Câncer nas favelas: 7 em cada 10 moradores não encontram médicos para consultas

A percepção e o tratamento do câncer nas favelas passa por inúmeras barreiras sociais. Conheça a realidade da doença nas periferias.


Equipe do Portal Drauzio Varella postou em Câncer

Oncoguia divulga pesquisa inédita sobre como o câncer é entendido nas favelas brasileiras e de como é urgente uma melhor atenção primária.

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Publicado em: 30/05/2023

Revisado em: 30/05/2023

Oncoguia divulga pesquisa inédita sobre como o câncer é entendido nas favelas brasileiras e de como é urgente uma melhor atenção primária.

 

O Oncoguia, organização sem fins lucrativos voltada a informar, apoiar e defender os direitos dos pacientes com câncer, apresentou, entre os dias 9 e 10 de maio, em Brasília, a pesquisa “Percepções e prioridades do câncer nas favelas brasileiras”, feita em parceria com Data Favela e o Instituto Locomotiva, durante o  13º Fórum Nacional Oncoguia. 

A pesquisa, que buscou entender quais dificuldades os moradores de favelas enfrentam na hora de prevenir e diagnosticar o câncer, contou com quase 3 mil entrevistas online em todo o Brasil, sendo 81% de pessoas negras e a mesma porcentagem das classes sociais D e E, 91% com escolaridade até o ensino médio e 82% usuários exclusivos do SUS. 

“Nas nossas discussões está sempre muito presente questões como desigualdade no acesso, falta de equidade no acesso e o quanto o mundo da oncologia hoje é outro. Mas para quem, né? Para quem, de verdade, esses avanços estão disponíveis? Porque existe uma diferença muito grande do que está disponível no SUS e no que está disponível na rede privada. Tem diferenças até dentro do próprio SUS. Então sempre nos perguntamos: como a gente chega mais perto de uma população completamente vulnerável? Não é só a dificuldade de acesso, são barreiras sócio-econômicas, culturais, são muitas barreiras”, diz Luciana Holtz, presidente e fundadora da Oncoguia.

Essas discussões e preocupações internas ganharam a forma de uma pesquisa quantitativa pelas mãos do Data Favela e o roteiro foi sendo construído em conjunto. “Não falamos com pacientes com câncer, e até teve alguns poucos, mas não era nossa intenção, porque queríamos mesmo falar com uma população leiga sobre o assunto. A pesquisa que a gente apresentou em maio em Brasília foi feita no início do ano e pensamos da seguinte forma: a questão do acesso à saúde em si; onde essa pessoa se cuida; como se cuida; como é a rotina para ela minimamente manter a saúde em dia; o que pensa sobre o câncer, mitos, desinformação; e barreiras em relação ao câncer”, explica Holtz.

Consistências muito reveladoras foram logo saltando aos olhos, afinal 82% levam até uma hora para chegar no posto de saúde, enquanto 73% dizem que até tentam cuidar da saúde, mas nunca tem médico no posto e os exames demoram muito, e 69% têm consciência da importância da prevenção, mas não têm acesso aos equipamentos adequados. “Pois é, o dado principal da pesquisa é que as pessoas não têm acesso à saúde. 7 em cada 10 dizem que vão procurar o médico e não tem médico. As pessoas estão pedindo mais acesso à saúde, e isso é um ponto central.”

A pesquisa mostra que junto do problema da falta de acesso existem também barreiras econômicas, sociais e culturais para um melhor cuidado com a saúde. “Dizem que se tivessem mais dinheiro se cuidariam melhor. Que se tivessem com quem deixar os filhos se cuidariam melhor. Ou que se não tivessem tanto medo do câncer se cuidariam melhor. O fato é que para quem tem menos, a gente tem que fazer mais. Tem que ter médico no posto sim, mas de repente tem que ter uma creche também perto. E tem que fazer uma conscientização com os patrões e chefes para que essa mulher seja liberada para fazer mamografia, por exemplo, e que nesse dia ela vai faltar no trabalho.”

Luciana Holtz diz que é preciso campanhas mais efetivas sobre o câncer, pois os entrevistados acham que campanhas são até mais necessárias que investimentos em saúde (77% ante 67%). “É preciso campanhas que cheguem lá, que conversem com as pessoas mesmo, que falem a língua delas. Não tem Outubro Rosa perto de mim, dizem as mulheres. Atualmente a gente só consegue algo potente quando aparece numa novela ou quando o dr. Drauzio faz matérias no ‘Fantástico’. Aí, assim, o assunto chega à casa dessas pessoas”, reflete.

As sugestões são muitas e variadas, desde espaços em serviços de saúde para tirar dúvidas sobre o assunto até campanhas de prevenção realizadas por figuras públicas/influencers digitais, passando por ações sociais, acompanhamentos realizados por ONGs e uma maior divulgação dos programas e ações governamentais existentes para prevenção e controle do câncer (em redes sociais, TVs, rádios, etc.). “Essas campanhas são muito necessárias porque acho que a percepção das pessoas em relação ao câncer mudou muito pouco nas últimas décadas. Ainda é a doença que mata, que você fica lá sozinho dez dias vomitando, sendo que nada disso existe mais. Mas é que essa nova percepção sobre o câncer ainda é restrita ao mundinho da Oncologia e de alguns poucos privilegiados na rede privada”, lamenta Holtz.

Tanto esse “mundinho” segue restrito quanto muitos mitos permanecem firmes no imaginário popular. Renato Meirelles, fundador do Data Favela e presidente do Instituto Locomotiva, destaca alguns deles: “São mitos como ‘o tabaco causa apenas câncer de pulmão’ ou ‘alimentos cozidos no forno micro-ondas provocam câncer’. Nas comunidades, 11% não sabem dizer se o câncer é contagioso e 19% acham que o câncer é ‘castigo divino’. Muitas vezes a informação não quer ser recebida pelas pessoas. É aquela história: ‘se eu não olhar, não existe’. Isso também reflete o histórico de experiências que essas pessoas tiveram com diagnósticos no círculo social, que acaba sendo muito negativa. Dos que responderam, 66% relataram ter parentes que morreram por câncer e 44% amigos que morreram por esse tipo de doença”, afirma.

“Fica bastante evidente que o SUS é central para salvar as vidas, mas devemos nos organizar para fazer uma busca ativa, não podemos esperar que as pessoas procurem a saúde. São trabalhadores autônomos, que não têm tempo nem acesso à estrutura de saúde, que vivem em desamparo. É preciso pensar que essa pessoa só aceitará que precisa de ajuda em estágios muito avançados. Esperamos que os dados ajudem a sensibilizar as autoridades públicas na busca de soluções”, completa Meirelles.

Para que isso aconteça, a pesquisa, que foi apresentada no 13º Fórum Nacional Oncoguia, que aconteceu de 9 a 11 de maio em Brasília, precisa chegar, por exemplo, no Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) e no Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde). “E, acima de tudo, nos municípios, nas secretarias municipais de saúde, que cuidam da atenção primária. A gente sabe e entende os desafios do gestor que está na ponta, mas podemos estar juntos para pensar e instrumentalizar esses achados. Porque são dados que gritam e da população que é a mais vulnerável da nossa sociedade. Fora que tem também um recorte de raça e, no mundo da oncologia, ter uma pesquisa que traz dados sobre raça e cor é fundamental. É um dado que raramente se coleta”, finaliza Holtz, que logo completa que “o mais importante é que essa é uma pesquisa que dá caminhos”.

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Sobre o autor: Dafne Sampaio é jornalista e analista de mídias sociais. Interessa-se por cultura, ciências, saúde, comunicação e, acima de tudo, pessoas.

 

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