Epidemia dos cigarros eletrônicos

Os cigarros eletrônicos podem colocar em risco anos de campanhas bem-sucedidas de combate ao fumo no país. Leia no artigo do dr. Drauzio.

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

close em mão de adolescente segurando cigarro eletrônico. Os cigarros eletrônicos fazem mal à saúde

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Publicado em: 8 de junho de 2022

Revisado em: 8 de junho de 2022

Os cigarros eletrônicos podem colocar em risco anos de campanhas bem-sucedidas de combate ao fumo no país. Leia no artigo do dr. Drauzio.

 

Os cigarros eletrônicos estão criando uma legião de novos dependentes de nicotina. Vamos perder décadas de trabalho educativo no combate ao fumo.

Venho repetindo, nesta coluna e em outros espaços, que, descontada a escravidão, o cigarro foi o maior crime continuado da história do capitalismo internacional.

Veja também: Artigo do dr. Drauzio sobre cigarros eletrônicos

Que outro seria comparável ao de investir fortunas em publicidade, criar lobbies para corromper autoridades, pressionar financeiramente a imprensa para não divulgar os malefícios do fumo, contratar cientistas de aluguel para contestar as pesquisas que o ligavam ao câncer, às doenças cardiovasculares, pulmonares e a tantas outras que encurtam a vida dos usuários crônicos em pelo menos dez anos?

Essas ações criminosas foram perpetradas, no decorrer de décadas, com um único objetivo: tornar dependentes de nicotina crianças e adolescentes ingênuos e desinformados.

Fumei dos 17 aos 36 anos. Fiz parte de um contingente de cerca de 60% de brasileiros com mais de 15 anos daquele tempo. Como outros de minha geração, posso lhes dizer que começávamos a fumar sem ter noção de que nos tornaríamos dependentes químicos de uma droga psicoativa, causadora de uma das dependências mais escravizadoras que a medicina conhece.

O combate ao fumo começou a se estruturar em nosso país a partir dos anos 1970. Eram iniciativas isoladas, que partiam de algumas entidades apoiadas pelo Ministério da Saúde. As campanhas educativas só ganharam abrangência nacional, quando proibimos a propaganda nos meios de comunicação. Sem a possibilidade de subornar a mídia com campanhas milionárias, sobrou apenas aos fabricantes a oportunidade de fazer propaganda nos pontos de venda: padarias e bares nos quais exibem os maços em meio às balas e chocolates tão a gosto da criançada que eles pretendem viciar.

Enquanto nossos olhos estavam voltados para a pandemia do coronavírus, a indústria do fumo produziu em larga escala dispositivos para administrar nicotina, que viraram moda entre crianças e adolescentes.

O país realizou um grande esforço educacional para desconstruir a imagem criada pela publicidade perversa que associava o cigarro à liberdade, a mulheres lindas e homens maduros que faziam sucesso entre elas. Com perseverança conseguimos mostrar o que o fumo realmente é: um vício chinfrim que provoca hálito repulsivo, mau cheiro no corpo, tosse com secreção e pele com aparência doentia.

Hoje, pouco menos de 10% dos brasileiros com mais de 15 anos são fumantes. Fumamos menos do que nos Estados Unidos e do que em todos os países europeus. A OMS e as agências internacionais reconhecem o programa brasileiro de combate ao fumo como um dos melhores do mundo.

Com a queda nas vendas, as companhias foram atrás de outras estratégias para repor o número dos que se livram do cigarro e dos usuários crônicos que morrem por ter fumado.

A principal delas foi a de investir nas empresas que comercializavam cigarros eletrônicos. A desculpa seria a de reduzir danos: se o fumo causa tantos males, por que não fumar nicotina sem o alcatrão e outros compostos cancerígenos?

Os estudos nunca demonstraram que o impacto dos eletrônicos como método para chegar à abstinência foi significante, mas o sucesso entre os jovens do mundo inteiro é incontestável. Meninas e meninos, que jamais colocariam um cigarro na boca, aderiram em massa aos eletrônicos, com a mesma ingenuidade e desinformação dos meus 17 anos. A maioria acha que está fumando um vaporzinho inofensivo. Poucos sabem que se trata de vapor de nicotina em concentrações muito mais altas do que as do cigarro convencional.

Entre nós, o número dos que aderiram aos eletrônicos é assustador. Esta semana gravamos para o “Fantástico” um especial sobre o tema. Nas escolas, nas comunidades periféricas e nos bairros de classe média alta a prevalência dos eletrônicos é enorme. Estamos diante de uma epidemia que se alastra sem controle. Fumam nas baladas, nos bares, na rua, nos banheiros das escolas, em ambientes fechados na frente de crianças, grávidas e pessoas de idade, e até no quarto de casa sem que os pais percebam, porque os fabricantes acrescentam essências perfumadas para disfarçar o odor e atrair a criançada.

Enquanto nossos olhos estavam voltados para a pandemia do coronavírus, a indústria do fumo produziu em larga escala dispositivos para administrar nicotina, que viraram moda entre crianças e adolescentes. Sorrateiramente, como costumam agir os criminosos.

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