A dor pode ser psicológica?

Fatores psicológicos influenciam na percepção da dor. Entenda por que algumas pessoas sentem mais dor do que outras.

mulher com mão no rosto em sinal de dor. veja se a dor pode ser psicológica

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Publicado em: 28/04/2023

Revisado em: 09/05/2023

É comum dizerem que algumas pessoas sentem mais dor do que outras. Descubra se isso é mito ou verdade e se a dor pode ser psicológica.

 

A dor é uma experiência sensorial ou emocional desagradável. Isso significa que a intensidade e a forma como cada um a interpreta variam de acordo com o contexto social, as experiências de vida, o estado psicológico e vários outros fatores.

Pode ser difícil visualizar essa relação na prática, já que costumamos enxergar a dor como a resposta lógica a uma lesão, como cortes e queimaduras. Mas a verdade é que essa sensação é subjetiva — ou seja, a dor provocada por um mesmo machucado pode parecer mais intensa para uns do que para outros.

 

Como a dor é processada?

Para começar, é preciso diferenciar a dor em dois grupos principais, de acordo com o tempo de duração: aguda e crônica. 

 

Dor aguda

“A dor aguda é aquela causada por uma ferida aparente. Ela é intensa, pulsátil e localizada. Não costuma durar por muito tempo, geralmente cessa em menos de um mês, quando há resolução ou cicatrização da lesão”, explica a dra. Taciana Stacchini, reumatologista do Hospital Edmundo Vasconcelos, em São Paulo.

No nosso organismo, ela age como um alerta de que algo de errado vai acontecer ou já aconteceu. Funciona assim: o sistema nervoso periférico (constituído por nervos e gânglios em contato com os órgãos periféricos) percebe que há uma ameaça e conduz estímulos dolorosos através de fibras nervosas para o sistema nervoso central (localizado na medula espinhal e no cérebro). Lá, esses estímulos são processados e formulam, em questão de milésimos de segundos, uma resposta. É isso que faz, por exemplo, você sentir dor e afastar a mão rapidamente ao encostar em um objeto quente.

 

Dor crônica

“Já a dor crônica, por sua vez, costuma ser mais profunda, latejante e mal localizada. Ela deixa tanto o sistema nervoso periférico quanto o sistema nervoso central sensibilizados, interferindo na interpretação da dor. Às vezes, um simples toque já causa incômodo”, pontua a dra. Taciana

A fibromialgia é um caso de dor crônica. Nela, o cérebro fica a todo tempo mandando estímulos dolorosos para o resto do organismo.

Veja também: Fibromialgia não é coisa da sua imaginação

 

Então a dor é psicológica?

Embora haja a interferência de fatores psicológicos na forma como interpretamos os sinais de dor, isso não significa que ela não seja real. Assim como o frio e o calor, a dor existe apenas no cérebro e é o resultado da comunicação entre os neurônios. Ela não é algo palpável, mas incomoda de verdade.

“A dor não é apenas uma sensação física. O componente afetivo e as experiências já vividas pelo paciente impactam na forma com a qual ele a interpreta. Na maioria das vezes, as pessoas que relatam dores mais exacerbadas são aquelas que têm algum transtorno emocional associado, como depressão ou ansiedade”, ilustra a reumatologista.

Isso acontece porque a realidade em que a pessoa está inserida, o seu sofrimento e o seu contexto social influenciam no funcionamento do sistema biológico. Alguém que vive em um ambiente estressante não consegue responder aos chamados do próprio corpo da mesma forma que alguém que vive em outro contexto.

Portanto, é verdade que algumas pessoas sentem mais dor do que outras. E também é por esse motivo que é tão difícil mensurar a dor, exigindo uma conversa detalhada entre médico e paciente para qualificá-la.

 

Como classificar a dor?

Ainda que sejam sensações bastante individuais, existem algumas formas de agrupar as dores. Além da questão temporal (aguda ou crônica), elas podem ser identificadas de acordo com a sua origem. A dor somática surge nas partes periféricas do corpo, como pele, músculos e articulações, enquanto a visceral é provocada por alterações nos órgãos internos.

Há ainda a classificação de acordo com a fisiopatologia da dor, isto é, suas causas. A dra. Taciana elenca:

  • Nociceptiva: É a resposta normal a um estímulo doloroso, como uma fratura, queimadura ou inflamação. Está diretamente ligada a lesões.
  • Neuropática: É a dor sentida quando há uma lesão ou doença que afete o sistema nervoso periférico ou central.
  • Nociplástica: É a dor causada pelo aumento da sensibilidade no sistema nervoso central sem motivo aparente. Está associada a um desequilíbrio entre os neurotransmissores que causam e bloqueiam a dor.
  • Idiopática: É uma dor cuja causa dificilmente é encontrada, mesmo depois de exames clínicos, laboratoriais ou de imagem.
  • Disruptiva: É a dor que vem em forma de crise em pacientes que têm dor crônica. Ela surge com força, rompendo o alívio oferecido pelas medicações.
  • Dor psicogênica ou psicossomática: É uma alteração na percepção da dor, comum em pacientes com transtornos psicológicos ou psiquiátricos e acionada por determinados gatilhos. 

 

Quando procurar ajuda?

Uma dor aguda que persiste por muito tempo ou aparece associada a outras queixas, como febre, náusea e vômito pode evoluir para a crônica. Já uma dor crônica não tratada adequadamente pode se intensificar, provocando sofrimento em outras regiões do corpo. 

“A dor é sempre um sinal de que alguma coisa não está bem. Por isso, ela deve ser sempre valorizada”, alerta a reumatologista.

Veja também: Dor crônica: o que faz um médico algologista?

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