorial, se houver suspeita de infecção, o médico poderá solicitar coleta de secreção, cultura ou outros exames, afirma o especialista. Para bactérias, quando há infecção suspeita ou confirmada, pode-se realizar cultura e teste de sensibilidade aos antimicrobianos.
A casa pode ser contaminada?
Contaminações em saneantes não costumam ser comuns, segundo Nélida Delamoriae Assis, bióloga e supervisora de microbiologia da Hidrolabor. Mas, quando ocorrem, pode haver disseminação à medida que o produto contaminado é manipulado. É o que os especialistas chamam de “contaminação cruzada”.
Para lidar com isso, os consumidores precisam reforçar a limpeza dos ambientes.
“Em casa, trocar esponjas e panos com frequência, utilizar utensílios exclusivos para alimentos potencialmente mais contaminados, como carnes cruas, reduzir pontos de umidade, higienizar ao menos semanalmente micro-ondas e outros eletrodomésticos, além de manter pia e bancadas limpas, secas e livres de acúmulos, como lixeiras ou escorredores, podem ajudar”, afirma Delamoriae.
Veja também: Combinações perigosas: quais são os riscos das “misturinhas” de produtos de limpeza à saúde?
Critérios da Anvisa
No caso da Ypê, a Anvisa adotou uma medida cautelar – um ato administrativo de precaução previsto na Lei nº 6.437/1977, cujo objetivo é proteger a saúde da população em situações de risco iminente. Entre as medidas possíveis estão fiscalização, apreensão, recolhimento, proibição e suspensão.
Nesses casos, trata-se de um risco potencial – quando ainda não há confirmação técnica definitiva do dano, mas existem elementos suficientes para justificar medidas preventivas.
Já o risco confirmado ocorre quando análises laboratoriais, laudos ou investigações sanitárias comprovam a irregularidade ou o perigo associado ao produto, o que pode levar à aplicação de sanções administrativas definitivas.
“A diferença entre o risco potencial e o confirmado se dá mediante a análise dos produtos para confirmar ou descartar a contaminação. Além disso, é preciso realizar medidas imediatas para corrigir as falhas e garantir que os próximos lotes estejam em conformidade. Enquanto a empresa não demonstra ter aplicado as medidas corretivas e apresentado os laudos dos produtos, ela não fica liberada para voltar a produzir”, diz Delamoriae.
Em comunicado divulgado nas redes sociais, a Ypê informou que entrou com recurso contra a decisão da Anvisa. Com isso, a proibição de fabricar e comercializar os produtos citados na resolução teve seus efeitos automaticamente suspensos até novo pronunciamento da agência.
Em nota, a Anvisa disse que “mesmo com o efeito suspensivo recomenda que os consumidores não usem os produtos indicados, por segurança”. A agência também afirmou que “recomenda que os consumidores não usem os produtos indicados, por segurança”.




