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Saúde pública

Mais de 70% da população acredita em fake news em saúde, mostra pesquisa

Pesquisa mostra que maioria da população acredita em ao menos uma fake news em saúde. Leia na coluna de Mariana Varella

mulher olha fake news em computador

A expressão “fake news” não é nova, embora tenha ganhado popularidade nos últimos anos. Surgido nos Estados Unidos no fim do século 19, o termo era utilizado para se referir, de modo pejorativo, a tabloides que publicavam sistematicamente inverdades.

Em saúde, o fenômeno tampouco é novidade. Quem nunca escutou que manga com leite faz mal ou que chá de boldo faz bem para o fígado? Afirmações como essas eram propagadas graças à ignorância ou à falta de acesso a serviços de saúde, o que levavam as pessoas a buscar alternativas para lidar com problemas que estavam fora da sua compreensão.

Veja também: Fake news sobre vacinas: Tira-dúvida com especialista

A diferença das crenças populares para o fenômenos que estamos vendo hoje em dia é que, atualmente, há uma infinidade de peças produzidas para levar propositalmente as pessoas ao engano. Temas como vacinação, alimentação e tratamentos de doenças nunca foram tão cercados de desinformação, seja para alterar comportamentos que venham de encontro a determinadas convicções seja para vender produtos.

Desse modo, muitos pesquisadores que estudam o tema têm preferido o uso de “desinformação” para se referir à propaganda produzida com o intuito deliberado de enganar e compartilhada com esse fim. Faço parte desse grupo, que entende que a intenção de enganar é primordial para diferenciar a desinformação do resto das notícias falsas.

No dia 22, a revista Nature publicou os resultados de uma pesquisa envolvendo 16 países, entre eles o Brasil, e 16 mil pessoas para verificar suas crenças em relação a temas de saúde. Os resultados são estarrecedores, como bem afirmou a publicação.

 

Dados da pesquisa

A pesquisa foi feita pelo Eldeman Trust Institute de Nova York, uma organização civil que conduz pesquisas com o intuito de verificar o grau de confiança da sociedade.

Os entrevistados representam países diversos tanto do ponto de vista socioeconômico como cultural, como França, Estados Unidos, Brasil, México, Coreia do Sul e Índia.

Os entrevistados deveriam dizer se concordavam ou não com afirmações amplamente divulgadas nas redes sociais, como:

  • Proteína animal é mais saudável do que proteína vegetal;
  • A presença de flúor na água é prejudicial ou não benéfica à saúde;
  • Os riscos da vacinação infantil superam os benefícios;
  • O leite cru é mais saudável que o leite pasteurizado;
  • O uso de acetaminofeno ou paracetamol durante a gestação causa autismo;
  • As vacinas são utilizadas para o controle populacional.

Para cada afirmação, entre 25% e 32% dos entrevistados disseram acreditar nela, e outra porcentagem considerável (17% a 39%) reconheceu não saber se era verdadeira ou falsa. No total, 70% dos entrevistados acreditavam em pelo menos uma das afirmações. 

Os pesquisadores se disseram surpresos com o alto número de pessoas que questionaram evidências científicas já amplamente consolidadas.

Apesar de o fenômeno estar presente em todos os países pesquisados, ele é mais grave em determinados locais. Em países como Estados Unidos – cujo secretário da Saúde Robert F. Kennedy Jr. já disseminou várias desinformações em saúde – , Brasil, África do Sul, Índia, Alemanha e Reino Unido pelo menos 50% dos entrevistados afirmaram acreditar em uma ou mais declarações de saúde “polêmicas”.

Outro dado que impressiona diz respeito ao perfil das pessoas que acreditaram em três ou mais alegações falsas. A maioria delas havia frequentado universidade e tinha o costume de consumir notícias sobre saúde, o que mostra que o fenômeno da desinformação também atinge pessoas supostamente bem-informadas, muitas com alto nível educacional.

 

Desinformação e infodemia

Para os pesquisadores, o fenômeno de desinformação em saúde vem se espalhando para além dos grupos que agem motivados por questões ideológicas, como os antivacinistas. E, de fato, é o que mostram a pesquisa e outros estudos na área.

A Nature, por exemplo, citou outra pesquisa amplamente divulgada e conduzida pelo Unicef que revelou que após a pandemia de covid-19, a confiança nas vacinas para crianças caiu em 52 dos 55 países pesquisados.

Outra pesquisa, realizada no Reino Unido, revelou que 40% das pessoas afirmaram que hoje em dia há tanta informação disponível, que é difícil reconhecer o que é verdadeiro ou falso em relação à ciência.

O chefe de pesquisa do Edelman Trust Institute, David Bersoff, afirmou à revista que há, atualmente, um excesso de informações conflitantes, provenientes de redes sociais, notícias e conversas com pessoas da vida real que dificultam saber o que é verdade ou não.

Esse fenômeno vem sendo chamado de “infodemia“, um excesso de informações verdadeiras ou falsas que circulam com rapidez, dificultando o acesso a fontes confiáveis e orientações seguras. Enfrentá-lo, contudo, não é tarefa simples.

 

Comunicação em saúde

A pesquisa do Edelman Trust Institute mostra que as pessoas ainda confiam em fontes com formações acadêmicas, mas essa confiança é igualmente dividida por recomendações pessoais e influenciadores de mídias digitais. Assim, não há diferença se a informação foi obtida de um órgão como o Ministério da Saúde ou de um vizinho que mandou um vídeo de um influenciador sem qualificação.

“Houve uma proliferação de ‘especialistas’ e de vozes confiáveis ​​e, como resultado, o conhecimento dos cientistas foi de certa forma diluído”, diz Bersoff à Nature.

É, portanto, cada vez mais importante que órgãos e instituições de saúde invistam em comunicação como forma de esclarecer dúvidas e disseminar informações corretas à população. E isso deve ser feito de forma direta, objetiva e em linguagem acessível.

Caso isso não ocorra, as pessoas estarão cada vez mais à mercê de falsários e charlatães que defendem interesses escusos.

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