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Coluna da Luana Viana

Desigualdade social está ligada ao aumento de casos de Alzheimer

Países de média e baixa renda concentram cerca de dois terços dos casos mundiais de demência e Alzheimer em todo o planeta. 
Publicado em 01/04/2025
Revisado em 01/04/2025

Países de média e baixa renda concentram cerca de dois terços dos casos mundiais de demência e Alzheimer em todo o planeta. A desigualdade social tem um papel importante nessa concentração de casos. 

 

O Alzheimer é um transtorno neurodegenerativo progressivo, potencialmente fatal, que afeta cerca de 1,2 milhão de brasileiros, e cerca de 55 milhões de pessoas em todo o mundo. A doença passa a ser mais comum a partir dos 65 anos e é considerada o principal tipo de demência, sendo responsável por aproximadamente 70% dos casos. 

Problemas de memória: dificuldade na fala, no raciocínio e na alimentação; desorientação no tempo e no espaço; alterações de humor e de comportamento; insônia; agitação; e mutismo são alguns dos sintomas característicos, que são divididos em três fases. 

Com o mundo ficando mais velho, os casos da doença podem chegar a 74,7 milhões em 2030 e 131,5 milhões em 2050, segundo estimativas da Alzheimer’s Disease International. Mas alguns países sofrerão mais do que outros. 

 

O que diz o novo estudo 

Foi publicada na revista científica “American Journal of Preventive Medicine” uma pesquisa que coletou dados sobre o Alzheimer em 204 países entre 1990 e 2021. O objetivo era entender se a desigualdade social estava relacionada ou não a um aumento de casos ao redor do globo. Para isso, o estudo levou em consideração dados socioeconômicos de diferentes regiões, como renda média populacional, nível de escolaridade e gastos públicos com saúde. 

O que se descobriu é que esses aspectos influenciam fatores demográficos, que por sua vez representam maior risco para o desenvolvimento ou agravamento do transtorno cognitivo. Por exemplo, se um país não investe em saúde, a população não consegue acessar serviços de cuidados ou de prevenção do Alzheimer. O acesso desigual à educação também resulta em diferenças na estimulação cognitiva ao longo da vida, um fator protetor contra a demência.

Em tradução livre, os pesquisadores concluíram que “o fardo da doença de Alzheimer e outras demências aumentou globalmente nas últimas três décadas, acompanhado por desigualdades crescentes entre países, afetando desproporcionalmente aqueles com alto desenvolvimento sociodemográfico. Aumentar os gastos com educação pode reduzir essa desigualdade”. 

O aumento de casos é uma preocupação mundial, mas o estudo corrobora o fato de que países de média e baixa renda concentram cerca de 2/3 dos casos mundiais de demência e Alzheimer em todo o planeta. O Portal Drauzio falou com mais detalhes sobre esse cenário aqui

 

Fatores de riscos para o Alzheimer

A idade avançada (acima dos 65 anos), histórico genético e familiar (pessoas com parentes de primeiro grau com Alzheimer, especialmente se houver variantes do gene APOE-e4) e sexo (mulheres também têm maior risco do que homens, possivelmente devido à longevidade e fatores hormonais), são fatores que risco que não podemos mudar. 

Porém, é preciso olhar para os fatores mutáveis, principalmente aqueles aos quais o estudo se refere. 

  • Acesso à educação e reserva cognitiva: Pessoas com menor nível educacional tendem a ter menor reserva cognitiva, ou seja, menos capacidade do cérebro de compensar os danos neurodegenerativos.
  • Condições socioeconômicas: Indivíduos de classes sociais mais baixas geralmente enfrentam piores condições de saúde, como maior incidência de hipertensão, diabetes e obesidade, que são fatores de risco para Alzheimer. A pobreza também dificulta o acesso a uma alimentação saudável, rica em nutrientes essenciais para a saúde do cérebro.
  • Acesso ao diagnóstico e tratamento: Em países e comunidades mais pobres, há menor disponibilidade de serviços de saúde especializados, levando a diagnósticos tardios ou errôneos.
  • Estresse e saúde mental: O estresse crônico e condições como depressão e ansiedade são mais comuns em populações vulneráveis, e ambos estão associados a um maior risco de demência. A precariedade do emprego e a insegurança financeira também aumentam os níveis de estresse ao longo da vida.
  • Diferenças regionais e raciais: Em muitos países, grupos racializados e populações de baixa renda têm maior prevalência da doença, não por fatores genéticos, mas devido a desigualdades sistêmicas. O acesso desigual a programas de saúde pública e prevenção agrava essa disparidade.

Veja também: Negros estão mais sujeitos ao Alzheimer

 

Nova política nacional para Alzheimer e outras demências

​Em junho de 2024, o Brasil instituiu a Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências através da Lei nº 14.878/2024. De acordo com a Agência Senado, o texto traz princípios e diretrizes para o tratamento da doença e determina que o Ministério da Saúde desenvolva campanhas de orientação e conscientização em clínicas, hospitais públicos e privados, postos de saúde, unidades básicas de saúde e unidades de pronto atendimento. 

Na prática, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito e multidisciplinar para pacientes com Alzheimer, assim como medicamentos e terapias nutricionais. 

Já no que diz respeito ao tratamento precoce, a política prevê ferramentas e capacitação para o diagnóstico oportuno da doença, por meio de avaliação clínica, exames laboratoriais e exames de imagem. Periodicamente, o Ministério da Saúde desenvolve campanhas para informar sobre as demências.

Com todas as informações que temos à nossa disposição, não desenvolver hoje políticas que possam cuidar dos cidadãos mais velhos (e aqueles que já estão chegando nessa idade) amanhã, é jogar com o próprio futuro do país. 

Veja também: Demências: fatores de risco, prevenção e sintomas

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