Outras Histórias #42 | O Minhocão

Apesar do Minhocão, conhecido viaduto paulistano, ser um monstro arquitetônico, dr. Drauzio o considera um lugar de afeição na cidade.

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

Apesar do Minhocão, conhecido viaduto paulistano, ser um monstro arquitetônico, dr. Drauzio o considera um lugar de afeição na cidade.

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Publicado em: 7 de dezembro de 2021

Revisado em: 9 de dezembro de 2021

Apesar do Minhocão, conhecido viaduto paulistano, ser um monstro arquitetônico, dr. Drauzio o considera um lugar de afeição na cidade.

 

 

 

Nas manhãs de domingo dr. Drauzio corre no Minhocão, via expressa que liga a cidade de São Paulo de leste a oeste. A construção do elevado, considerado uma aberração da arquitetura, desvalorizou os imóveis da região e fez desaparecer a famosa Av. São João.

Ainda assim, dr. Drauzio enxerga o Minhocão com afeto. Durante suas corridas, ele observa as primeiras janelas se abrindo, os vendedores ambulantes passando, os adolescentes rindo e conversando sobre a noite anterior, os ciclistas pedalando a toda velocidade, entre outros personagens que compõem a “praia dos paulistanos”. Acompanhe neste episódio do Outras Histórias.

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Eu vou ler pra vocês um texto que eu escrevi pro meu livro “Correr”, que é sobre o meu esporte predileto.

“Aos domingos, costumo correr no Minhocão, o Elevado que faz a ligação Leste-Oeste de São Paulo. Todos se referem a ele como uma excrescência arquitetônica, um monstro do urbanismo que desvalorizou os imóveis vizinhos e fez desaparecer em suas entranhas a Avenida São João, uma das mais tradicionais da cidade.

Eu não lhes tiro a razão, mas nos últimos 20 anos, já percorri tantas vezes os três quilômetros do Minhocão, que me afeiçoei ao Elevado. De seu início, junto à Praça Roosevelt, no centro, até o final do Largo Padre Péricles, em Perdizes, a pista segue na altura do segundo andar dos prédios da São João, altura privilegiada que oferece ao transeunte a possibilidade de bisbilhotar o interior dos apartamentos.

Fechado para o tráfico aos domingos, o Minhocão se transforma na praia dos paulistanos que moram na região central, como disse uma amiga carioca, debochando do meu afeto pelo Elevado.

De fato, depois das nove da manhã, as pistas são invadidas por crianças de bicicleta; casais que caminham; gente de idade em cadeiras de roda; pais que chutam bola com os filhos pequenos; cachorros de estimação, com donos sedentários, que atiram objetos para fazê-los correr atrás; vendedores de suco, de água, refrigerantes, algodão doce, milho verde; e até um bicicleteiro, que conserta bicicletas no asfalto.

Como tenho o hábito de correr bem cedo, eu chego antes do tumulto. Às seis da manhã, quando a cidade silenciosa se recupera das extravagâncias do sábado à noite, o ambiente é outro. Grupos de adolescentes vestidos de preto, com latas de cervejas na mão, conversam em voz alta e riem na mureta que separa as duas pistas. Craqueiros com o cobertor ordinário nas costas, aglomerados na rampa que dá acesso à Rua das Palmeiras, fumam cachimbos metálicos. Ciclistas paramentados ultrapassam em velocidade os poucos corredores que madrugam, como eu, enquanto as primeiras janelas vão se abrindo.

Em contraste com os sobreviventes da noite anterior, que compõem a paisagem humana no asfalto, dentro de um apartamento, um homem de pijama e barba branca pendura a gaiola do canário na varanda. Uma mulher, num apartamento vizinho, de camisola florida e bob na cabeça, rega o vaso de samambaia. Um senhor de camisa regata e barriga avantajada, fuma o primeiro cigarro do dia no peitoril da janela, ao lado da mulher que, com o olhar perdido, olha prum ponto que eu não sei qual é.

Um vulto, debruçado no fogão, faz café no apartamento mantido na penumbra por um cobertor improvisado em cortina. Embaixo do Minhocão, feirantes armam as barracas na Rua das Palmeiras. Nas imediações do Lago Santa Cecília, um gato se equilibra, altaneiro, no parapeito de um terraço ao lado do cartaz que anuncia “Vidente do amor: Pagamento depois da graça obtida”.

Mais à frente, uma sibipiruna, uma árvore plantada na Avenida São João, expõe com generosidade a copa florida aos frequentadores do Elevado. São centenas de flores amarelas, que pousam delicadas, como canários na folhagem do topo.

Às nove, na calçada do Largo Padre Péricles, local em que faço o retorno para correr no sentido da Praça Roosevelt, de volta, senhoras de andar lento e homens de cabeça branca caminham em direção à igreja, pra assistir à missa. Não há um jovem entre eles. Que diferença das missas dominicais de quando eu era criança — começavam às sete da manhã, com reprises de hora em hora, diante de plateias lotadas de fiéis de todas as idades; a última, a mais concorrida, acontecia às 11, frequentada pelas meninas mais bonitas do bairro e pelos rapazes mais velhos, que tentavam flertar com elas na saída. O catolicismo era onipresente; a repressão sexual mais ainda.

Na volta pro centro, a pista fica bem de frente pro prédio do antigo Banco do Estado de São Paulo, o Banespa, levantado no estilo do Empire State, em Nova York, pra ser o mais alto da cidade — posição que ocupou até ser desbancado pelas linhas curvas do Edifício Itália, em 1965.

Durante o longo percurso diante do prédio, lembro com carinho do querido tio Odilo, irmão mais velho do meu pai, personagem muito presente na minha adolescência. Não que a lembrança de sua figura acolhedora deixe de me visitar em outros momentos, mas ela faz ocasionalmente, enquanto em frente ao Banespa, surge todas as vezes, nítida e cheia de vitalidade.”

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