Depressão e ansiedade podem ocorrer juntas, mas como tratar?

É comum uma pessoa ter os dois transtornos psiquiátricos ao mesmo tempo. Entenda as diferenças e como esse tipo de caso é tratado.

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Publicado em: 03/03/2023

Revisado em: 03/03/2023

É comum uma pessoa ter os dois transtornos psiquiátricos ao mesmo tempo. Entenda as diferenças e como esse tipo de caso é tratado.

 

O Brasil é o país com a maior prevalência de depressão da América Latina, além de ter os maiores índices de ansiedade do mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). É de se imaginar que, com tantos casos de depressão e ansiedade acontecendo, nem sempre eles estejam separados. 

Na verdade, é muito frequente que os dois transtornos estejam presentes ao mesmo tempo. “É muito comum que a gente veja pessoas com depressão que passem a apresentar sintomas ansiosos, e até preencham critérios para transtornos de ansiedade em algum momento, e vice-versa. Pessoas muito ansiosas, principalmente quando essa ansiedade é mais crônica, mais incapacitante, é muito comum também desenvolverem quadros depressivos, por conta do desgaste físico e emocional, com a frustração de não conseguir “funcionar” bem, operar bem nas atividades do dia a dia, diante das limitações que a ansiedade traz”, afirma a dra. Bruna Campos, psiquiatra pela Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro.

A ansiedade acaba sendo um fator de risco para a depressão, e o contrário também acontece. Há algumas questões envolvidas nessa relação, como fatores genéticos, por exemplo. “A gente sabe que os transtornos mentais de uma forma geral não têm um único gene, são vários genes que podem estar associados. E na depressão e na ansiedade também já foram mapeados genes em comum que podem aumentar as chances daquela pessoa desenvolver o quadro”, explica a médica. 

Mas, para além da questão genética, existem as questões do próprio quadro, conforme mencionamos acima. “Então, uma pessoa que está deprimida, dependendo do funcionamento da pessoa, dos traços de personalidade, e de inúmeros fatores, ela pode desenvolver ansiedade, e vice-versa.”

        Veja também: Ficar triste o tempo todo não é normal

 

Como diferenciar depressão e ansiedade?

A psiquiatra pontua que, apesar dos dois quadros muito frequentemente estarem presentes ao mesmo tempo, os sintomas principais de cada um são diferentes. 

“Na depressão, a gente tem dois sintomas principais, que são tristeza profunda na maior parte do tempo, na maioria dos dias, e o que a gente chama de anedonia, que é um termo técnico que a gente usa para definir aquela sensação de perda de prazer em coisas que antes davam prazer para o indivíduo, perda de interesse em fazer as coisas que gostava de fazer antes”, explica.

Além desses, podem estar presentes sintomas como alterações de sono, alterações de apetite e alterações de psicomotricidade (geralmente, a pessoa fica com pensamentos e movimentos mais lentos), entre outros.

Enquanto isso, na ansiedade, o sintoma predominante é a preocupação excessiva, que causa um estado de alerta na pessoa. “Na ansiedade generalizada, por exemplo, os sintomas comuns são pensamentos acelerados, dificuldade de relaxar mesmo quando há oportunidade para isso, sensação de que algo ruim pode acontecer a qualquer momento e, também como na depressão, costumam ocorrer alterações de sono, de apetite, irritabilidade, etc.”, completa. 

        Ouça: O que é ansiedade? – DrauzioCast #192

 

Como funciona o tratamento

Segundo a médica, a grosso modo, o tratamento de ambos os transtornos se sustenta nos mesmos pilares. 

  • Psicoeducação: esse é o primeiro ponto, que consiste no paciente entender sobre os transtornos e os sintomas para conseguir lidar melhor com isso no seu dia a dia, por exemplo, saber o que fazer diante de uma crise de ansiedade ou de pensamentos muito negativos. Essa orientação pode ser feita tanto pelo psiquiatra quanto pelo psicólogo; 
  • Acompanhamento médico: a avaliação médica é fundamental para excluir outras causas clínicas, outras possíveis doenças que podem estar contribuindo para a ocorrência dos sintomas. Também é o psiquiatra que irá receitar o uso de medicamentos, quando necessário; 
  • Acompanhamento psicológico: além do acompanhamento médico, é fundamental o acompanhamento psicológico nos casos de depressão e ansiedade, para que a pessoa possa trabalhar os pensamentos disfuncionais e as emoções que estão causando prejuízo. A psicoterapia busca ajudar no bem-estar e na melhora do quadro a médio e longo prazo; 
  • Ajustes no estilo de vida: mudanças na rotina e ajustes nos horários das atividades (como reduzir a carga horária de trabalho quando possível, por exemplo) são medidas que podem ajudar nesses casos. Outros pontos a serem observados são: sono, alimentação, prática de atividade física, estresse, consumo de álcool e outras drogas e substâncias. No caso do sono, por exemplo, já é sabido que pessoas que dormem mal têm maior risco de ter transtornos depressivos; 
  • Uso de medicamentos: em casos com sintomas muito graves e incapacitantes, que estão causando muito prejuízo na rotina da pessoa, o uso de medicações é necessário e importante para evitar uma piora do quadro, principalmente enquanto as outras medidas ainda não surtem efeito. 

        Veja também: O que fazer na primeira consulta com o psicólogo?

 

Medicamentos servem para ambos os transtornos

A psiquiatra destaca que tanto estratégias utilizadas na psicoterapia quanto alguns medicamentos ajudam tanto nos quadros de depressão quanto nos quadros de ansiedade. “Os remédios que são considerados tratamento de primeira linha para depressão e para ansiedade são praticamente os mesmos. Muitas vezes, apesar dos dois transtornos estarem presentes, pode ser escolhido um remédio só que vai ajudar em ambos os quadros”, esclarece. 

Em alguns casos, pode ser necessária a combinação de medicações diferentes no tratamento, e esse uso combinado não oferece riscos. “O risco maior ocorre quando é feito o uso sem prescrição, sem recomendação médica, em doses acima do que é prescrito. Mas o uso combinado dos dois [medicamentos] não só não oferece risco, como muitas vezes é importante para algumas pessoas.” 

        Veja também: Como os antidepressivos agem no cérebro?

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