Uma segunda vida, com velocidade

A corredora olímpica Liège Gautério não desistiu do esporte mesmo após ter que realizar um transplante de pulmão. Veja sua trajetória.


Equipe do Portal Drauzio Varella postou em Atividade física

Como um transplante pulmonar fez com que Liège Gautério se tornasse uma atleta e campeã olímpica.

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Publicado em: 26/04/2023

Revisado em: 18/05/2023

Como um transplante pulmonar fez com que Liège Gautério se tornasse uma atleta e campeã olímpica.

 

À beira de uma pista de corrida em Mar Del Plata, na Argentina, a gaúcha Liège Gautério, com 42 anos à época, não conseguia acreditar no que estava prestes a acontecer. “Quatro anos atrás estive tão perto da morte e agora vou correr 100 metros rasos numa competição mundial com um pulmão transplantado”, era só o que ela pensava, surpresa consigo mesma. “Antes da largada estava super nervosa, mas me concentrei e corri com todas as minhas forças. Faltando uns 10 metros não vi ninguém na minha visão periférica. Pensei, não é possível, não é possível. Resultado? Fui ouro nos 100 metros. Primeira participação feminina e primeiro ouro feminino do Brasil nos Jogos Mundiais de Transplantados. E ainda fui prata nos 200 metros.”

Foto: arquivo pessoal.

Hoje, aos 50 anos, Gautério buscou, mas infelizmente não conseguiu, a terceira medalha de ouro nos 100m rasos em mais uma edição dos Jogos Mundiais dos Transplantados, que acabou de acontecer em Perth, Austrália. Exatamente duas décadas depois que uma prosaica dor nas costas mudou sua vida para sempre. “Pensei que era algo muscular, que tinha dormido de mau jeito. Tinha 30 anos, super jovem. Fui para a academia, normal, e pensei que quando aquecesse na musculação ia melhorar. Nada, só piorava. E era ainda pior quando inspirava.”

Gautério ficou preocupada e partiu rumo à emergência do Hospital da Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Porto Alegre. “Cheguei lá, relatei o que estava acontecendo e pediram um raio-x de tórax. Quando voltei com o resultado a médica disse que tinha que ir para o bloco cirúrgico imediatamente, que era um pneumotórax, bolhas de ar no pulmão, e que tinha que drenar já.” Exames posteriores indicaram que a causa do pneumotórax era uma fibrose pulmonar, uma doença progressiva e sem cura. O melhor tratamento, e um dos poucos possíveis, seria um transplante de pulmão. Isso ocorreu em abril de 2003.

Formada em fonoaudiologia e biologia, e com pós-graduação em psicopedagogia, Liège Gautério sentiu o baque do diagnóstico, mas optou por levar uma vida normal. Além disso, decidiu concretizar um sonho antigo, formar-se em educação física. “A médica me desaconselhou porque com o avançar da doença, a tendência era ir perdendo o fôlego. Só que [fazer educação física] era o meu sonho, eu queria e fui. Fiz as práticas primeiro, enquanto ainda tinha energia, e deixei as teóricas para depois.” Então, por volta de 2009, começou a sentir falta de ar. Dois anos depois, pouco antes da formatura, passou a sentir muito cansaço com qualquer atividade, desde tomar banho até escovar os dentes.

“Foi aí que ‘entrei’ pro oxigênio 24 horas e consegui até um concentrador de oxigênio para ir na faculdade. Foi o auge da minha doença. Só nessa época entrei na lista de transplante”, conta. Isso aconteceu em abril de 2011, exatos oito anos após o diagnóstico de fibrose pulmonar. Em julho do mesmo ano, Gautério se formou e em setembro recebeu um novo pulmão. “No meu tipo de patologia dá para transplantar um só pulmão, o que, no meu caso, foi o esquerdo. Fui puxada para prioridade na lista por causa do meu estado de saúde, pois nessa época eu realmente estava para morrer. Mas antes ainda não estava nem tão mal para ser chamada para o transplante e nem tão bem para trabalhar e ter minha vida. Cheguei a torcer para piorar e assim me chamarem.”

 

Recuperação

A recuperação de Gautério foi surpreendentemente rápida, e apenas três meses após o transplante ela já estava de volta ao trabalho, aos exercícios e às aulas de pilates. Ela tem certeza que o fato de se exercitar desde a infância, de cuidar da saúde e se alimentar bem teve um papel fundamental na boa acolhida ao novo pulmão.

A dra. Luciana Haddad, médica cirurgiã formada pela Universidade de São Paulo (USP), vice-diretora da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), corredora e triatleta amadora, concorda com Gautério. “As pessoas que passam por um transplante vivem algumas fases em relação ao procedimento. Então tudo vai depender também da gravidade da doença prévia, do órgão, mas em geral, elas acabam em algum momento do pós-transplante tendo uma vida muito próxima da normalidade. Isso inclui a prática esportiva, que inclusive é recomendada para evitar complicações relacionadas aos imunossupressores, pois esses medicamentos que evitam a rejeição do órgão transplantado dão muitos efeitos adversos, tais como pressão alta e diabetes”, explica.. 

A normalidade não era o bastante para Gautério, e seus olhos brilharam quando, cerca de três anos após o transplante, um amigo lhe contou sobre os Jogos Mundiais para Transplantados. A próxima edição do evento, que existe desde 1978, iria acontecer pertinho de Porto Alegre, na argentina Mar Del Plata, em agosto de 2015. “Achei interessante, fui pesquisar mais e entrei em contato com a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos para saber como me inscrever. Queria conversar com alguém que já tivesse ido e descobri que nunca uma mulher brasileira tinha participado desses jogos. Só homens. Se eu fosse, seria a primeira. Foi aí que me animei mais ainda.”

Ela começou a treinar 100m e 200m rasos, relembrando das provas de velocidade dos tempos de colégio, e já estava feliz só de participar e poder ajudar a divulgar a causa da doação de órgãos. Nunca nem sonhou com uma medalha de ouro. Muito menos que, entre os treinos e o ouro, ainda teria de lidar com um câncer de mama. “A minha médica já queria me operar. Falei… espera, deixa eu voltar desse mundial. A gente acabou chegando a um acordo. Um mês depois que voltei, já com o ouro, operei.”

Foto: arquivo pessoal.

Detalhe importante: Gautério não podia fazer radioterapia, para não correr o risco de ter fibrose pulmonar (um possível efeito adverso) em seu único pulmão. A solução foi fazer uma mastectomia radical na mama esquerda, e então não precisaria recorrer a radioterapia (só medicação oral por cinco anos). “Em 2020 terminei meu tratamento para o câncer de mama, mas continuo fazendo todos os acompanhamentos.”

Nesse meio tempo se tornou bicampeã mundial dos 100m, bronze nos 200m e competiu no salto em distância, em 2017 (Málaga, Espanha); e ainda levou bronze nos 100m, em 2019 (Newcastle, Inglaterra). Os jogos de 2021 foram cancelados pela pandemia, então agora ela se sentia ainda mais pronta para o terceiro ouro nos 100m, e quem sabe algo também nos 200m e no salto em distância. No entanto, à caminho do estádio, Liège torceu o joelho e as medalhas ficaram distantes (mesmo assim conseguiu um quarto lugar nos 100m rasos).

“A Liège é paciente do nosso serviço, faz acompanhamento comigo e com os demais colegas da equipe. Com certeza, sua prática regular de atividade física foi chave no sucesso do transplante pulmonar”, diz o dr. Douglas Nascimento, pneumologista membro do corpo clínico do Pavilhão Pereira Filho e coordenador clínico da equipe de transplante pulmonar da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. “Logo após o transplante, a prática de atividade física é importante para recondicionamento físico e recuperação da funcionalidade e da debilidade causada pela doença crônica que levou ao transplante, sobretudo no transplante pulmonar”, explica.

Foto: arquivo pessoal.

Mas os benefícios da atividade física não param por aí. “Tem ainda ganho de massa muscular; disciplina; melhora da função do órgão transplantado e da função cárdio-pulmonar; redução nos níveis de colesterol e da gordura corporal; aumento na densidade óssea, evitando fraturas; redução do processo inflamatório que pode levar a doenças cardiovasculares; redução do risco de infecções, de rejeição e de disfunção precoce dos órgãos transplantados”, completa e complementa o dr. Nascimento. “Mas para que tudo isso aconteça, é importante nunca descuidar da hidratação e da alimentação adequadas e evitar suplementações. Também é aconselhado evitar esportes de contato pelo maior risco de lesões, evitar ambientes inóspitos, temperaturas extremas e atividades extenuantes.” 

Liège Gautério só quer continuar olhando para a pista de corrida com aquele misto de euforia e espanto que sentiu em Mar Del Plata, em 2015. “Ainda me impressiona como o transplante fez com que eu reescrevesse minha história. Se não fosse o transplante, eu provavelmente nunca seria uma atleta. Não sei até quando participarei dos mundiais, mas quero continuar no esporte, levantando a bandeira da doação de órgãos. E também trabalhando com educação física para transplantados, escrevendo artigos, fazendo estudos, vivendo”, finaliza. 

Foto: arquivo pessoal.

Veja também: Como funciona o transplante de órgãos entre pessoas vivas?

 

Sobre o autor: Dafne Sampaio é jornalista e analista de mídias sociais. Interessa-se por cultura, ciências, saúde, comunicação e, acima de tudo, pessoas.

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