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Coluna da Mariana Varella

Polilaminina: é preciso cautela e rigor

A pesquisa com a polilaminina trouxe dúvidas de cientistas e pesquisadores que não significam um ataque pessoal à pesquisadora e sua equipe. Leia na coluna de Mariana Varella

mão de pesquisador com luva colocando lâmina no microscópio

Nos últimos dias, houve grande divulgação da pesquisa com a polilaminina, conduzida pela professora Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Como aqui não pretendo discutir o tema com detalhes, farei uma breve introdução para quem não conhece o assunto. A pesquisadora, que tem larga experiência em laboratório e pesquisa básica, desenvolveu estudos com ratos e cães e um estudo-piloto com 8 pacientes humanos com lesão medular completa, em quem se aplicou a polilaminina. Desses, dois morreram por outras causas, e seis obtiveram melhoras, sendo que um deles voltou a andar, segundo os pesquisadores.

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O estudo, que ainda não foi publicado e está em pré-print, trouxe esperança para pacientes com lesões medulares. No entanto, médicos e pesquisadores pedem cautela.

Isso porque há muitas dúvidas a respeito da segurança e da eficácia da polilaminina no tratamento de lesões medulares, e o fato não surpreende: estudos-piloto não servem para comprovar nem segurança nem eficácia de uma droga.

Participei, como um dos entrevistadores, do programa Roda Viva, da TV Cultura, que entrevistou a pesquisadora na noite de ontem (23/2). Dessa forma, gostaria de fazer algumas considerações a respeito do que foi dito e do que dizem médicos e pesquisadores com quem conversei.

 

Trabalho de pesquisa

Em primeiro lugar, julgo necessário dizer que, além de jornalista de saúde há muitos anos, também sou pesquisadora. Isso importa porque algumas situações que mencionarei aqui sobre ciência e pesquisa são e foram vividas por mim.

O trabalho de pesquisa, independentemente da área, é algo maçante e, muitas vezes, pouco recompensador. Gastam-se horas para levantar e analisar dados, para reunir e estudar a literatura científica da área, para participar de aulas, reuniões científicas e congressos. Perde-se tempo com a família, dinheiro e, não raro, saúde para, no fim de anos, apresentar uma pesquisa.

Quando isso é feito, é esperado que o pesquisador – e sua pesquisa – passe pelo escrutínio dos pares, o que significa responder dúvidas, questionamentos, observações. Nada disso é “agressivo” ou desrespeitoso. 

Que não haja dúvida: todo pesquisador quer que sua pesquisa seja bem-sucedida. Ninguém investe tempo, dinheiro e saúde para não dar certo no final.

E esse é um dos motivos para a existência do método científico, que varia de acordo com a área de pesquisa, mas é importante em qualquer pesquisa científica. O viés cognitivo, a que todos estamos sujeitos, não pode interferir nos resultados do trabalho.

Não importa se o pesquisador gosta da sua pesquisa, se ele crê nos dados que levanta, se ele acredita que ela vai dar certo. Toda pesquisa deve seguir o método científico e se basear nas melhores evidências.

Até o fim de todo o processo, há incertezas, por isso não é comum que pesquisadores divulguem dados iniciais ainda não submetidos a todos os estudos. Isso pode levar ao que estamos assistindo agora: judicialização, esperança em pacientes, desinformação e pressão política que podem comprometer a qualidade do trabalho.

Por isso, fico realmente preocupada quando vejo o trabalho da professora Tatiana sendo defendido em redes sociais como se fosse um time de futebol.

A maioria dos defensores não conhece as etapas a que deve ser submetida uma droga antes de ser aprovada para uso em seres humanos. Não leu o pré-print. Não conversou com especialistas. E, ainda assim, sente-se segura para acusar aqueles que pedem ponderação de detratores.

Isso é grave porque a ciência não deve ser tratada dessa forma. Não deve ser debatida com paixão.

Sim, há perguntas referentes à polilaminina que vêm sendo feitas por pesquisadores, médicos e jornalistas que cobrem ciência e saúde – e estudam pesquisas há anos, como meus colegas de bancada no Roda Viva e muitos outros – que precisam ser respondidas por testes clínicos de fase 1, 2 e 3. Perguntas e dúvidas que não significam ataque pessoal à pesquisadora ou à sua equipe e que são legítimas.

É preciso apoiar esta e outras pesquisas. Contudo, não é possível dizer que uma substância tem efeito terapêutico antes dos estudos de segurança e eficácia.

É isto que especialistas e pesquisadores estão pedindo a todos, incluindo leigos, imprensa e todo mundo que se preocupa com a forma como a pesquisa vem ganhando projeção: calma e rigor, pelo bem da própria pesquisa com a polilaminina, da ciência e da população.

 

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