O centro – Outras Histórias #60

Enquanto faz suas corridas matinais aos domingos, os pensamentos do dr. Drauzio captam tudo o que acontece no centro de São Paulo.

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Publicado em: 26/07/2022

Revisado em: 17/08/2022

Neste episódio, o dr. Drauzio descreve os edifícios, as histórias e os personagens que encontra pelo centro de São Paulo em suas corridas aos domingos de manhã.

 

 

 

Em seu livro Correr (2015), o dr. Drauzio descreve as corridas que faz pela região do centro de São Paulo aos domingos de manhã. Ele relata o silêncio enquanto as lojas estão fechadas e as dificuldades que os moradores de ruas têm em encontrar um lugar para dormir tranquilos, longe da chuva e do relento.

O médico também conta das brigas, das conversas e das situações peculiares que presencia ao passar pelos transeuntes e revive memórias carregadas pelos edifícios mais icônicos da cidade. Ouça neste episódio.

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Eu contei essa história no meu livro Correr, que foi lançado em 2015.

De uns anos pra cá, além de correr no Minhocão, peguei o gosto de correr pelo centro aos domingos. Eu saio de casa pela Rua Maria Antônia, que foi em 1968 palco da guerra entre os alunos do Mackenzie e simpatizantes do regime militar, e os da Faculdade de Filosofia da USP, no prédio em frente. Desço a Consolação na calçada oposta à da Igreja de Nossa Senhora da Consolação, projetada em estilo neorromânico pelo mesmo arquiteto da Catedral da Sé, em 1909, pra substituir uma igrejinha antiga que havia no local. Eu viro à esquerda na Avenida Ipiranga, do lado oposto ao do Copan, esse gigante de linhas curvas, projetado por Oscar Niemeyer, onde vive uma quantidade de pessoas maior que a população de muitas cidades. Em frente ao edifício, a aglomeração na porta da boate Love Story, que ostenta na fachada ser “a casa de todas as casas”, lotada até fechar às 10 da manhã.

Na Praça da República, eu viro à direita pra entrar no calçadão da Barão de Itapetininga e já estou no meio dos prédios mais encantadores de São Paulo. Com as lojas fechadas, o centro está deserto e silencioso. Os moradores de rua, que se aconchegam às portas e marquises dos prédios, dormem o sono dos justos, cabeça apoiada na sacola com os pertences. São centenas de mulheres e homens deitados em cima de folhas de papelão, jornais velhos, trapos e tudo o que lhes possa amenizar a dureza do chão. Embaixo de cobertores cinzentos, alguns descansam ao lado do vira-lata preso à carrocinha em que recolhem material para reciclar. Outros se protegem sob tendas improvisadas, com pedaços de plástico e madeira. Outros ainda jazem junto à garrafa de cachaça, que lhes alegra e arruína a existência. Na maioria, são homens solitários, mas há mulheres de todas as idades e casais abraçados sob as cobertas.

A disposição pelas ruas, a porta do prédio escolhido, a presença ou não de marquises protetoras, a qualidade dos trastes que carrega e o conforto do leito em que repousa denunciam a classe a que pertence o cidadão. Os mais privilegiados vivem no conforto das barracas iglu, que uma ONG distribuiu tempos atrás. Os catadores de materiais recicláveis dormem sob as suas carroças. Os remediados se defendem com caixas de papelão, cabanas de plástico e cobertores quadriculados. Enquanto a ralé, formada por alcoólatras de rosto inchado e usuários de crack em pele e osso, fica jogada em qualquer canto, sem nenhum bem que possa servir de travesseiro, protegida apenas pelo cobertorzinho ordinário até a cabeça pra afugentar a claridade. No Largo São Francisco, há os que transformam em dormitório coletivo a área sob as arcadas da Faculdade de Direito e os que se deitam junto à parede da calçada entre elas e a Igreja de São Francisco ao relento.

Num domingo, ao passar por lá, ouvi uma altercação entre uma negra corpulenta, sentada num colchãozinho de borracha, na parte central das arcadas, e uma branca franzina, que passara a noite a céu aberto, mais pro lado da igreja. A julgar pela resposta da negra, a vizinha deve tê-la ofendido. “Morta de fome é você, sua invejosa, que dorme no papelão, no meio da rua. Eu me deito em colchão macio, debaixo de um teto.”

Nem bem havia clareado, num outro domingo, eu vinha pela Rua Boa Vista, que liga a Praça da Sé ao Largo São Bento, quando um homem parou em meu caminho. Era um senhorzinho mirrado, sem dentes, de barba e cabelos brancos revoltos, que tinha um olho azul e o outro vazado, vestido com uma calça tão larga quanto encardida e um blusão da New York University, confeccionado pra alguém com o dobro da estatura dele. Do jeito que me olhava, eu supus que tivesse me reconhecido, por causa das aparições na TV, como eventualmente acontece quando corro na rua. À medida que me aproximei, ele se deslocou para o lado como se fosse obstruir a passagem. Quando sorri, prestes a desejar-lhe bom-dia, ele me encarou com o único olho e vociferou: “Vá pra puta que o pariu”.

Sob a marquise do antigo Mappin, onde hoje estão instaladas as Casas Bahia da Praça Ramos de Azevedo, em frente ao Teatro Municipal, obra do arquiteto que deu nome à praça, existe um dormitório que alberga mais de 20 inquilinos. Como a loja abre aos domingos, nem todos os desabrigados se interessam em passar a noite ali, apesar da generosidade do espaço. Um deles me disse: “Tem um primo que dorme lá, é muito bom, não chove nem pega sereno, tem posto de polícia na frente, mas que adianta, acordam a gente às nove da manhã no melhor do sono”.

Cruzo a rua, contorno o Municipal e atravesso o Viaduto do Chá, erigido sobre o Vale do Rio Anhangabaú, que hoje corre por um canal soterrado. É muito agradável sentir no corpo suado a brisa que circula pelo vale nas primeiras horas da manhã. Quem vem do viaduto na direção à Praça da Sé atravessa a do Patriarca. Toda vez que passo por lá fico com raiva do pórtico metálico gigantesco, projetado sobre a entrada da estação do metrô, que seria muito bonito se não escondesse a fachada dos prédios antigos e a igrejinha de Santo Antônio, cujas primeiras referências datam de 1592, do lado direito. Não consigo entender também por qual razão a estátua do patriarca José Bonifácio, em tamanho real, foi disposta com a frente pra quem vem da Rua Direita e com as costas para a praça. Teria sido pra não ver o pórtico?

Em contraste com as demais ruas do centro, a Praça da Sé fervilha naquele horário. Moradores de rua fazem fila pra receber o café da manhã, distribuído por voluntários, e formam rodinhas pra conversar, tomar o café ou o primeiro gole do dia, com a garrafa de mão em mão. Acocorados no chão, os solitários observam o movimento. Apanham sol sem camisa na escadaria da catedral ou dobram os panos que lhes serviram de cama. De Bíblia na mão, um pregador enfurecido descreve as artimanhas de Satanás para meia dúzia de gatos pingados.

Nos meus tempos de menino, a Praça da Sé era um largo asfaltado, no qual se concentravam os pontos iniciais dos ônibus que partiam para a Zona Sul. Um conjunto de prédios de escritórios, construídos no começo do século 20, em que funcionavam dois cinemas, fazia a separação entre ela e a Praça Clóvis Beviláqua, na qual existe um quartel do corpo de bombeiros e onde o meu avô português ganhou a vida como telegrafista, a Igreja do Carmo, o Colégio e o Convento das Carmelitas e os pontos de ônibus que serviam à Zona Leste e inspiraram o samba de Paulo Vanzolini, que me vem à cabeça toda vez que passo por lá: “Na Praça Clóvis, minha carteira foi batida, tinha 25 cruzeiros e o seu retrato; 25 francamente achei barato pra me livrar daquele atraso de vida.”

Com a derrubada dos edifícios que delimitavam as praças, a retirada dos ônibus, a construção da estação do metrô e o plantio de árvores e de palmeiras tropicais, as duas praças se fundiram num grande largo, que durante a semana mistura desocupados, maltrapilhos, bêbados, mulheres de salto e homens de gravata a caminho do fórum da Praça João Mendes. Na Sé, junto ao prédio da Caixa Econômica, eu desço a ruazinha do sobrado imponente onde morou dona Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, namorada do imperador Dom Pedro I, casa hoje transformada em museu, e passo pela igrejinha azul e branca do Pátio do Colégio, em torno do qual os jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega fundaram em 1554 a cidade batizada com o nome de São Paulo de Piratininga.

Do lado oposto, no início da Rua Boa Vista, vejo o prédio da Associação Comercial, que exibe um impostômetro, com números vermelhos rodando em velocidade vertiginosa pra contabilizar cada real arrecadado pelo governo, e vou na direção do Largo São Bento. Uma esquina antes de alcançar o largo, jamais deixo de entrar à esquerda, na Rua João Brícola, e de diminuir a velocidade diante de um predinho de quatro andares, com uma porta metálica verde, de cinco metros de altura, circundada por cópias de moedas antigas, de meio metro de diâmetro, algumas das quais eu conheci quando criança.

Mantenho o passo mais lento para admirar a fachada de meu prédio preferido, construído no período de 1939 a 1947, no estilo art déco, pelo arquiteto Álvaro de Arruda Botelho, o prédio do Banco de São Paulo, cujas linhas delicadas me foram apresentadas num passeio pelo centro em companhia do arquiteto Isay Weinfeld. Do outro lado da rua, a 50 metros dele, o Edifício Martinelli, inaugurado em 1929, marco da arquitetura da cidade que se industrializava e crescia, projetado pelo arquiteto húngaro William Fillinger e modificado pelo empreendedor Giuseppe Martinelli, com o objetivo de torná-lo o arranha-céu mais alto fora dos Estados Unidos. Pra chegar aos 30 andares necessários para tanto, Martinelli construiu a própria casa nos últimos andares, estratégia que lhe permitiu atingir seu objetivo e transmitir aos demais moradores a segurança de que o edifício não desmoronaria. Mais tarde, o prédio do Banespa desbancaria o Martinelli.

Entre os dois, uma pracinha com um coreto de madeira e um relógio redondo com ponteiros metálicos que apontam para algarismos romanos. Aí, nasce a Avenida São João. Quando tenho a sorte de os sinos da Igreja de São Bento começarem a badalar, corro em círculos até desaparecer dos ouvidos a reverberação do último toque. Ao atravessar o Viaduto Santa Ifigênia, sou invariavelmente perseguido por outra memória musical. Por mais que queira espantá-los, não consigo impedir que me venham à cabeça os versos mal acomodados do samba de Adoniran Barbosa: “Venha ver, venha ver, Eugênia, como ficou bonito o Viaduto Santa Ifigênia”.

O batedor de carteiras da Praça Clóvis e a Eugênia do viaduto e o prédio do Banespa, que me traz a imagem do tio Odilo no Minhocão, fazem parte desses mantras que se intrometem em nossos pensamentos enquanto corremos. Difícil encontrar um corredor que não seja tomado por um deles em determinado momento. Como portadores de TOC, não somos capazes de evitá-los. Podem vir sob a forma de música ou imagem, que se condensa e evapora, como nos casos citados, de frases de exortação, do tipo “vamo lá”, “ô, um passo mais”, “ô, coragem”, “tá chegando, tá chegando”, repetidas dezenas de vezes, de conversas trocadas com pessoas imaginárias ou com nós mesmos, ou ainda de palavras alinhadas sem coerência, que emergem de centros cerebrais ativados pelo esforço dispendido e pela perspectiva do que ainda falta realizar.

Sigo pela Rua Santa Ifigênia, paraíso dos amantes da eletrônica, até desembocar na Avenida Duque de Caxias, junto à antiga estrada de ferro Sorocabana, inteiramente reformada para a construção da Sala São Paulo, uma das salas de concerto mais modernas do mundo. Atravesso a avenida e entro na Alameda Dino Bueno, obstruída ao longe por uma mancha escura de vultos trágicos, que se acotovelam na sarjeta em meio a quentinhas, com restos de comida, garrafas de plástico e papéis atirados para todos os lados. Cheguei à cracolândia. Vou na direção deles.

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