De quimioterapia à vacina: como os tratamentos oncológicos evoluíram com o tempo?

Se antes o diagnóstico era uma sentença de morte, o cenário mudou. Conheça a evolução dos tratamentos contra o câncer.

comprimidos e seringa sobre a palavra "cancer". Veja a evolução da quimioterapia adjuvante ou quimioterapia preventiva contra o câncer

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Publicado em: 01/12/2022

Revisado em: 14/12/2022

Veja a evolução dos tratamentos contra o câncer nas últimas décadas. 

 

Dentro da medicina, a oncologia foi uma das áreas que mais evoluiu nas últimas duas décadas, quando comparada a outras especialidades médicas, como a cardiologia, por exemplo. 

Desde então, técnicas cirúrgicas com o uso da robótica foram aprimoradas, e grandes avanços foram feitos com a chegada da chamada terapia-alvo – que utiliza anticorpos específicos para destruir apenas as células tumorais – e também da imunoterapia – que incita o sistema de defesa do próprio organismo a agir contra o tumor -, sem contar as tecnologias que ainda estão em fases de teste, como as vacinas. 

Se antes o câncer era visto como uma sentença de morte, com a chegada dessas novas tecnologias o cenário mudou. Além do aumento da sobrevida, os pacientes também têm mais qualidade de vida. 

 

Cirurgias mutiladoras: não mais!

Há cerca de 40 anos, o tratamento base (padrão-ouro) de qualquer tumor maligno eram as cirurgias. A grande questão é que elas podiam ser extremamente invasivas e mutiladoras, principalmente para as mulheres com câncer de mama, como recorda o dr. Drauzio Varella, que é médico oncologista, em um artigo para o jornal Folha de São Paulo

“Há quase 30 anos [hoje já são quase 50 anos], quando comecei a trabalhar no Hospital do Câncer de São Paulo, todas as mulheres com tumores malignos no seio eram obrigatoriamente submetidas à mastectomia radical, segundo a técnica de Halsted. Nesse procedimento, o cirurgião retirava a mama inteira junto com o músculo peitoral situado sob ela e esvaziava o conteúdo da axila para retirar os linfonodos (gânglios) aí localizados. Depois, encaminhava a doente para receber radioterapia na região operada, na axila e na fossa supraclavicular do mesmo lado, no intuito de eliminar qualquer foco de células malignas residuais nos linfonodos da região”. 

 

Metástase e quimioterapia

De lá pra cá, observou-se que, muitas vezes, o câncer se proliferava em locais distantes de onde havia se iniciado, formando as chamadas metástases. A partir da segunda metade do século 20, surgiu um método terapêutico importante, a quimioterapia, com as primeiras drogas para o tratamento do câncer que, injetadas na veia, distribuíam-se pelo corpo todo.

“Quimioterapia é um nome só para dezenas de medicamentos diferentes que agem inibindo a replicação celular. Ela, atualmente, é a base de muitos tratamentos oncológicos”, explica Rachel Riechelmann, head do Departamento de Oncologia Clínica do A.C.Camargo Cancer Center.

As drogas anti-hormônio também surgiram mais ou menos nessa época, pois descobriu-se que alguns tumores, como os de mama e próstata, por exemplo, crescem por ativação de determinados hormônios, como o estrogênio e a testosterona. 

“Pode-se dizer que a hormonioterapia foi uma das primeiras formas de terapia-alvo, pois o objetivo desse tratamento é a retirada desses hormônios de circulação”, complementa a dra. Riechelmann.

Veja também: Quimioterapia: medos e dúvidas | Entrevista

 

Imunoterapia já disponível no SUS

A oncologista Andreia Melo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), explica que a imunoterapia é uma técnica que consiste em estimular o sistema imunológico do paciente a reconhecer e destruir o tumor. 

“A imunoterapia mudou a conduta terapêutica de vários tipos de câncer, por aumentar a sobrevida dos pacientes. Por muitos anos, a dacarbazina, por exemplo, que é um tipo de quimio, era o tratamento de primeira linha para melanoma e mesmo não tendo muita eficácia, era a única opção. Com a imunoterapia, isso mudou”, conta.

A imunoterapia é uma técnica tão recente, que me lembro do entusiasmo do oncologista Fernando Buzaid, ao falar dessa opção terapêutica, no Congresso Todos Juntos pelo Câncer, em 2015. 

À época, o dr. Buzaid explicou a evolução da imunoterapia e como a técnica havia revolucionado a história do tratamento do melanoma (mesmo para casos avançados), um dos tipos de câncer de pele mais agressivos. 

O acesso ainda era restrito a centros oncológicos particulares, por ser um medicamento de alto custo. 

A rede pública de saúde só incorporou os imunoterápicos nivolumabe e pembrolizumabe (para tratamento de melanomas em estágio avançado não cirúrgico e metastático) cinco anos depois. 

Para se ter uma noção da importância dessa conquista, segundo o Instituto Melanoma Brasil, a chance de um paciente com melanoma metastático estar vivo em três anos com a quimioterapia oferecida pelo SUS era de 10% a 12%. Com a imunoterapia esse número pode chegar a 50%. 

Além da imunoterapia, outra terapia-alvo, surgida no início dos anos 2000, veio para mudar o cenário do tratamento oncológico. Ela basicamente consiste no uso de medicamentos direcionados para bloquear o crescimento e a disseminação do tumor. “É uma era da medicina ultra personalizada”, sintetiza a dra. Melo. 

 

Vacinas contra o câncer 

As vacinas contra o câncer também são uma promessa dos cientistas e pesquisadores para aumentar ainda mais as possibilidades de tratamento do câncer. Mas a proposta é diferente das vacinas que protegem contra agentes infecciosos e que tomamos em determinados momentos da vida, para evitar doenças infectocontagiosas. 

Aqui as vacinas serão individualizadas e terão como objetivo induzir uma resposta imune para que as células T (de defesa) do organismo do paciente consigam rastrear as células tumorais e eliminá-las. Já há estudos de fase 2 e 3 para vacinas contra o câncer colorretal, melanoma e tumores de cabeça e pescoço. 

Veja também: Quase metade das mortes por câncer é prevenível

 

Car-T

Por fim chegamos à era da terapia celular chamada Car-T, que vem revolucionando o tratamento dos tumores sanguíneos e até parece ficção-científica. Essa tecnologia é feita com células do sistema de defesa do organismo, especificamente os linfócitos T, que circulam no sangue. Eles são colhidos por meio de um processo de separação semelhante à hemodiálise, chamado aférese, congeladas e enviadas a um laboratório de altíssima tecnologia para manufatura do produto final.

Após a coleta de sangue dos pacientes, os especialistas isolam um tipo de leucócito (célula de defesa) conhecido como linfócito T, que é um dos principais responsáveis pela defesa do organismo. Essa célula é capaz de reconhecer antígenos de agentes infecciosos ou de tumores e desencadear mecanismos que provocam a morte da célula-alvo, defendendo o organismo. 

“De forma simplificada, as células geneticamente modificadas adquirem a capacidade de identificar e destruir as células cancerígenas, descobrindo onde estão os ‘inimigos’ que estavam enganando os mecanismos de resistência do sistema de defesa do paciente”, explica o médico hematologista Renato Cunha, líder de Car-T do Grupo Oncoclínicas.

 

Perspectivas da evolução dos tratamentos contra o câncer

Em termos de tecnologia, o Brasil não fica atrás de países europeus e dos Estados Unidos, por mais que esses tipos de drogas cheguem primeiro por lá. 

A questão por aqui é o enorme gargalo do acesso. Muitas vezes, para se conseguir acesso a drogas melhores e que ofereçam maiores possibilidades de cura, a única alternativa é participar de estudos clínicos. 

“Por isso a importância de se investir em pesquisa de qualidade, para que mais pacientes tenham acesso”, enfoca a dra. Riechelmann.

Enquanto o sistema de saúde privado detém praticamente todo tipo de tecnologia, o SUS ainda luta para incorporar determinados medicamentos que são comprovadamente benéficos ao paciente (no sentido de aumentar a sobrevida global). Com a demora da incorporação, cria-se um gargalo cada vez maior. 

“Além disso, o SUS ainda possui alguns problemas mais básicos que precisam ser sanados, como o tempo de demora para se iniciar o tratamento após o diagnóstico, acesso a exames de rastreamento”, reforça a dra. Melo, da SBOC. 

Veja também: Tratamentos alternativos para câncer: quais são os riscos?

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