Os gen Z transam menos que as gerações anteriores?

É verdade que os gen z transam menos do que aqueles que vieram antes deles? Entenda o que está por trás dessa mudança na relação com o sexo.

mãos de rapaz seguram celular onde se vê a foto de uma moça em um aplicativo de relacionamento. Geração Z transa menos?

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Publicado em: 20/03/2024

Revisado em: 25/03/2024

É verdade que a geração z transa menos do que aqueles que vieram antes deles? Entenda o que está por trás dessa mudança na sexualidade. 

 

Uma forma de aliviar o estresse e sentir prazer. Livre de imposições. Passível de experimentações. Diversão. Validação. Essa é a forma como Victor Hugo Souza, de 22 anos, enxerga o sexo.

A visão é muito representativa da geração Z (ou Gen Z), da qual ele faz parte. Criados em um mundo muito mais permissivo sexualmente do que as gerações anteriores, os centennials têm aplicativos de relacionamento na palma das mãos, falam abertamente sobre tabus do sexo e ampliam as possibilidades de entendimento da própria sexualidade. 

No entanto, transam menos que as gerações anteriores.

É isso o que mostra o levantamento realizado pela psicóloga Jean W. Twenge, que deu origem ao livro “iGen”. Estima-se que, enquanto os membros da geração X (nascidos entre 1965 e 1981) tiveram uma média de 10,05 parceiros sexuais ao longo da vida, a geração Z (nascidos entre 1995 e 2010) teve apenas 5,29 parceiros.

Existem outros levantamentos, ainda muito incipientes sobre o assunto, mas que mostram a crescente abstinência sexual entre os mais jovens. E os especialistas que trabalham com essa geração percebem a confirmação dos dados na prática.

 

Por que a geração Z transa menos?

Ambos membros da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH), Carolina Freitas é psicóloga especialista em educação sexual e Rodrigo Gouvêa é psicólogo e terapeuta de casal e família. Juntos, eles levantam hipóteses que explicariam a queda do interesse da geração Z pelo sexo:

 

Era digital

“Eles nasceram na era digital. Têm uma conexão digital muito grande e se relacionam através de redes sociais e jogos. Ali, conseguem se conectar, mas no mundo real, de carne e osso, não. E sexo é carne e osso”, pontua Carolina.

No ambiente online, a geração Z obtém uma quantidade infinita de informações, no entanto, não consegue colocar tudo em prática. É por isso que, muitas vezes, são acusados de contradições: ao mesmo tempo em que fazem meditação, se empanturram de fast food; querem abandonar o uso do carro, mas chamam motoristas de aplicativo com frequência. É como se eles tivessem muito embasamento, mas não soubessem o que fazer com todo conhecimento.

Para Victor Hugo, as redes sociais apresentam uma dualidade: ao mesmo tempo em que o efeito dos influenciadores falando sobre sexo desmistificou o tema para toda uma geração, ela também dificultou que a aproximação online tomasse forma na vida real.

 

Os filhos do quarto

Tal relação com o meio digital se retroalimenta: os aplicativos fazem com que o indivíduo não precise mais sair de casa para nada e, por consequência, coloque cada vez menos à prova as habilidades sociais. Hoje, não é mais preciso ir à loja comprar. Tudo é trabalhado para o  isolamento, especialmente depois da pandemia.

“Isso faz com que você não possa vivenciar situações que te fazem aprender a se frustrar, a levar um toco, a achar que está arrasando e a pessoa nem te olhar. Atrapalha a autonomia e o desenvolvimento da sexualidade”, destaca a psicóloga.

Victor Hugo lembra de outro agravante específico da geração Z: a independência tardia, que faz com que os jovens só consigam meios para se bancar em uma idade muito superior à das gerações anteriores. “O custo de vida nos dias atuais está muito alto. A nossa geração tende a ficar mais tempo na casa dos pais. Então, se nenhuma das partes mora sozinha ou se propõe a ir em um motel, gera um impedimento na relação sexual”, relata.

 

Topa tudo por likes

Além disso, é uma geração marcada pela exposição. E, consequentemente, pelo medo da vulnerabilidade. 

“Eles precisam performar muito. Não que as outras gerações não precisassem, mas, se antes era uma performance no duo, agora é uma performance para um grupo, para o Instagram, para muita gente”, acrescenta o psicólogo Rodrigo.

Nos aplicativos de namoro, por exemplo, o flerte rola solto. Mas, pessoalmente, há uma hesitação. Para o especialista, exige uma ânsia por performar muito bem, porém, sem o treino social para que isso dê certo. 

Victor Hugo acredita que, nos aplicativos de namoro, depende muito da disposição das pessoas, porque algumas delas acham que é praticamente um “cardápio”. “É um ambiente muito vazio, você não tem conexão direta. É um meio termo, pode ajudar, mas também pode ser ruim”, reflete o jovem.

Veja também: Pressão estética pode afetar a saúde mental

 

Relação com a pornografia

“Tem a questão da pornografia também. Antes, você alugava uma fita de vídeo com, no máximo, cinco cenas. Hoje, você entra no XVídeos e você tem ali x vídeos, uma infinidade, até o nome é engraçado. Você começa um, para, vai para outro. Até se você pagar o OnlyFans de alguém, vai ter sei lá quantas cenas”, lembra Rodrigo. 

E essa pornografia é oferecida à geração Z sem filtros, em todas as redes. Muitas vezes, de forma sugestiva e implícita, como o “soft porn”. 

Para o psicólogo, as consequências são muitas. Além de reduzir a vontade de relações sexuais reais, a pornografia ressalta a ideia de performance e deturpa a imagem dos jovens sobre o sexo. 

“Na pornografia, está tudo maravilhoso. O sexo é, de certa forma, inatingível, e isso vai afetar a geração Z. Ela vai olhar ali e se comparar, porque não tem o mesmo tamanho de pau, porque não tem a mesma performance, porque não tem o mesmo flerte do que aquele ator. Existe a ideia de que é muito fácil conquistar, de que a relação é sempre maravilhosa, de que a mulher deve ser submissa, e por aí vai”, detalha.

Isso sem contar com o sistema de recompensas rápidas, em que a pessoa tende a precisar cada vez mais da pornografia, que está completamente à disposição na internet.

 

Problemas de saúde mental

No que diz respeito ao emocional, existe a questão das doenças mentais, que sempre existiram. No entanto, nos anos em que nasciam os integrantes da geração Z, passou-se a nomear melhor os transtornos e aceitá-los como condições que exigem tratamento. Os jovens atuais são indiscutivelmente os que mais se preocupam com a saúde mental.

Por outro lado, vivem em uma sociedade de muita cobrança e isso tem consequências tanto para o bem-estar emocional e psicológico quanto para o sexo.

“A minha geração sofre muito com questões de imagem, principalmente por conta do uso das redes sociais e da glamourização de certos padrões estéticos. Isso faz com que muitas pessoas não se sintam confortáveis com seu próprio corpo e, consequentemente, não querem que ninguém veja”, aponta Victor Hugo.

Segundo o psicólogo Rodrigo, os efeitos se estendem para o medo de não conseguir ter ereção, as disfunções sexuais causadas pelo estresse e até mesmo o tempo que será reservado para as relações.

“Com os vídeos rápidos e a pornografia, você tem uma recompensa rápida. Mas se você precisa se posicionar, conversar, estabelecer uma relação, precisa de um tempo. E esse tempo causa uma frustração, por não ter a resposta imediata”, acrescenta Carolina.

Veja também: Assistir pornografia faz mal?

 

Mas quais são os problemas da falta de sexo?

Se a geração Z tem transado menos, podemos pensar pelo lado positivo: pela lógica, problemas como gravidezes não planejadas e infecções sexualmente transmissíveis tendem a diminuir, certo? Errado.

 

Queda de gravidez na adolescência não é sinônimo de autonomia

De fato, um estudo que avaliou os dados de 2000 a 2019 no Brasil registrou a queda dos índices de gravidez na adolescência. No primeiro ano analisado, mães de 10 a 19 anos foram responsáveis por 23,4% do total de nascidos vivos no país. No último ano, elas representavam apenas 14,7%, uma queda de 37,2%. 

Porém, segundo Carolina, essa diminuição não tem a ver com uma maior conscientização  sobre prevenção.

“A gente pode pensar em evitação. Evitação de contato, de estabelecer uma relação. E isso te deixa no mesmo lugar de vulnerabilidade, porque não diminuiu devido à autonomia. Aí entra a questão da abstinência, de restrição à relação sexual”, opina.

 

Infecções sexualmente transmissíveis aumentaram

Tanto os torna vulneráveis que, na outra ponta, percebe-se um aumento dos índices de ISTs. Segundo o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, entre 2015 e 2022, houve um aumento de 2,6 vezes nos casos de sífilis entre jovens de 13 e 19 anos. Em 2020, em relação a aids e HIV, o aumento foi de 64,9% nessa faixa etária e de 74,8% entre os de 20 a 24 anos.   

“Como hoje tem métodos contraceptivos, muda a ideia de prevenção. A infecção pelo HIV não causa mais uma doença incapacitante, então uma parte da geração Z entende que não precisa se preservar tanto. Ou usam só a PrEP e podem ter outras ISTs, porque a PrEP funciona apenas para o HIV”, destaca Rodrigo.

 

Mais problemas de saúde mental

Além disso, existem impactos não tão evidentes, como os na saúde mental. 

“Querendo ou não, o sexo para a nossa geração acaba sendo um grande validador. Quando a gente não transa por muito tempo, pode gerar certos problemas de autoestima e de autoimagem. Um sentimento de rejeição ou de exclusão que também pode levar a questões mais sérias, né?”, diz Victor Hugo. “E eu acho que, dentro de um relacionamento, o sexo é um dos pilares que precisa de manutenção. Abandoná-lo pode levar a desentendimentos”, complementa.

Veja também: A química do orgasmo: conheça os benefícios do prazer para o organismo

 

Como transar mais sendo da geração Z?

É importante lembrar que o sexo é uma escolha. Ninguém deve se sentir pressionado a praticá-lo, pois depende da vontade e do tempo de cada um. No entanto, se você é da geração Z e sente falta de experiências sexuais na sua vida, os psicólogos oferecem algumas dicas:

“Eu acho que uma das primeiras coisas é trabalhar as habilidades. Como eu consigo flertar? É uma geração marcada pela comunicação, afinal a internet faz isso. Mas eu dou conta dessa comunicação? É preciso trabalhar a frustração, a maneira como eu lido com o que eu chamo de fracasso e também a ideia de comparação”, orienta Rodrigo.

“Vai passar pelo autoconhecimento, autoconfiança e tudo que essas habilidades relacionais vão trazendo. Você não constrói isso sozinho. Para eu confiar, eu também preciso sair da casca do ovo. Para entrar em uma relação, precisa saber paquerar, sair, levar um ‘não’, dizer um’ não’”, acrescenta Carolina.

Além disso, como afirma Victor Hugo, o prazer sexual vai muito além do sexo em si. “O simples ato de estar ali com a pessoa que você gosta, se abraçando, trocando carícias, dormindo junto, saindo para um encontro, já desperta o prazer sexual. Estar perto de alguém que você gosta muito e fazer as coisas que você gosta também leva ao prazer”, lembra.

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