Barato muito louco – Outras Histórias #59

Nem maconha, nem cocaína: o que o paciente do dr. Drauzio havia sido acusado de traficar era um barato muito mais louco.

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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Publicado em: 19 de julho de 2022

Revisado em: 17 de agosto de 2022

Nem maconha, nem cocaína: o que o paciente do dr. Drauzio havia sido acusado de traficar era um barato muito mais louco.

 

 

 

Algemado, o paciente entrou no consultório. Ele tinha escabiose, popularmente conhecida como sarna, uma doença comum nas celas dos presídios brasileiros. Enquanto receitava o tratamento, o dr. Drauzio perguntou por que estava ali. O detento havia sido enquadrado no artigo 33, acusado de tráfico, e aguardava julgamento há 5 meses.

Quando questionado sobre qual droga traficava, ele respondeu que era casca de fruta ralada. E ainda garantia: a tal fruta dava um barato muito louco. Ouça neste episódio de Outras Histórias.

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O paciente entrou no consultório da cadeia onde eu atendo algemado. O funcionário que me ajuda no atendimento veio com a chave. O rapaz era magrinho e se coçava de dar aflição. Ele chegou até a pedir licença pra mim pra poder esfregar as costas contra a soleira da porta. Quando eu levantei a camiseta surrada que ele vestia, eu confirmei o óbvio: escabiose, sarna.

Desde os tempos do antigo Carandiru, as prisões masculinas que eu frequentei vivem infestadas de sarna. Nas celas coletivas dos centros de detenção provisória, os CDPs, que são ocupadas por mais de 20 homens à espera do julgamento, o parasita deita e rola. Ele se aloja na pele, causa lesões, especialmente nas axilas, nas dobras dos dedos, na região pubiana, no pênis e nas nádegas pra depois se espalhar pelo corpo inteiro. O ato de coçar machuca a pele e funciona como porta de entrada pras bactérias, que acabam formando furúnculos e abcessos.

Eu pedi pra ele tirar a roupa. Era uma infestação tão intensa e generalizada pela sarna que provocava descamação grosseira na pele, a pele parecia que esfarinhava assim. Em vários locais, havia feridas infectadas. Eu expliquei que ia prescrever uma injeção de penicilina, sabonete contra a sarna e dois comprimidos de ivermectina. E nessa hora ele ficou meio assustado: “Eu tô com Covid?” E, aí, eu expliquei que a ivermectina é bom pra sarna e inútil pra Covid. Enquanto eu preenchia a receita, eu perguntei em que artigo ele estava enquadrado. “33, doutor”, ele respondeu. Mulheres e homens presos evitam falar dos crimes cometidos, eles preferem se referir a eles pelo número do artigo do Código Penal. 33 é o artigo do tráfico. Eu perguntei: “Que que cê traficava, maconha ou cocaína?” “Ô, que é isso, doutor? Nunca usei nem mexi com essas coisas.” “Então, o que você traficava?” “Casca de fruta ralada.” Eu disse: “Casca de fruta ralada? Ô meu, eu atendo em cadeia há mais de 30 anos, cê tá me tirando?” “Não, doutor, com todo respeito. Eu vendia casca de fruta pros maluco fumar na quebrada.” Aí, eu perguntei: “E dá barato isso?” Ele disse: “Ô se dá, o baguio é doido”.

Contou que trabalhara como mecânico, dos 15 aos 25 anos, numa oficina na Grande São Paulo. Ele ganhava o suficiente pra alugar uma casa de dois cômodos e morava lá com a esposa e o filho pequeno. Em 2016, quando ele e a mulher ficaram desempregados, a solução foi mudarem pruma pequena chácara do avô dele, que era na periferia de Caieiras, na Grande São Paulo. Pra não viver às custas do avô aposentado, ele fazia o trabalho que aparecesse. Foi servente de pedreiro, entregador, carregador, guardador de carro, vendedor de porta em porta e segurança de um desmanche local, em que ele conheceu um amazonense, que veio com a história dos indígenas que fumavam as cascas da tal fruta. Ele não levou a sério, mas resolveu experimentar. Não precisou comprar, na chácara, havia quatro pés carregados dessa fruta. Aí, ele ralou a casca, deixou no sol pra secar por três dias e, aí, experimentou. Quando ele deu as primeiras tragadas, sentiu o baque, que ele descreveu assim: “Doutor do céu, fiquei leve, solto no ar, na paz, tudo psicodélico em volta”. Daí, pra começar a vender pros malucos da redondeza, foi um passo.

O entra e sai na porta da chacrinha não preocupou o avô, incapaz de entender o gosto daquela gente que comprava casca de fruta. Ele comercializava cada saquinho pequeno a 50 reais, quantia de um dia inteiro de trabalho nos bicos que ele conseguia fazer. Comprou roupa pra família, TV nova, brinquedos pro filho, presentes pro avô. A vida melhorou tanto que não fazia mais sentido procurar emprego.

Um dia apareceu um PM. Queria saber em que lugar estava a plantação de maconha, única justificativa pra tanto movimento no portão. Ele trazia, inclusive, dois saquinhos apreendidos com usuário. Aí, ele disse o seguinte: “Quando eu expliquei pro PM qual era o conteúdo, o homem ficou bravo, ameaçou me bater. Eu insisti e ele continuou duvidando. Até que falei pra ele fazer um teste. Se ele sentisse o efeito, pronto, me deixava livre.” Preparou um cigarro e recomendou ao policial que pegasse leve porque o “baguio era muito doido”. O conselho não foi seguido. Sem sentir o efeito, o PM deu uma tragada atrás da outra, apesar das advertências. “De repente”, ele diz “ô, doutor, o barato veio com tudo. O cidadão estonteou, falava que saiu do corpo, que estava li, mas não estava mais, que as árvores contorciam, que o meu cachorro ria da cara dele.”

O policial descumpriu o trato. Enquadrado no artigo 33, o rapaz aguardava a sentença havia cinco meses. Quando eu disse que não seria condenado por vender casca de fruta e que um advogado conseguiria libertá-lo, ele esboçou um sorriso: “Advogado, eu, preto e pobre?”

Você, leitor, deve estar curioso pra saber que fruta é essa. Pois vai ficar na curiosidade, como eu. Ele não quis me contar, alegou segredo de ofício.

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