Mutismo seletivo afeta crianças pequenas e precisa de tratamento

O transtorno geralmente surge na primeira infância e, caso não seja tratado, pode causar impactos no aprendizado e na socialização da criança.

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Publicado em: 03/02/2023

Revisado em: 03/02/2023

O transtorno geralmente surge na primeira infância e, caso não seja tratado, pode causar impactos no aprendizado e na socialização da criança.

 

O mutismo seletivo é um tipo de transtorno de ansiedade caracterizado pela dificuldade da criança de falar em determinados contextos sociais, mesmo apresentando desenvolvimento normal da linguagem. Por exemplo, ela fala normalmente com os pais e familiares próximos, mas não consegue conversar com a professora e os colegas de sala ou parentes mais distantes. 

O mutismo normalmente surge bem cedo, entre 2 e 4 anos de idade, mas tende a ser diagnosticado mais tarde, entre 5 e 6 anos. “A identificação geralmente acontece na época do ingresso na escola, quando mesmo após a adaptação ao ambiente e familiarização com os profissionais/colegas, a criança permanece sem conseguir falar com eles”, explica a dra. Marcia Morikawa, psiquiatra da infância e adolescência e médica assistente do Programa de Ansiedade na Infância e Adolescência do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq/HCFMUSP). 

Segundo a especialista, o transtorno pode ocorrer em outras faixas etárias, mas de forma bem menos frequente. “Sempre é necessário o diagnóstico diferencial com outras causas orgânicas e psiquiátricas. A persistência de mutismo seletivo após os 10 anos de idade e por mais de seis meses de duração sinaliza um pior prognóstico.”

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Investigação e diagnóstico do mutismo

Ao observar os sinais de mutismo seletivo, os pais ou responsáveis devem buscar uma avaliação médica – com um psiquiatra infantil ou um neuropediatra – para investigar o desenvolvimento da comunicação da criança, coletando dados sobre marcos de desenvolvimento e dificuldades de linguagem. 

“Alguns exames podem ser necessários para descartar causas clínicas/orgânicas que possam ser confundidoras no diagnóstico, como capacidade de audição, dificuldades de compreensão de linguagem, transtornos neurológicos, transtornos psicóticos, deficiência intelectual, transtorno do espectro autista, etc.”, afirma a psiquiatra.

A escola tem um papel fundamental no processo de investigação do mutismo seletivo, pois geralmente é o primeiro contato sistemático que a criança tem com o mundo externo. “Principalmente neste cenário de pós-pandemia imediato, muitas crianças ficaram confinadas em ambientes seletivos, com acesso a poucos familiares e amigos das famílias, sendo a escola o primeiro local onde têm que se expor para conversar com pessoas diferentes”, explica a médica. 

Dentro desse contexto, é comum que os educadores sejam os primeiros a notar a dificuldade ou falta de comunicação, além de um possível sofrimento em relação a isso. A profissional destaca ainda que o mutismo seletivo pode causar sofrimento na criança, prejuízo nas suas relações interpessoais e no seu desenvolvimento pessoal e até mesmo problemas físicos, como infecções urinárias, já que a criança não consegue verbalizar para a professora que precisa ir ao banheiro. 

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Como funciona o tratamento

De acordo com a especialista, o tratamento do mutismo seletivo depende da presença ou não de outros diagnósticos orgânicos (como déficit auditivo e gagueira, por exemplo) e psiquiátricos (como ansiedade social, depressão, transtorno de ansiedade generalizada, transtornos do neurodesenvolvimento, etc.). “Quando há uma comorbidade, ela deve ser tratada, para viabilizar o tratamento do mutismo.”

Normalmente, o tratamento é feito com psicoterapia cognitivo-comportamental, com exposições sistemáticas, controle e redução dos níveis de ansiedade e, dependendo do caso, também pode ser recomendado o uso de medicamentos.

Sem o tratamento adequado, estudos científicos apontam que a taxa de remissão do mutismo seletivo é rara e geralmente cursa com recidivas (quando o transtorno reaparece). “Para além disso, o mutismo interfere diretamente na capacidade de socialização da criança, da testagem da sua capacidade de aprendizado – se a criança não fala, a professora pode não conseguir mensurar sua capacidade de leitura, por exemplo – e pode acabar tornando aquele indivíduo disfuncional, por não conseguir se comunicar conforme o esperado”, explica a médica.

Crianças com mutismo seletivo também têm maior risco de se tornarem adultos com transtornos de ansiedade em comparação com a população em geral. “Esse aspecto também deve ser levado em consideração durante sua avaliação e acompanhamento.”

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