Os impactos do bullying na infância e na adolescência

A prática de bullying pode causar consequências que perduram até a fase adulta. Saiba como identificar os sinais do problema.

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Publicado em: 31/01/2024

Revisado em: 30/01/2024

A prática de bullying pode causar consequências que perduram até a fase adulta. Saiba como identificar os sinais do problema.

 

O bullying é um tipo de violência comum no ambiente escolar e que pode causar uma série de consequências negativas para as vítimas. De acordo com o 17º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 38% das escolas brasileiras relatam enfrentar problemas de bullying. Para falar sobre o tema, primeiro precisamos entender o que é o bullying

Segundo Fernando Lamano, pediatra e vice-presidente do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), o bullying é uma forma específica de violência entre pares, caracterizada por um padrão repetitivo de comportamento agressivo no qual a vítima é alvo de ataques persistentes. 

“Esse comportamento geralmente ocorre em um contexto em que há um desequilíbrio real ou percebido de poder entre os envolvidos. Vale destacar que o  bullying não tem uma motivação justificável, e por isso que ele se diferencia de outras formas de violência, como algumas brigas ocasionais que podem acontecer na escola”, afirma.

O especialista explica que os impactos vão depender da frequência com que o bullying acontece, além da duração, a idade em que ele ocorre, a gravidade e o tipo de violência. “Os impactos do bullying podem ser observados anos após a violência ter encerrado, inclusive após décadas”, destaca. 

O bullying pode causar impactos em diferentes áreas: 

  • Impactos no desempenho escolar: a criança que sofre bullying pode ter sua capacidade de concentração reduzida, com consequente queda no rendimento escolar, maiores índices de faltas e maior risco de abandono dos estudos; 
  • Impactos físicos e orgânicos: do ponto de vista físico, podem haver escoriações, ferimentos, hematomas e até fraturas; e do ponto de vista orgânico, estresse crônico que pode levar ao aumento de processos inflamatórios e redução da resposta imune; 
  • Impactos psicológicos e emocionais: baixa autoestima, maior risco de uso de drogas, transtornos fóbicos, síndrome do pânico, ansiedade, depressão, maior frequência de autolesões, ideação e tentativa de suicídio.

“E vale lembrar também que muitos dos casos de ataques a escolas são de autores que foram vítimas de bullying. Então, o bullying tem papel importante nesse aumento e na incidência dos casos de ataque à escola”, completa o pediatra. 

 

Como identificar os sinais do bullying

Em geral, as pessoas que são vítimas de bullying têm muita dificuldade de falar sobre o ocorrido e buscar ajuda, o que normalmente está associado ao medo de sofrer mais represálias. “[A dificuldade] pode estar relacionada também ao medo do julgamento que os pais ou a própria direção da escola pode fazer da criança. Por exemplo, os pais de repente acharem que a criança é fraca, que ela tem que reagir. E o pior de tudo é que muitas vezes a vítima de bullying acha que ela merece ser violentada”, afirma o dr. Fernando. 

Existem diversos sinais que podem indicar aos pais e familiares que a criança pode ser vítima de bullying, como:

  • Sinais frequentes de traumas, como ferimentos e hematomas – é comum, inclusive, que a criança ou adolescente que está nessa situação use roupas de frio mesmo quando está muito calor, com o objetivo de esconder as lesões; 
  • Recusa em ir para a escola;
  • Queda no rendimento escolar;
  • Perdas frequentes de objetos – a vítima diz que perdeu o objeto, quando na verdade ele foi tomado pelo agressor (esse também é um aspecto a se observar nos agressores, a aquisição frequente de objetos que não pertencem a ele); 
  • Alterações repentinas de humor;
  • Maior tendência ao isolamento;
  • Busca por amizades fora da escola;
  • Sintomas psicossomáticos, como dores frequentes (dor de cabeça e dor de barriga, por exemplo);
  • Em períodos de estresse mais intensos, alterações no sono e na alimentação. 

“As crianças e os adolescentes muitas vezes também se isolam, ficam extremamente agressivos, eles ficam com muitos medos, começam a ter comportamentos estranhos, chorar mais do que o habitual, ter dificuldades no sono e pesadelos, começam a ficar preguiçosos, descompromissados com a vida. Muitos quando passam por situações de bullying começam a ter doenças, às vezes não muito graves, mas, por exemplo, é comum a gente pegar no consultório pacientes que ficam frequentemente resfriados ou frequentemente reclamam de dores de cabeça”, completa Eduardo Goldenstein, pediatra, psicólogo e secretário do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da SPSP.

        Veja também: Como reconhecer e agir ao suspeitar de violência contra crianças

 

Como agir para ajudar as vítimas de bullying

Diante dessa situação, e visando ajudar e acolher as crianças e adolescentes que estão em sofrimento, é fundamental que os pais não minimizem o problema. “E outra coisa extremamente importante é jamais atribuir culpa à vítima. Isso não só os familiares, como a escola. Numa sociedade onde a gente comumente faz isso com outros tipos de violência, é muito importante a gente ter uma postura empática e procurar ajuda”, afirma o dr. Fernando.

O primeiro passo é conversar com a escola, procurar a ajuda da direção e dos responsáveis para tratar o caso; e posteriormente, buscar ajuda profissional também, inicialmente com o próprio pediatra, que deve acolher essa família e verificar quais são as primeiras necessidades, e depois, se necessário, dar um encaminhamento para um serviço de psicologia ou até para um psiquiatra, se já houver repercussões importantes causadas pelo bullying

“É necessário perceber a dor da criança para que possamos pensar no que fazer. Toda criança que não está bem, que tem alguma coisa que não está indo bem, que muda o comportamento de uma hora para outra e começa a ter reações estranhas, têm uma suspeita de bullying por trás e isso precisa ser visto”, diz o dr. Eduardo.

Pensando na prevenção, ele destaca que é importante que as crianças e adolescentes tenham intimidade com seus pais, que sejam criados laços de amizade e proximidade para que os filhos tenham confiança em conversar sobre as coisas. Ele também levanta outras orientações aos pais, como não incentivar situações de perigo e desafio às crianças, não idealizar a criança e o adolescente, não constrangê-los, exibindo ou exigindo deles comportamentos exagerados e não ter medo de conversar com eles sobre sexualidade (não incentivando uma sexualidade precoce, mas sim esclarecendo suas dúvidas a respeito do assunto). 

 

O papel da escola no combate ao bullying

Os especialistas destacam que a primeira coisa que as escolas devem fazer é admitir a existência do bullying e não tentar escondê-lo. Para combater o bullying, é preciso falar sobre ele. “Uma abordagem preventiva de bullying e cyberbullying [bullying que acontece no ambiente virtual] é importante, envolvendo não só o caráter punitivo dos agressores, mas a conscientização e a formação dos jovens sobre os valores morais, sobre diversidade, sobre empatia e sobre solidariedade. E tudo isso pode ser construído não só na abordagem do tema bullying e cyberbullying, como na própria dinâmica escolar”, explica o dr. Fernando. 

Além disso, o especialista ressalta a importância de que a escola tenha um olhar voltado não apenas para as vítimas, mas também para os agressores, que são pessoas que também precisam de ajuda.

“Acho que falar sobre o bullying, fazer reuniões, fazer as crianças falarem a opinião que eles têm do bullying, é uma coisa interessante. Da mesma forma, agir nas redes sociais, de modo que os alunos, as crianças e os adolescentes entendam que não é certo humilhar o outro, que eles não gostam. Se eles não querem ser humilhados, por que eles vão humilhar os outros?”, completa o dr. Eduardo. 

Em relação ao cyberbullying, o dr. Fernando destaca que um dos maiores desafios é que a pessoa que pratica violência tem possibilidade de anonimato e a repercussão pode ser muito maior e mais importante, porque pode alcançar milhares de pessoas. Por esse motivo, a educação digital deve acontecer tanto em casa quanto na escola. 

“Nós pediatras temos recebido importante orientação da própria anamnese [entrevista feita entre o profissional de saúde e o paciente] digital nas nossas consultas de puericultura [acompanhamento periódico de crianças e adolescentes]. Saber quanto tempo a criança fica com uso de dispositivos eletrônicos, que tipo de instrumento ela usa, isso ajuda a gente a entender a dinâmica da família. Por exemplo, você pega uma criança que fica muitas horas na frente da tela e no computador, você tem uma participação da família em outras atividades muito menor. Então, isso ajuda a gente a conduzir esse trabalho”, finaliza. 

        Veja também: Saúde mental nas escolas: como os professoras podem ajudar seus alunos?

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