DrauzioCast #179 | Nervo ciático

A dor no nervo ciático costuma aparecer em pessoas mais velhas, por causa do desgaste da coluna vertebral.

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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Publicado em: 25 de abril de 2022

Revisado em: 24 de maio de 2022

A dor no nervo ciático costuma aparecer em pessoas mais velhas, por causa do desgaste da coluna vertebral.

 

 

 

O nervo ciático é aquele que vai desde a coluna vertebral, passando por trás da coxa e do joelho, até chegar no dedão do pé. Quando alguma de suas raízes nervosas fica comprimida ou inflamada, surge a dor ciática – aquele incômodo que começa na coluna e vai para a parte de trás da perna.

Geralmente, os problemas no nervo ciático aparecem em idosos, pessoas que têm hérnia de disco, osteoartrite, tumores ou passaram por algum tipo de trauma na coluna. Para saber como a dor acontece e o que fazer para tratar, o dr. Drauzio conversa com o ortopedista David Del Curto, especialista em coluna. Ouça!

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O nervo ciático é o maior nervo do corpo humano. Ele se estende desde a coluna vertebral, desce por trás da coxa e do joelho de cada perna até alcançar o dedão do pé. Quando há uma compressão ou inflamação em uma ou mais das raízes nervosas que correm o nervo, ocorre a chamada dor ciática, bem conhecida de todos.

A dor se origina na coluna e se irradia para a parte traseira da perna, parte de trás da perna — imagine só como deve ser incômoda a dor num nervo tão comprido. A condição tende a ser mais frequente em pessoas mais velhas, porque com o passar dos anos as estruturas da coluna vertebral podem ficar mais desgastadas.

Existem alguns fatores que podem causar o problema. Uma hérnia de disco, por exemplo, a osteoartrite, que o povo chama de artrose, traumas, tumores, entre outros. Para responder às principais dúvidas sobre as causas, o diagnóstico e tratamento da dor ciática, quem está com a gente hoje é o Doutor David Del Curto. Doutor David é ortopedista do Hcor. Ele é especializado em coluna e membro do Grupo de Coluna do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Escola Paulista de Medicina, a Unifesp.

 

Dr. Drauzio Varella: Seja bem-vindo, David.

Dr. David Del Curto: Obrigado, Drauzio. Para mim é um prazer enorme e gratificante participar do seu podcast. Muito obrigado pelo convite. 

 

DV: Obrigado você. David, vamos começar com a pergunta mais básica, aqui, né. Qual é o caminho que o nervo ciático faz no nosso corpo?

Dr. David: Então, Drauzio, você explicou muito bem já, né. O nervo ciático, ele é formado pela junção de cinco raízes nervosas, né, sendo duas lombares (L4 e L5) e três sacrais (S1, S2, S3). Essas raízes, elas se juntam fora da coluna, na altura mais ou menos na região lombar, dando origem ao plexo lombossacral, e eles se juntam dando origem ao nervo ciático.

O nervo ciático nesse momento ele desce, né, num sentido inferior e lateral, passa atrás do ísquio, né, atrás, por uma cavidade conhecida como incisura isquiática maior, passa atrás do glúteo. Depois do glúteo desce, atrás da coxa, chega mais ou menos na fossa poplítea, que é a parte de trás do joelho, e aí dá origem, né, a dois nervos menores, né, que aí são o nervo tibial e o nervo fibular comum. Cada nervo desse também, daí ele vai seguir uma trajetória mais para baixo, chegando à planta do pé e ao dorso do pé, tendo funções, né, tanto motoras quanto sensitivas.

 

DV: E quais são as principais causas de dor no nervo ciático?

Dr. David: Existem diversas causas, tá, para dor ciática, sendo que as três mais comuns são as hérnias de disco, seguida pelas estenoses de canal — estenose de canal é o estreitamento do canal, né, como você bem descreveu agora há pouco, na medida que a gente envelhece, nossas articulações tendem a crescer. O desgaste leva ao aumento do volume das articulações e de outras estruturas, como os ligamentos, que acabam crescendo para dentro do canal. Quando essas estruturas crescem dentro do canal, acabam entrando em conflito com as raízes nervosas, né, exatamente essas raízes que eu descrevi agora, que dão origem ao nervo ciático. Então essa estenose de canal acaba sendo também uma causa de dor ciática —, outra situação, já um pouco menos comum, que [são] as hérnias de disco, né, e as estenoses de canal, são as instabilidades da coluna. 

Então, o processo degenerativo, o envelhecimento da coluna pode acabar levando a movimentos anômalos entre as vértebras, né, e esses movimentos anômalos podem acabar inflamando alguma das raízes nervosas, dentro da coluna, e que acaba levando ao sintoma da dor ciática. 

Existem causas um pouco menos comuns também, né, que é a compressão do nervo, né, na região glútea, né, pelo músculo piriforme, e tumores, né, também… é… metástase ou infecções da coluna também podem levar a uma irritação ou uma compressão dos nervos que dão origem ao ciático. Essas são as causas.

 

DV: A surge sempre por uma compressão do nervo?

Dr. David: Sim, pode ocorrer também, a gente não descarta o fator inflamatório, né. Então, não necessariamente hérnias volumosas acabam levando ao sintoma da dor ciática. Às vezes, hérnias pequenas, pequenas protrusões, pelo fator químico, né, o disco degenerado entrando em contato com a raiz acaba levando uma irritação dessa raiz, a irritação desse nervo e a pessoa acaba desenvolvendo o sintoma, um sintoma clássico da dor ciática.

 

DV: E quais são as características da dor? Eu falei muito superficialmente, queria que você caracterizasse melhor, David.

Dr. David: Isso daí é um tema muito, muito muito importante. É perguntado isso daí, pelos pacientes, né. Existe o sintoma clássico, né, Drauzio, que é a dor lombar que irradiação clássica, que passa por trás do glúteo, desce por trás da coxa, chega muitas vezes até panturrilha, estendendo-se até o pé. Isso é um sintoma clássico principal mais encontrado, tá, mas existem outras formas de manifestação da dor ciática pouco menos frequentes, tá. 

Por exemplo, tem pacientes que sentem apenas dor glútea. Uma dor pontual no glúteo, constante, às vezes não é muito intensa. Às vezes é uma dor somente na panturrilha, uma dor pontual na panturrilha, como uma facada. E essa dor pode se estender em toda a trajetória do nervo ciático, desde o quadril, desde a região lombar até o pé. Então isso acaba confundindo um pouco paciente — o paciente leigo —, e a característica da dor também é uma coisa importante, né.

Então, assim, a dor pode… é… o tipo de dor, variar desde uma pontada, né, como eu falei, pode ser uma pontada apenas no glúteo, atrás da coxa, pode ser uma sensação de choque, que vai em toda a trajetória do nervo, né, desde a região lombar até a perna, em troca a pessoa sente uma fisgada, um choque que desce pela perna comprometida. E pode ter também, um pouco menos frequente, mas a gente não pode descartar também o sintoma de queimação. Então o paciente, na área afetada do nervo, ela pode sentir uma queimação, uma ardência, que pode superficializar, pegar um pouco da pele. Então, isso daí varia muito, o tipo de sintomatologia, e a gente não pode descartar que exista um comprometimento da coluna quando o paciente apresenta um desses sintomas.

 

DV: David, geralmente essa dor é uni ou bilateral? Quer dizer, dá numa perna só ou pega os dois lados?

Dr. David: É muito mais frequente unilateral. Existem casos — obviamente um pouco mais raros — quando pega as duas pernas, mas o mais comum é o sintoma unilateral. Existem casos, né, na verdade que são mais graves, em que hérnias de disco volumosas que podem provocar os sintomas da cauda equina, né, que além de ter uma dor bilateral irradiando para as duas pernas, a pessoa tem sintomas é… isso internos, né… que [é] quando comprometem a continência, né — tanto urinária quanto a continência intestinal; isso daí pode ser comprometida, mas são casos raros, só que a gente tem que se manter sempre alerta, porque são bem graves em vista do comprometimento funcional e motor, né, que pode acarretar.

 

DV: Como a dor ciática é muito popular, as pessoas sabem ou já ouviram falar, ou já viram alguém com esse tipo de dor, você às vezes tem dores que, nessa região, que são chamadas de ciática. Por exemplo, a dor no cóccix, né. Isso tem alguma coisa a ver com a dor ciática?

Dr. David: Sim, a dor no cóccix, ela pode ser um sintoma do comprometimento do ciático, sim, só que a dor no cóccix pode ter diversas causas também. Dor do cóccix pode ser por uma sobrecarga mecânica, né, pacientes que trabalham sentados várias horas por dia em cadeiras mais duras, né, ou praticante de hipismo ou motociclistas também podem acabar desenvolvendo uma sobrecarga da região coccígea e acaba tendo uma dor crônica.

E existem casos também que a dor no cóccix é uma manifestação de uma hérnia de disco e comprometimento no ciático. Então isso daí é depende muito do colega, o especialista, o médico que vai avaliar esse paciente para determinar a causa dessa dor no cóccix.

 

DV: Quer dizer, a própria pessoa que está com a dor não tem condição de saber exatamente de onde ela vem, não é?! Qual etiologia, não é?!

Dr. David: Difícil… É difícil esse diagnóstico. Eu vejo que muitas vezes até colegas médicos algumas vezes podem ter dificuldade para estabelecer o diagnóstico.

 

DV: Você disse que as pessoas mais velhas, pelo desgaste na coluna, acabam tendo a dor ciática de forma mais frequente. Que medidas elas devem adotar para prevenir, para evitar que surjam essas dores?

Dr. David: A nossa recomendação não muda. Na verdade é a mesma recomendação que a gente tem dado há vários anos. Não existe nada melhor para prevenir esses sintomas do que hábitos saudáveis, né. Então, primeiro, o paciente evitar obesidade, né, então tomar cuidado com alimentação, uma dieta sempre hipocalórica — ela é mais saudável para o paciente se manter magro; paciente que se mantém magro tem menos chance de acabar desenvolvendo uma dor ciática, né. Ele impõe uma sobrecarga muito menor na coluna dele, então esses desgastes que vão acabar aparecendo com o tempo, eles são menores.

Todo mundo vai acabar desgastando com o tempo, né, só que os desgastes são maiores, a osteoartrite, a degeneração das articulações da coluna e do próprio disco, são piores em pessoas que impõem mais carga, né. Então essa carga leia-se obesidade, a gente pode entender também pessoas com esforços repetitivos, né, trabalhos braçais mecânicos, né, operadores de grandes máquinas, motoristas de veículos grandes, ônibus, caminhões… Esse tipo de paciente tem um risco maior de desenvolver problemas da coluna.

Então, quanto mais saudáveis os hábitos, então, leia-se também uma atividade física saudável, uma atividade física que fortaleça o corpo e o core, né, o conjunto de músculos que reveste, né, o nosso colete muscular, que reveste nossa coluna lombar. Então, pacientes que têm o hábito de praticar atividade física, fortalecidos e que têm hábitos posturais saudáveis têm uma tendência a ter menos sintomas e sofrer menos com a coluna, sofrer menos com crises do nervo ciático.

 

DV: Apesar de ser mais comum, essas dores serem mais comuns nas pessoas mais velhas, podem acontecer nos jovens também, não é?

Dr. David: Sem dúvida, Drauzio. Na verdade isso daí é um mito que muitas pessoas acreditam, né, que “ah, eu tô ficando velho porque eu estou com uma hérnia de disco”. Na realidade, a hérnia de disco é uma doença de paciente jovem, somente o disco hidratado jovem ‘hernia’. A hérnia de disco é mais comum de ocorrer em pacientes entre os 30 e os 50 anos, é o pico da incidência da hérnia de disco.

Paciente mais idoso tende a desenvolver ciática por outros motivos, mais pela estenose de canal. O paciente que tem hérnia de disco ele tem a ciática aguda, súbita; ele faz um esforço, ele carrega um peso, de repente ele sente uma dor que se inicia de forma aguda, intensa, muito dolorosa, muito limitante. 

O paciente mais idoso, ele tem uma ciática mais arrastada, ele começa a ter episódios de dores curtos, depois melhora, depois volta, depois melhora, e com o tempo vai se intensificando. Por que isso? A estenose de canal é um processo lento. O estreitamento do canal, ele acontece, ele vai piorando lentamente ano após ano, década após década, né. Então, a gente compara a coluna de um paciente com 30 anos, a trajetória até os seus 80 anos, ela vai fechando devagarzinho, e dependendo da genética, da predisposição da pessoa e dos hábitos que ela teve ao longo da vida, essa velocidade estreitamento, de degeneração da coluna dele pode variar, pode piorar ou pode diminuir o ritmo desse envelhecimento. 

Então, os sintomas da ciática do paciente idoso, ela é mais arrastada, ela demora para se estabelecer, mas ela pode chegar a ser tão intensa ou pior que os sintomas da ciática do paciente jovem. Então o tempo de evolução é diferente. O comportamento da dor é um pouquinho diferente.

 

DV: Então, aparece no seu consultório uma pessoa que diz “ah, eu estou com uma dor aqui, que apareceu de repente, quando eu levantei um peso. Ela agora desce para a perna, vem por trás aqui…”, que exame você faz para confirmar a suspeita clínica de dor ciática?

Dr. David: É muito importante de fazer um exame físico, né, adequado desse paciente, porque algumas vezes, dependendo da causa dessa dor ciática, a gente fala que alguma compreensão — seja por uma hérnia, um cisto ou até mesmo um estreitamento do canal — pode acabar vindo junto uma perda da função neurológica deste nervo que está comprometido. 

Então a gente tem que avaliar a sensibilidade e a força da musculatura da perna, né, desse paciente. Então isso tem que ser, acima de tudo, bem estabelecido e afastado qualquer déficit neurológico um pouco mais grave. Em seguida a gente passa para os exames de imagem. Então, o exame que melhor mostra para nós a anatomia da coluna, o comprometimento dos discos, a anatomia dos nervos, a distribuição deles dentro do canal, partes moles, é a ressonância magnética.  Tomografia é um exame que nos mostra melhor o arcabouço ósseo da coluna lombar, mas a ressonância é aquele exame que nos vai trazer dados, né, mais importantes, mais relevantes para saber se existe algum problema comprimindo algum nervo dentro do canal.

 

DV: David, e se você está num lugar que não dispõe de ressonância magnética? Uma pequena cidade no interior, ou enfim, dá para fazer o tratamento, para organizar, para fazer o diagnóstico com bastante segurança sem a ressonância?

Dr. David: A gente pode, em cidades menores, né, que não tenham a disponibilidade de exames mais específicos, a gente afastando um déficit neurológico mais importante, uma perda de força importante no pé, a gente pode começar o tratamento, sim, do paciente sem um exame de imagem. A gente pode prescrever analgésicos, a gente pode prescrever um pouco de fisioterapia, um repouso relativo — nunca repouso absoluto —, um repouso relativo por pouco tempo, evitando esforços, e a gente pode usar também meios, como calor, frio, gelo — na fase aguda geralmente a gente recomenda mais o gelo, e na fase crônica, após três dias, o calor —, mas isso também não é um dado absoluto, né. Isso daí varia muito de paciente para paciente. 

Tem pacientes que não toleram o frio, né, não aguentam fazer compressa com bolsa de gelo, preferem o calor. Da mesma forma como tem pacientes que você vai fazer uma compressa morna, um pouco mais quente, e vão sentir um desconforto maior. Você vai vendo [que] também não é uma receita de bolo para todo mundo.

Então, desde que a gente não tenha um déficit neurológico, a gente pode começar o tratamento desses pacientes, e partir para uma investigação a partir do momento que essa dor se prolonga e não melhora — aí sim a gente teria que pedir o exame mais específico.

 

DV: É, você disse que o ideal seria fazer a aplicação de gelo no local durante os três primeiros dias e depois calor local, não é?!… bolsa de água quente, etc. Os pacientes não resistem? “Pô, eu estou com uma dor tão forte aqui, ainda vou pôr gelo…”? 

Dr. David: Sim. Então, isso varia muito. Então pacientes que você vê que sentem um desconforto, que não toleram frio — e que é comum, tá, não é tão raro —, você já sente [que] o calor também pode ajudar bastante. Só que isso varia muito. No geral, nos três primeiros dias na fase aguda da dor lombar, o gelo penetra mais a fibra muscular, penetra mais profundo, então o efeito anti-inflamatório [é] importante, né, pelo menos na fase aguda.

 

DV: E que tipo de medicamentos você usa nessa fase aguda?

Dr. David: Isso aí depende um pouquinho da intensidade dos sintomas do paciente, né. A gente pode começar desde analgésicos simples, né, paracetamol, dipirona, entram também os anti-inflamatórios não hormonais — existe uma variedade de anti-inflamatórios não hormonais no mercado —; quando os sintomas da dor ciática, da dor neural são muito intensos, né, aí a gente pode entrar com duas classes de medicações que são bastante efetivas para o controle da dor, que são os anti-inflamatórios hormonais, né, os corticosteróides e analgésicos opioides sintéticos, né, da linha da codeína. Então, são medicações que podem ajudar na fase aguda. 

Na fase crônica, existe outra classe de medicamentos já, né, que podem ajudar pacientes que têm ciática crônica. Não sei se vem tanto ao caso de discussão aqui, mas são derivados de anticonvulsivantes, né, como a gabapentina, antidepressivos também que podem ajudar em casos de pacientes com dor crônica.

 

DV: Você disse que os pacientes não devem fazer repouso. No passado era assim, né? Você tratava a dor ciática, o doente ficava de cama, sem se mexer, até a dor melhorar, o quadro melhorar, e ele podia levantar da cama. E hoje vocês recomendam que ele não fique em repouso absoluto. Qual é o inconveniente de passar o dia deitado quando  você está com uma dor dessas?

Dr. David: A gente pode acabar piorando, né, a recuperação do paciente. O que se sabe é que se tem que estimular, né, a variação na verdade de posição, né. Então o paciente tem que encontrar uma posição — sentado, deitado, levantar um pouquinho, andar —, isso acelera a melhor recuperação dele; se a gente mantém o paciente deitado em repouso absoluto, a gente pode acabar atrasando um pouquinho a melhora desse paciente e acaba prolongando a limitação funcional desse paciente e a recuperação, prejudicando a recuperação dele.

Então, obviamente a gente tem que estimular, dar medicações que ajudem ele a ganhar um pouco de mobilidade e a se recuperar, mas a gente tem que evitar ao máximo que ele fique deitado, completamente deitado, sem se mexer numa cama — isso acaba prejudicando a recuperação.

 

DV: É lógico que varia muito de uma pessoa pra outra, mas nesses casos, em geral, quantos dias costuma se passar até a pessoa conseguir andar relativamente bem?

Dr. David: Depende da causa, Drauzio. Sabe, assim, tem causas que são inflamatórias, geralmente travamentos, inflamações por algum esforço que o paciente fez geralmente costumam melhorar em poucos dias, tá. Em questão de até uma semana melhoram bastante.

Agora, quando a gente tem um fator mecânico importante, por exemplo, uma hérnia de disco volumosa, aí a recuperação pode na verdade não vir. Então existem casos, né, por exemplo, hérnias suturas discais grandes com compressão neural importante, né, o paciente ter um déficit mobilidade, uma dor que acaba sendo incapacitante… Aí existem casos, né, [que] graças a Deus são uma minoria, mas que acabam tendo que evoluir para uma cirurgia descompressiva, uma remoção da ruptura, para liberação desse nervo.

Então, não existe um tempo preciso. O que se sabe, né, levando em consideração a causa mais comum da dor ciática, né, que são as hérnias de disco. 90% das hérnias de disco vão ter uma resolução completa, né, dos sintomas em seis semanas. Entre seis semanas até três meses, 90% dos pacientes com uma dor ciática provocada por uma hérnia de risco vão ter a resolução dos sintomas.

 

DV: No passado, as cirurgias já foram mais indicadas que hoje, não é? Por que que vocês ficaram mais conservadores nesse momento? Tentam tratar clinicamente, reservar a cirurgia para casos muito especiais…
Dr. David: Na verdade, Drauzio, o que a gente tem observado é que a técnica cirúrgica melhorou muito. A gente tem recursos hoje, né, como microscópios super avançados, e hoje uma coisa que cresceu muito, né, e muitos colegas têm optado por esse tratamento da cirurgia endoscópica da coluna, né — que ela serve tanto para o tratamento das hérnias de disco como para a estenose  —, ela, com um furinho pequeno assim, a gente consegue resolver o problema, remover uma hérnia, acaba sendo uma cirurgia bastante segura, supra resolutiva, né, e com uma recuperação super rápida pro paciente.

Então, obviamente a gente não vai indicar a cirurgia para um paciente que tem a possibilidade de melhorar com tratamento clínico, tá. Toda cirurgia tem obviamente seus riscos, né, tem os riscos cirúrgicos de qualquer procedimento que você vai fazer no paciente, mas mudou muito. Dos últimos anos para cá, eu posso falar para você, Drauzio, que nos últimos 10 anos a tecnologia tinha imagem, né, os instrumentos que a gente tem, a própria técnica, o desenvolvimento da técnica melhorou muito o tratamento das síndromes compressivas da coluna. Não só da lombar, como também da cervical, da coluna torácica também.

 

DV: David, vamos imaginar que você um dia, de repente, tivesse uma dor dessas fortes, que o pessoal diz “fiquei travado”. Que medidas você tomaria nesse momento?

Dr. David: Olha, como médico ou como paciente?

 

DV: Como paciente.

Dr. David: Dependendo da dor, da intensidade, um analgésico simples primeiro a gente pode tomar. Se tiver um anti-inflamatório também em casa e ele não tiver nenhuma contraindicação (para o uso do anti-inflamatório e analgésico), eu posso fazer uso, ver como que vai ser a minha evolução. Se persiste a dor e a limitação para eu me mexer, e se a dor está irradiando para a perna e eu tô com dificuldade para me mexer, estou com dificuldade para andar, para fazer atividade simples, tá — atividades simples eu digo ficar sentado cinco minutos ou ficar de pé cinco minutos —, já começa a me trazer uma dor, aí convém procurar um médico — não necessariamente um especialista, mas um médico, para me avaliar, descartar a possibilidade de ser alguma coisa mais grave e iniciar um tratamento básico, né, uma observação simples.

 

DV: E você procuraria andar mais ou passar mais tempo deitado? 

Dr. David: Na fase aguda, quando em um evento de uma dor aguda, a gente evita forçar a barra. Quer dizer, andar mais, testar, “deixa eu tentar fazer uma caminhada, ver se eu melhoro” não convém, porque, nesses casos, o nervo ciático está sofrendo um processo inflamatório agudo, né. Se a gente estimula esse nervo, se a gente começa a andar mais, essa inflamação pode piorar. 

A gente não pode também fazer um repouso absoluto e parar. Então, importante é uma variação de posição: sentar um pouquinho, numa cadeira confortável, numa boa ergonomia, andar um pouco, deitar um pouco, variar de posição e observar a evolução dessa dor, a evolução desses sintomas. Se eles persistirem, se eles não melhorarem, se houver uma limitação mecânica, uma limitação física funcional, convém procurar um médico.

 

DV: David, vocês normalmente indicam fisioterapia nesses casos, não é? Fala um pouquinho sobre o papel da fisioterapia e o que que a gente deve esperar de resultados com ela.

Dr. David: A fisioterapia tem um papel fundamental no tratamento da dor ciática, né. Qualquer que seja o motivo dessa dor — desde as hérnias de disco, as instabilidades, a estenose do canal —, a fisioterapia, no começo, né, nos quadros agudos de dor, tem um papel analgésico, né, costuma (a fisioterapia) com meios térmicos… Existem recursos que eles usam para aliviar a tensão, a inflamação do nervo, e com o tempo, o fortalecimento e alongamentos leves, podem acelerar a recuperação do paciente.

Então, quando a gente aplica meios físicos, né, da fisioterapia, ao fortalecimento, a gente consegue estabilizar melhor os segmentos da coluna. Isso daí facilita e acelera a recuperação do paciente que está sofrendo de dor ciática.

 

DV: E para encerrar, David, vamos ver as recomendações para quem não quer ter dor ciática. Deve fazer o que no dia a dia? 

Dr. David: Hábitos saudáveis. Mantenha-se magro; pratique atividade física saudável; mantenha hábitos posturais saudáveis; evite ficar mais do que uma hora sentado, por mais importante que seja o trabalho — nem que seja para levantar alguns segundos, depois voltar e retomar o seu trabalho —; evite fazer esforços desnecessários que sobrecarreguem a coluna; tente manter uma boa postura, em casos de esforços não previstos; acho que uma boa alimentação influencia bastante; e não fumar também ajuda muito, no sentido de evitar o desgaste acelerado da coluna.

 

DV: Entre todos os malefícios, nós temos esse também, é? Em fumantes têm um desgaste maior da coluna?

Dr. David: É comprovado, cientificamente comprovado que o tabagismo acelera o processo degenerativo da coluna. Então não tem comparação, uma pessoa que fuma, que fumou por muito tempo tem uma coluna muito… nem só a coluna, né, Drauzio, a gente sabe que o corpo inteiro, o sistema cardiovascular, metabólico… tudo envelhece muito mais rápido numa pessoa que é tabagista, em relação à pessoa que não é — e na coluna não é diferente.

 

DV: A vida sedentária é uma das complicações que leva a esse tipo de dor também, não é?

Dr. David: Sem dúvida, Drauzio. A vida sedentária, ela faz com que se tenha uma musculatura mais flácida. O tônus muscular é muito importante para manter nossa coluna estável. Na nossa região lombar a gente não tem — não é que nem nossa região torácica, que temos costelas que estabilizam a nossa coluna torácica —, na região lombar a gente só tem um colete muscular, né, que estabiliza essa coluna lombar. Então, esse colete muscular tem que ser trabalhado. 

A gente tem que manter o tônus muscular desse colete sempre ativo, aumentar o tônus, a qualidade da tonificação muscular do nosso core, né, desse colete. Então, pessoas que praticam atividade física têm uma tendência a ter menos problemas. Esse tônus muscular ajuda a diminuir a sobrecarga na coluna e tem mais qualidade de vida.

 

DV: Engraçado, David. Acho que eu… Realmente as dores na coluna torácica, essa parte mais alta, são mais raras, né. E eu nunca tinha pensado que isso acontece porque as costelas dão uma estabilidade maior para essa região da coluna.

Dr. David: Sem dúvida. Vide assim, a incidência de hérnia de disco e estenose de canal na coluna torácica é infinitamente menor do que na região cervical, na região lombar, que são áreas da coluna que não são protegidas, né, que não são estabilizadas. São áreas da coluna que os únicos estabilizadores são a própria musculatura.

 

DV: É… David, muito obrigado. Muito úteis essas suas observações. Espero que ajude muita gente.

Dr. David: Obrigado, Drauzio, um grande prazer estar aqui com você e espero que todos tenham desfrutado da entrevista.

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