Como o álcool e o cigarro afetam o cérebro?

Não é só o fígado e o pulmão que ficam comprometidos pelo consumo exagerado. Saiba como o álcool e o cigarro afetam o cérebro.

Efeitos a longo prazo envolvem demência, câncer e outros. Álcool e cigarro afetam o cérebro.

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Publicado em: 25/10/2022

Revisado em: 25/10/2022

Efeitos a longo prazo envolvem demência, câncer e outros. Veja como álcool e cigarro afetam o cérebro. 

 

É comum nos esquecermos, mas o cigarro e as bebidas alcoólicas também são drogas, embora lícitas. Ou seja, seu consumo provoca alterações fisiológicas e comportamentais nos usuários. Ainda assim, nossa sociedade demonstra ter uma tolerância muito maior para o consumo exagerado de álcool e tabaco. Isso pode estar relacionado à origem dessas substâncias, que remonta à época pré-histórica, no caso do álcool, e há cerca de 12 mil anos, no do tabaco. Por serem drogas de fácil acesso e que ajudam na interação social, elas se tornaram parte da cultura. 

Veja também: A crise de dependência de nicotina

O dr. Frederico Jorge, neurologista do Hospital Santa Catarina, resume o álcool e o cigarro como fontes de prazer e explica por que é tão comum seu uso abusivo. “O álcool libera endorfina em regiões de prazer no cérebro, e a nicotina do tabaco é diretamente responsável pela sensação de prazer. Ambas têm um circuito de ativação e consumo que necessita de doses cada vez maiores para obtermos o mesmo efeito.”

 

Chegada no organismo

 

Para entender melhor como o álcool e o tabaco agem no cérebro, o dr. Jorge explicitou o circuito percorrido pelas substâncias no organismo, a começar pelo álcool.

Ao ser consumido, a droga é metabolizada por duas enzimas, a álcool desidrogenase e a aldeído desidrogenase. A primeira converte o etanol em acetaldeído, substância tóxica para o organismo que é capaz de causar danos estruturais e funcionais permanentes nos tecidos do cérebro. Para evitar o dano, a segunda enzima entra em ação, convertendo esse composto em ácido acético, utilizado para gerar energia nas células, o que nos confere inicialmente uma sensação de bem-estar.

Uma vez consumido, o álcool entra na corrente sanguínea e se espalha por todo o corpo, chegando ao cérebro. Ao chegar nas fendas sinápticas (local em que há troca de informações químicas entre os neurônios), ele dificulta a movimentação dos neurotransmissores, atrapalhando o processo de chegada deles até as células receptoras, o que provoca uma certa lentidão em nossas ações. É aí que ocorre o que chamamos de embriaguez. 

No cérebro, neurotransmissores como dopamina e serotonina, relacionados com a ativação dos centros de prazer e recompensa, são liberados em quantidades acima do normal. Nesse momento, ocorrem mudanças fisiológicas no organismo, como sensação de bem-estar, relaxamento, desinibição e euforia.

A nicotina também estimula a produção de dopamina, um dos maiores mediadores químicos das células, que atua nos centros de prazer do cérebro. Sem a nicotina, o cérebro do dependente recebe menos dopamina. Para compensar, o organismo produz mais noradrenalina, neurotransmissor relacionado à resposta a situações de estresse. Por isso, quando alguém para de fumar, fica nervoso ou irritado.

Além do estímulo à produção de dopamina, a nicotina também provoca vasoconstrição e aumento da pressão arterial. Ela faz mais ainda: causa mutações no DNA das células, que passam a se reproduzir de forma deficiente – isso constitui precisamente o câncer.

 

Os neurônios

 

O etanol e seu metabólito, acetaldeído, têm efeito neurotóxico por ação direta, capaz de causar danos estruturais e funcionais permanentes nos tecidos do cérebro. Em março de 2018, foi publicado um estudo na revista “The Lancet Public Health”, sobre a relação entre abuso de álcool e a prevalência de quadros demenciais na França. Os resultados apontaram que o uso abusivo de álcool mais do que triplicou o risco de demências em mulheres e homens. 

O dr. Gustavo Bezerra, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), comenta: “O uso continuado do álcool, com características de um uso mais abusivo, danifica o neurônio. Nós temos casos de demência alcoólica bem documentados na literatura médica. A nicotina também é prejudicial para os neurônios no uso a longo prazo. Você tem, além dos prejuízos diretos como câncer, danos secundários. Por exemplo, a nicotina pode desencadear um problema vascular e, consequentemente, uma piora na circulação sanguínea e aporte de sangue dos neurônios”.

E os efeitos a longo prazo não param por aí. O abuso pode afetar habilidades de treinamento, autocontrole, memória e concentração. O tabaco, por sua vez, provoca um envelhecimento mais precoce do cérebro, além de causar lesões vasculares no mesmo órgão.

Veja também: Abuso de álcool e demência

 

Reflexos e raciocínio 

 

Como comentamos, o álcool impacta na transmissão de informações entre os neurônios, por isso, nossos reflexos e funções cognitivas ficam mais lentos. É o motivo pelo qual não é recomendado operar máquinas pesadas, assim como é proibido dirigir alcoolizado. O neurologista explica o que acontece no cérebro. 

“O álcool por uma ação GABAérgica, neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central, impacta como depressor das funções cognitivas, levando a um atraso dos reflexos e lentidão do raciocínio, além de provocar uma inibição do cerebelo, órgão responsável pela nossa coordenação.”

Durante a ingestão do álcool, os efeitos experimentados variam entre dificuldades em andar, visão turva, fala arrastada, retardo no tempo de resposta e danos à memória. Além de alucinações, depressão do humor, agressividade e surtos psicóticos.

 

Apagões

 

É comum, após um episódio de bebedeira intensa, uma pessoa relatar que não se lembra de alguns acontecimentos. Por que isso acontece? O psiquiatra Gustavo Bezerra explica.

“O álcool, acima de tudo, tem como ação inicial a desinibição do comportamento. Conforme você vai subindo a dosagem, aumenta também o efeito sedativo. Algumas pessoas, por terem maior sensibilidade, podem chegar ao limite alcoólico e apagar. Ao voltar a si, o indivíduo pode ter uma sessão amnésica. Outra coisa que pode acontecer é, por uma demora na metabolização do álcool, a pessoa acredita que não está bêbada ainda e continua ingerindo a substância. Quando o corpo finalmente processa o álcool, ela atinge o limite e tem o apagão.”

 

Relação entre o consumo de álcool e cigarro

 

Além dos efeitos semelhantes, chama a atenção o fato de que a dependência do álcool e a do cigarro costumam caminhar juntas. “Ambas [as drogas] agem nos circuitos do prazer e da recompensa. Porém um tem ação inibitória (álcool) e o outro excitatória (tabaco), sendo essa gangorra de efeito que faz com que sejam consumidos em conjunto e um estimula o outro. Mais de 85% dos etilistas crônicos são tabagistas, enquanto apenas 11% da população geral é tabagista.”

Se você suspeita de uma relação não saudável com o uso de alguma substância, procure ajuda profissional. 

 

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