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Medicamentos para perda de peso: indicações, diferenças e riscos do uso inadequado

Medicações agonistas de GLP-1, indicadas para perda de peso, têm se popularizado nos últimos anos, mas existem indicações específicas para o uso

Quem vive com sobrepeso ou obesidade sabe que perder peso não é simples. Isso porque o ganho de peso envolve vários fatores e emagrecer não depende apenas de força de vontade, como muita gente ainda acredita. No Brasil, mais da metade da população (55%) está acima do peso, e cerca de 20% é considerada obesa.

Hoje, existem medicações para perda de peso no mercado que têm se mostrado eficazes quando bem utilizadas, isto é, com indicação e acompanhamento médico adequado. 

Há três medicamentos agonistas de GLP-1 (as chamadas “canetas emagrecedoras”) aprovadas no país para o tratamento da obesidade: a liraglutida (que tem nome comercial de Saxenda), a semaglutida (que é vendida sob o nome de Wegovy) e a tirzepatida (de nome comercial Mounjaro). Além dessas, existem ainda outras opções de terapêuticas orais: sibutramina, orlistate e a combinação de bupropiona com naltrexona.

A avaliação de qual opção é mais adequada para o paciente deve ser feita de maneira individualizada, destaca Cláudia Schimidt, endocrinologista do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo (SP). 

“O que devemos levar em consideração nesse momento: a pessoa tem doenças, tem algum tratamento que ela faz, tem remédios que usa, tem risco de interação, tem algum sintoma que essa pessoa apresenta no dia a dia? E também características do medicamento em relação à potência, efeitos colaterais possíveis e custo”, explica.

 

Quando as medicações são indicadas?

Os medicamentos para perda de peso são indicados em duas situações: 

  • Sobrepeso (IMC acima de 27) com alguma complicação relacionada ao excesso de peso, como, por exemplo, pressão alta, gordura no fígado ou diabetes;
  • Obesidade (IMC acima de 30), mesmo na ausência de comorbidades.

Em ambos os casos, o uso da medicação deve ser feito em conjunto com mudanças no estilo de vida (que incluem, principalmente, alimentação equilibrada e prática de exercícios físicos). Sem essas medidas, não é possível obter um emagrecimento saudável. 

“Quando o foco é específico no medicamento e não em uma mudança de padrão alimentar, a tendência dessa pessoa é só perder peso por conta do número de calorias, e muitas vezes essa perda pode ser de qualidade ruim, com perda de massa muscular e com déficits nutricionais, e isso faz com que no longo prazo essa pessoa não esteja ganhando saúde”, alerta Cynthia Valério, endocrinologista e diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).

No final de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou uma diretriz global sobre o uso de medicamentos GLP-1 para o tratamento da obesidade. “Com a nova diretriz, a OMS emite recomendações condicionais para o uso dessas terapias no apoio a pessoas com obesidade, auxiliando-as a superar esse grave desafio de saúde, como parte de uma abordagem abrangente que inclui dietas saudáveis, atividade física regular e acompanhamento por profissionais de saúde”, disse a nota da OMS.

A organização destacou ainda a necessidade de ampliar o acesso aos medicamentos, que têm um custo bastante elevado. Atualmente, no Brasil, nenhum medicamento para obesidade está disponível no SUS. 

Veja também: Obesidade e novas opções terapêuticas – DrauzioCast #234

 

Diferenças entre os medicamentos agonistas de GLP-1

A liraglutida e a semaglutida são medicamentos agonistas de GLP-1, ou seja, eles imitam a ação do GLP-1, hormônio que regula o apetite e a sensação de saciedade, retarda o esvaziamento gástrico (o alimento fica no estômago por mais tempo) e auxilia no controle da glicemia. A tirzepatida, por sua vez, além do GLP-1, também é agonista do hormônio GIP (portanto, um agonista duplo), o que contribui para saciedade mais prolongada e maior perda de gordura. 

Na prática, eles agem de maneira semelhante, fazendo com que o indivíduo sinta menos fome e, ao comer, fique saciado mais rapidamente — facilitando, assim, o déficit calórico necessário para o emagrecimento. 

A principal diferença está na potência para perda de peso. “A liraglutida foi o primeiro a ser lançado, com aplicação diária, e em termos de potência para perda de peso, é o menos potente dos três. Depois veio a semaglutida, que já tem uma aplicação semanal. Ela dura mais tempo no corpo, e isso permite uma aplicação uma vez por semana, que é bem mais conveniente, e tem uma potência para perda de peso também muito maior. E, por último, agora, a tirzepatida, que também é semanal e tem uma potência ainda maior do que a semaglutida”, detalha a dra. Cláudia. 

Em termos de porcentagem, a especialista explica que a liraglutida promove uma perda média de 7% do peso, a semaglutida em torno de 15% e a tirzepatida, em torno de 20%. Esses números são médias observadas em estudos, mas há pacientes que vão responder pior ou melhor ao tratamento (ou seja, perdendo menos ou mais peso do que o indicado). 

“Em termos de benefícios metabólicos, todos podem trazer benefícios metabólicos. Agora, como a semaglutida e a tirzepatida trazem uma perda maior de peso, em geral, o benefício metabólico também acaba sendo maior com elas”, complementa a médica. 

 

Riscos relacionados ao uso inadequado

Quando se faz uso desse tipo de medicação sem indicação ou orientação médica, existem alguns riscos para a saúde. Primeiramente, há a possibilidade dos efeitos colaterais mencionados. “São riscos que existem para todos e quando a pessoa não tem indicação, a relação custo-benefício não fecha, porque não tem a parte do benefício óbvio, a parte metabólica do benefício, mas o risco está presente”, diz a dra. Cláudia.

Sem contar que, com o auxílio de um profissional de saúde, podem ser feitos ajustes para evitar ou minimizar os possíveis efeitos adversos, o que não acontece quando se utiliza o remédio por conta própria. 

Além disso, sem a orientação adequada, o indivíduo pode fazer o uso de forma incorreta (dose e tempo de tratamento inadequados, por exemplo). Pode haver ainda contraindicações ou interações medicamentosas com outros remédios que ele já utiliza. Esses medicamentos também precisam ser suspensos antes de determinados procedimentos ou exames com sedação. Sem o acompanhamento, muitas vezes a pessoa sequer sabe disso e não faz a pausa conforme deveria. 

Outro risco importante é a perda de massa muscular. “Existe uma perda de massa magra que frequentemente acontece em processos de perda de peso, só que quanto mais acentuada for a perda de peso, quanto mais inadequado for o aporte de calorias e de proteínas, [ou] quando existe um sedentarismo, esse risco é maior. Isso é um ponto bem importante de acompanhar durante o tratamento”, esclarece a endocrinologista do Einstein. 

Veja também: Por que você não deve usar medicamentos para perda de peso que não foram aprovados

 

Consequências do uso das canetas emagrecedoras para fins estéticos 

Um estudo recente realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e da Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP) e publicado na revista científica Obesity aponta o risco do uso das canetas por pessoas sem obesidade, diabetes ou condições metabólicas associadas. A análise aponta que os agonistas de GLP-1 deixaram de ser vistos somente como tratamento médico e passaram a ser usados como ferramentas de “otimização corporal”. 

“Há uma lacuna importante de conhecimento. Sabemos que esses medicamentos são eficazes para pessoas com obesidade, mas ainda faltam estudos que avaliem segurança, impacto psicológico e efeitos de longo prazo em indivíduos sem indicação clínica. Isso torna o uso estético especialmente preocupante”, afirma Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da FMUSP e um dos autores do estudo. 

Entre as incertezas, o levantamento identificou possíveis alterações no comportamento alimentar, dependência emocional do medicamento, medo de recuperar peso e mudanças significativas na relação com o corpo e com a alimentação.

“Como esse tipo de paciente [sem indicação] não foi estudado nos estudos clínicos — não existia muitas vezes o perfil de pessoa com índice de massa corporal normal, sem comorbidades —, não é possível de se prever qual o tipo de evento adverso pode acontecer nesses casos, seja uma queda de pressão, uma desidratação, um paciente que venha a ter náuseas importantes”, explica a dra. Cynthia.

O que muitas vezes ocorre no médio a longo prazo, segundo a especialista da Abeso, é que o indivíduo fica exposto a flutuações de peso e piora da composição corporal, perda de massa muscular, carência de vitaminas e nutricionais, déficit de proteínas, entre outros. “E com isso, todos os sintomas associados: queda de cabelo, unhas quebradiças, desnutrição mesmo. Eles são muito mais frequentes nesses casos”, alerta. 

 

Retenção de receita é obrigatória

Desde junho de 2025, a venda de agonistas de GLP-1 e GIP só pode ser feita com retenção de receita, conforme norma da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo a agência, a medida foi tomada para proteger a saúde da população brasileira, depois que se observou um número elevado de eventos adversos associados ao uso dos medicamentos sem indicação.

“A retenção de receita, ao meu ver, foi um passo importante na história dos agonistas de GLP-1, porque realmente vinha tendo um uso bastante indiscriminado — e não só indiscriminado, como incorreto”, opina a dra. Cláudia. 

O uso incorreto, conforme falamos, oferece riscos à saúde. “A gente via pessoas que falavam ‘Ah, já vou começar direto em dose alta’, sendo que a dose alta traz mais resultado clínico, mas é importante iniciar pela dose baixa por conta da tolerância aos efeitos colaterais. E a gente pegava pessoas que começavam direto em dose mais alta e tinham muito efeito colateral, inclusive cheguei a internar algumas pessoas que tinham muitos vômitos a ponto de não conseguir se manter hidratadas. O acompanhamento é bem importante para prevenir essas situações.”

Para a dra. Cynthia, a venda com retenção de receita apenas ressalta a importância do acompanhamento do paciente. “Sendo a obesidade uma doença crônica, é muito importante que não se resuma o tratamento como foco específico só para perda de peso. O tratamento, na verdade, envolve um planejamento clínico que vai englobar uma fase inicial de perda e depois um planejamento para a fase de manutenção.”

Nas duas fases, o paciente sempre deve ser avaliado em relação à toda sua condição clínica. Ou seja, o tratamento vai muito além do uso da medicação. “Por isso, a importância da retenção de receita, que na prática faz com que esse paciente a cada três meses seja reavaliado por um médico”, completa. 

Além do acompanhamento médico — que é quem vai receitar a medicação, quando necessário — é fortemente recomendado que o paciente também faça acompanhamento com nutricionista.  “Os agonistas de GLP-1 reduzem mais o apetite, eles dão um autocontrole maior, reduzem mais impulsos do que os outros na média. Mas o comer menos não significa comer melhor. Especialmente agora, nesse contexto de medicamentos mais eficazes para tratamento da obesidade, o acompanhamento nutricional não deixou de ser importante, muito pelo contrário, acho que passou a ser até mais importante, porque agora muitas vezes a pessoa consegue ter o autocontrole necessário para conseguir seguir as orientações”, destaca a dra. Cláudia. 

Veja também: Anvisa determina retenção de receita para canetas emagrecedoras, como Ozempic

 

Canetas emagrecedoras, não; medicamentos antiobesidade 

Especialistas têm apontado que o termo “canetas emagrecedoras” não seria o mais adequado para se referir às medicações injetáveis para perda de peso, pois isso pode reforçar a ideia de uso para fins estéticos. A dra. Cynthia corrobora essa visão. “Esses medicamentos são terapias antiobesidade, assim como existem terapias oncológicas, antidiabéticas. A gente sempre tem que entender que eles envolveram estudos clínicos com milhares de pacientes acompanhados por terem uma doença crônica chamada obesidade e que precisam ter esse acompanhamento no longo prazo”, afirma. 

Em resumo, a especialista diz que não se tratam de canetas para quem quer perder alguns poucos quilos — esse sequer é o foco principal do tratamento. “O objetivo maior não é a perda de peso em si, mas a saúde e a qualidade de vida das pessoas que se submetem a esse tipo de tratamento”, conclui.

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