Ômicron e as crianças | Artigo

Para evitar mortes entre as crianças e a disseminação da ômicron, é preciso imunizar as crianças contra a covid-19.

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

Ômicron e as crianças: menina recebe vacina contra a covid-19 de enfermiera

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Publicado em: 11 de janeiro de 2022

Revisado em: 27 de janeiro de 2022

Para evitar mortes entre as crianças e a disseminação da ômicron, é preciso imunizar as crianças contra a covid-19.

 

O coronavírus contra-ataca. Depois de dias mais calmos, voltamos a ter parentes e amigos com covid, fenômeno que se repete mundo afora.

Em Nova York, o número de casos aumentou mais de 400% em duas semanas. Nas capitais europeias em que a vida retornava à normalidade, a pandemia ganha força inesperada. Não se iluda, prezado leitor, o mesmo acontecerá aqui.

Veja também: Anvisa estabelece diretrizes para vacinação de crianças contra a covid-19

A razão para a retomada é o aparecimento da variante ômicron, que as mutações dotaram de duas características particulares: facilidade de transmissão e período de incubação mais curto.

Mesmo um otimista como este que vos escreve, é forçado a reconhecer que vem aí uma nova onda de infecções generalizadas. A diferença em relação às anteriores é que chega quando a maior parte da população está vacinada.

As vacinas, no entanto, foram aprovadas a partir de estudos nos quais demonstraram capacidade de evitar internações hospitalares e mortes. Não tiveram sua eficácia avaliada na prevenção das infecções pelo vírus. O esforço mundial é o de imunizar o maior número possível de pessoas, para impedir que desenvolvam as formas graves da doença e reduzir o risco de surgir variantes mais agressivas.

A presente onda nos atinge quando começávamos a respirar um pouco aliviados da pressão de quase dois anos de restrições, que nos afastaram dos familiares e amigos e das reuniões sociais que nos trazem prazer. Estamos cansados. Infelizmente, o vírus insiste em seguir o mandamento supremo da vida na Terra e em qualquer planeta em que ela exista ou venha a existir: “Crescei e multiplicai-vos”.

Embora a velocidade de disseminação da ômicron seja bem maior do que a das cepas anteriores, a proteção oferecida pelas vacinas vai evitar a disputa por leitos de UTI e respiradores mecânicos, característica da fase em que quase 3 mil brasileiros perdiam a vida todos os dias.

A covid está entre as dez principais causas de óbito dos 5 aos 11 anos e já tirou mais vidas do que a somatória de todas as mortes provocadas por doenças da infância para as quais existem vacinas.

O desafio agora será o da necessidade de afastamento dos profissionais de saúde da linha de frente, infectados por cepa tão contagiosa, ao lado dos que precisarão fazer quarentena por ter entrado em contato com eles. Quem cuidará dos doentes?

A demanda por atendimento médico dos pacientes com covid somada à daqueles com a gripe H3N2, que resolveu nos infernizar fora de época, explica o caos que bate à porta dos serviços de emergência.

Não fossem suficientemente graves esses problemas, temos que lidar com um presidente considerado negacionista, quando na verdade é um ativista empenhado de corpo e alma em disseminar a epidemia e a impedir que os brasileiros se vacinem. Como parte dessa estratégia, nomeou um general para o Ministério da Saúde cuja missão maior era a de obedecê-lo. Quando o desastre tornou inevitável sacrificar pessoa tão incompetente, procurou para o posto um médico que não tivesse escrúpulos nem vergonha de assumir o mesmo papel.

No ano passado, em obediência a ordens presidenciais, o general fez que não viu as sucessivas ofertas de vacinas da Pfizer. Só decidiu iniciar a imunização, quando seu superior percebeu que ficaria em desvantagem eleitoral com o governador de São Paulo. Mais tarde, no afã de lamber as botas do chefe, o ministro médico não ficou atrás: inventou a mentira de haver dúvidas sobre a segurança da vacina em adolescentes, com o objetivo de adiar ao máximo a imunização na faixa de 12 a 18 anos.

Agora, o mesmo ministro não se envergonha de criar a palhaçada de uma consulta pública para avaliar a necessidade de imunizar crianças de 5 a 11 anos.

Alega que as 301 dessa faixa etária que perderam a vida na epidemia constituem um “número aceitável” e defende que o tal público deve opinar sobre a conveniência de vacinar crianças, com uma preparação segura e eficaz, aprovada pelo FDA americano, pela Agência Europeia, pela nossa Anvisa e recomendada com ênfase pelo comitê de especialistas que assessora o ministério, por todas as sociedades médicas respeitadas e pela Academia Nacional de Medicina.

A covid está entre as dez principais causas de óbito dos 5 aos 11 anos e já tirou mais vidas do que a somatória de todas as mortes provocadas por doenças da infância para as quais existem vacinas.

Criar obstáculos para imunizar nossas crianças, no momento em que se dissemina uma variante tão contagiosa, é muito mais do que falta de escrúpulos, é crime. Que nome teria?

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