Covid crônica?

O acompanhamento de pessoas que superaram a fase aguda da infecção pelo Sars-CoV-2 mostrou que vários sintomas podem persistir por longos períodos. Leia no artigo do dr. Drauzio.

mulher sentada no sofá, com mão na cabeça, em sinal de cansaço causado pela covid crônica

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Publicado em: 31/07/2023

Revisado em: 31/07/2023

Estudos mostram que sintomas da covid podem perdurar meses e até mais de um ano. Isso seria sinal de covid crônica? Leia no artigo do dr. Drauzio.

 

A pandemia de covid foi um poço de surpresas.

Quando surgiram os primeiros casos na China, muitos acharam que esse coronavírus não seria capaz de provocar uma epidemia mundial, entre eles o dr. Anthony Fauci, a maior autoridade em doenças infecciosas dos Estados Unidos. Em janeiro de 2020, antes de surgir o primeiro caso no Brasil, tive a mesma impressão, da qual me retratei uma semana mais tarde, assim que as UTIs da Itália divulgaram as primeiras informações.

Veja também: Efeitos da covid no organismo: o que se sabe até agora?

A segunda surpresa foi a gravidade que a doença podia adquirir, especialmente em pacientes com doenças preeexistentes: diabetes, doenças cardiovasculares e pulmonares, fumo, pessoas com obesidade, etc.

A surpresa seguinte veio ao tomarmos consciência de que nenhum país do mundo dispunha de um sistema de saúde preparado para tratar tanta gente que adoecia ao mesmo tempo. As imagens dos caminhões frigoríficos estacionados às portas dos melhores hospitais de Nova York são inesquecíveis.

Talvez a derradeira surpresa tenha sido a da covid longa, caracterizada por sintomas persistentes por meses consecutivos: perda de olfato e paladar, tosse seca, dor de cabeça, dores musculares, fôlego curto, fadiga, neblina cerebral, perdas cognitivas e transtornos psiquiátricos, entre outros sintomas debilitantes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) caracteriza como covid longa os “sintomas que surgem nos primeiros três meses depois da infecção pelo Sars-CoV-2, com duração de pelo menos dois meses”. E toma o cuidado de acrescentar: “Embora essa definição não seja aceita por todos”.

A imprecisão se deve à dificuldade para caracterizar o momento da cura. Primeiro, porque muitos pacientes não conseguem indicar o dia em que a sintomatologia regrediu completamente. Depois, porque não há exames laboratoriais capazes de fazê-lo.

A OMS calcula que existam 65 milhões de pessoas com covid longa, no mundo. Segundo a Organização, ela se instala em 10% a 20% dos infectados pelo Sars-CoV-2.

Uma metanálise (análise vários estudos) realizada pela epidemiologista Tala Ballouz, da Universidade de Zurique, na Suíça, mostrou que a chance de recuperação da covid longa é mais alta no decorrer do primeiro ano de duração da sintomatologia.

O acompanhamento de 1.106 pacientes que tiveram covid aguda antes da existência de vacinas, 22,9% ainda se queixavam de sintomas seis meses mais tarde. Depois de um ano, esse número havia caído para 18,5% e, depois de dois anos, para 17,2%. Segundo os autores, quando a sintomatologia persiste além desse prazo, a condição deve ser considerada crônica.

O estudo de Andrea Foulkes, do Massachussets General Hospital, na cidade de Boston, mostrou que a cura da covid pode levar mais tempo. Dos que ainda referem sintomas seis meses depois da infecção aguda pelo Sars-CoV-2, apenas 1/3 estará curado antes de chegar aos nove meses.

Uma metanálise publicada em março de 2023 identificou os seguintes fatores de risco para desenvolver covid longa: sexo feminino, idade, índice de massa corpórea (IMC) elevado, fumo e doenças preexistentes (asma, diabetes, doença pulmonar obstrutivo-crônica, etc.).

Necessidade de hospitalização e gravidade do quadro durante a fase aguda aumentam o risco. Numa pesquisa, pacientes que passaram acamados sete dias ou mais, hospitalizados ou não, tiveram maior risco de apresentar sintomas persistentes nos 27 meses seguintes.

Desenvolver covid longa no primeiro episódio da doença aguda é mais comum do que por ocasião da segunda infecção.

A vacinação preventiva diminui substancialmente o risco. Uma metanálise publicada em março deste ano revelou que a administração de duas doses da vacina reduz ainda mais o risco. Esse resultado foi confirmado por uma pesquisa da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que comparou a incidência de covid longa em cerca de 10 milhões de pessoas vacinadas, com cerca de 10 milhões de não vacinadas.

Há duas medicações que demonstraram a capacidade de reduzir a possibilidade de desenvolver a forma longa da doença, quando administradas na fase aguda: a metformina e o paxlovid. Mas os resultados ainda precisam ser confirmados por mais estudos.

O tratamento é apenas sintomático. Não existem medicamentos específicos para a covid longa.

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