Perda de audição e uso de aparelhos auditivos: por que tanto preconceito?

Embora a maioria das pessoas tenha perda de audição com o envelhecimento, o tema ainda é cercado de preconceito, principalmente quando há a necessidade de usar aparelhos auditivos.

médica insere aparelho auditivo em senhora. Veja matéria sobre perda da audição e uso de aparelhos auditivos.

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Publicado em: 16/09/2022

Revisado em: 16/09/2022

Embora a maioria das pessoas apresente diminuição da capacidade auditiva com o envelhecimento, ainda há muito preconceito a respeito da perda de audição e do uso de aparelhos auditivos.

 

Quem já passou dos 40 anos certamente já protagonizou ou presenciou a situação: em uma mesa de restaurante ou bar, diante do cardápio, uma pessoa disfarça, franze a testa e estica o braço para tentar enxergar as letras que, sem aviso prévio, teimam em embaralhar.

A tentativa de disfarce é inútil, e em geral a cena termina em gargalhadas e promessas de buscar um oftalmologista. Isso porque sabemos que a visão, assim como outras funções do organismo, piora com o envelhecimento, e é difícil que uma pessoa que já tenha passado dos 40 escape dos óculos para ler.

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Com o avançar da idade, várias funções do organismo se deterioram, mas se é verdade que aceitamos relativamente bem a perda da visão que surge com o tempo, a mesma coisa não ocorre com a audição, em especial se ela requerer o uso de aparelhos auditivos.

“O uso de aparelhos está cercado por um estigma. As pessoas imaginam que o fato de necessitarem um aparelho de amplificação sonora é sinal de que estão velhas e incapazes de desempenhar suas funções”, disse em entrevista a este Portal a fonoaudióloga Kátia de Almeida, especialista em audiologia pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa).

“Dois terços das pessoas com mais de 70 anos têm algum grau de perda auditiva. Aos 85 anos, essa proporção sobe para quatro quintos”, revelou a otorrinolaringologista dra. Graziela de Souza Queiroz Martins, doutora em otorrinolaringologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

A diminuição da acuidade auditiva, no entanto, traz consequências sérias para as pessoas mais velhas. “A perda da audição adquirida com o envelhecimento prejudica a mobilidade, a independência e está relacionada ao aumento de acidentes e de isolamento social”, explicou a dra. Graziela.

Além disso, a diminuição da audição está associada ao declínio cognitivo em idosos. Cada vez mais surgem estudos relacionando a perda de audição e o aumento do risco de demências. Segundo relatório da comissão do periódico “The Lancet”, a perda de audição com o envelhecimento é um dos maiores fatores de risco modificáveis para demência.

Assim, o uso de aparelhos auditivos, entre outras medidas que evitem o isolamento de pessoas mais velhas com diminuição da audição, tem um grande impacto na prevenção das demências.” Depois que comecei a escutar mal, tenho evitado situações sociais como almoços com a família e festas, porque escuto com muita dificuldade quando há ruídos no ambiente. Para evitar o constrangimento, prefiro não ir a esses eventos”, contou Luísa,* aposentada de 83 anos, que começou a notar a perda da audição por volta dos 70 anos.

De acordo com a dra. Graziela, o que ocorreu com Luísa é bastante comum. “A surdez isola. Diferentemente do que ocorre com quem não enxerga, as pessoas ao redor perdem a paciência com quem não escuta bem.”

 

Perda auditiva em crianças

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), no mundo todo há mais de 360 milhões de pessoas com alguma perda auditiva, sendo mais de 30 milhões de crianças.

A perda da audição, quando não identificada, está associada a declínio cognitivo em crianças, que podem ter dificuldade de aprendizagem nos casos em que a perda não é identificada.

Trabalhos apontam que não é só o grau de perda da audição que determina o atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem da criança com perda auditiva profunda. Também pesa o momento da intervenção. Portanto, diagnóstico precoce e uso de aparelho associados ao início da terapia fonoaudiológica até o sexto mês de vida aumentam a chance de a criança desenvolver a fala e a linguagem, assim como de atingir desenvolvimento social e psicológico iguais ao da criança ouvinte”, contou Kátia.

A triagem neonatal auditiva, conhecida como teste da orelhinha, deve ser feita ainda na maternidade. O exame é realizado na maioria das maternidades privadas, e desde 2010 os hospitais do SUS são obrigados a oferecer o exame.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que a triagem seja realizada antes dos três meses de idade. A entidade afirma que crianças com perda auditiva diagnosticada precocemente têm melhor desenvolvimento do que as que recebem cuidados tardiamente, aos 2 ou 3 anos, em relação a fala, linguagem, ganho escolar, autoestima e adaptação psicossocial. 

Além disso, a vacinação é uma importante aliada na prevenção da perda de audição em crianças, visto que doenças preveníveis com imunização, como rubéola, caxumba, sarampo e meningite, podem deixar sequelas que incluem surdez.

 

Custo e dificuldades de adaptação

O uso de aparelhos auditivos nem sempre é fácil, a começar pelo acesso. Embora haja uma ampla variedade de aparelhos, são poucos os que têm condições de adquiri-los. Os mais sofisticados podem custar até R$ 30 mil, e mesmo um aparelho básico não sai por menos de R$ 3.500.

Quem pode pagar em geral procura o modelo que chama menos a atenção, mas nem sempre isso é possível. “Muitas vezes o modelo mais discreto não funciona para a pessoa”, explicou a dra. Graziela.

Além disso, é preciso idas frequentes ao fonoaudiólogo, profissional indicado para fazer a adaptação, que também não é simples. “A pessoa testa, vê se gosta, testa outro, começa a usar e aí vai fazendo ajustes mais sutis. É um processo que pode ser longo”, contou a dra. Graziela.

Luísa relatou que precisou ir a vários fonoaudiólogos até encontrar um especialista que conseguisse ajudá-la. “Mesmo depois que achei [o profissional], tive que ir a várias consultas, e preciso voltar com frequência para fazer ajustes. É um custo alto mesmo, e tem que ter paciência.”

A dra. Graziela explicou que o médico que atende o paciente com frequência, como o pediatra, no caso das crianças, ou o geriatra, no dos idosos, pode auxiliar no processo de convencimento. “Faz diferença quando há apoio do médico que o paciente conhece e confia. Fica mais fácil a aceitação.”

O SUS fornece o aparelho, mas nem sempre dispõe dos modelos mais modernos. “Houve grande avanço em termos de legislação, no que se refere à política de atenção à saúde auditiva. Desde 2002, uma portaria ministerial, a Portaria 432, garante o fornecimento de próteses auditivas aos usuários. Recentemente, essa portaria foi alterada pelas portarias 587 e 589 e os usuários, além das próteses auditivas, têm direito ao acompanhamento terapêutico”, contou a fonoaudióloga Kátia.

 

*O nome foi trocado a pedido da entrevistada

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