Novos medicamentos para a obesidade

Novos medicamentos para a obesidade, como a droga semaglutida, prometem revolucionar o tratamento da obesidade. Leia no artigo do dr. Drauzio.

close em farmacêutico fazendo anotações em frente a prateleiras com os novos medicamentos para tratar a obesidade

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Publicado em: 24/01/2023

Revisado em: 24/01/2023

Novos medicamentos para a obesidade prometem revolucionar o tratamento da obesidade. Leia no artigo do dr. Drauzio.

 

Uma nova classe de medicamentos vai revolucionar o tratamento da obesidade, com poucos efeitos indesejáveis.

Essas drogas mimetizam hormônios classificados como incretinas que têm entre suas ações a redução do apetite e das taxas de glicose no sangue.

Veja também: O perigo dos remédios de diabetes usados para emagrecer

No início dos anos 1990, o geneticista molecular Jeffrey Friedman procurava o gene defeituoso que pudesse explicar porque certos camundongos de seu laboratório comiam “ad libitum” até se tornarem obesos. Em 1994 o gene foi identificado: era o responsável pela codificação da leptina, hormônio produzido pelo tecido adiposo, que induz a sensação de plenitude depois de uma refeição. A administração de leptina para esses camundongos obesos, provocava diminuição da fome e do peso corpóreo.

A descoberta criou as bases biológicas do controle do apetite e da obesidade, condição tradicionalmente atribuída à gula e à preguiça.

A descoberta da leptina deu origem a uma enxurrada de pesquisas sobre os mecanismos envolvidos no controle do apetite, da saciedade e do peso corpóreo. Sempre atenta às oportunidades, a indústria farmacêutica investiu grandes somas na busca de novas drogas. Os resultados, no entanto, foram decepcionantes.

Antes da descoberta da leptina já havia interesse em conhecer hormônios capazes de regular a glicemia, em pessoas com diabetes. Os estudos conduziram ao GLP-1, hormônio capaz de aumentar a produção de insulina e de reduzir as taxas de glicose, características que o tornaram indicado para os casos de diabetes do tipo 2 e de obesidade.

Nos anos 2000, o Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos, aprovou os primeiros compostos que mimetizam as ações do GLP-1 no controle do diabetes tipo 2. Nos ensaios clínicos ficou documentado que os participantes também perdiam peso, graças à atividade dessas drogas nos receptores cerebrais que regulam o apetite e nos receptores existentes no intestino, que retardam a digestão quando estimulados. Daí a testá-los para na obesidade foi um passo.

Na metade dos anos 2010, foi desenvolvida a liraglutida que nos ensaios clínicos reduziu 8% do peso corpóreo das pessoas tratadas, enquanto os participantes que receberam placebo perderam apenas 3%.

No início de 2021, um estudo fase III realizado para testar a semaglutida, mostrou que os participantes tratados com uma injeção mensal perderam em média 14,9% da massa corpórea, enquanto o grupo-placebo perdeu em média 2,4%. Baseados nesses resultados os técnicos do FDA aprovaram a semaglutida para tratar a obesidade em adultos.

Outra droga da mesma classe, a tirzepatida, parece ainda mais eficaz, porque não age apenas nos receptores GLP-1, mas também em receptores de outro hormônio envolvido na secreção de insulina, o GIP. No ensaio clínico que justificou sua aprovação pelo FDA, os participantes que receberam uma injeção mensal por 16 meses perderam em média 21% do peso, enquanto no grupo-placebo a redução foi de 3%.

O emagrecimento parece ser menos pronunciado nos que sofrem de diabetes.

Dispor de medicamentos capazes de obter perdas de peso pouco abaixo dos resultados das cirurgias bariátricas é um grande avanço no tratamento clínico da obesidade. Mas, há problemas:

1 – Numa sociedade que atribui à magreza valor estético, será possível evitar o abuso dessas drogas por pessoas com poucos quilos acima do que gostariam?

2 – A disponibilidade desses medicamentos não fará que todos aqueles com IMC na faixa de obesidade sejam candidatos ao tratamento? Não vamos esquecer que cerca de 30% das pessoas obesas são metabolicamente saudáveis. Outros problemas de saúde aumentam mais o risco de morte do que o peso excessivo.

3 – Efeitos colaterais da medicação, como náuseas e vômitos, podem piorar a qualidade de vida de quem já sofre com a obesidade.

4 – Embora já aprovadas pela Anvisa, há o problema do preço exorbitante: nos Estados Unidos, uma ampola mensal de semaglutida sai a U$ 1.300. Quanto custará aqui? Quantos terão acesso? O SUS terá recursos?

5 – As injeções mensais deverão ser mantidas por quanto tempo? Pela vida inteira? Uma vez medicadas, as pessoas não deixarão de lado a atividade física e os cuidados com a alimentação?

Apesar dessas incertezas, finalmente entramos na era da abordagem farmacológica da obesidade.

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