Muitas mulheres estão tão focadas em outros aspectos da vida que não sentem falta de sexo. Mesmo assim, vão ao consultório médico, pressionadas por seus parceiros, em busca de um tratamento que não terá sucesso, já que o que sentem é apenas ausência do desejo.
Tradicionalmente, é o desejo que dá início à resposta sexual humana. Tanto em homens quanto em mulheres, ele pode surgir espontaneamente ou ser estimulado por algo visual, tátil, olfativo ou até uma lembrança.
Em seguida, vem a excitação: a pressão arterial, a temperatura corporal e as frequências cardíaca e respiratória aumentam associadas à ereção no homem e à lubrificação vaginal na mulher. Se tudo correr bem, acontece o orgasmo, uma sensação de prazer intenso.
A última etapa é a resolução, isto é, o relaxamento pós-orgásmico. O corpo libera hormônios como endorfina, oxitocina, dopamina e serotonina, que geram sensação de bem-estar e, muitas vezes, provocam sonolência.
Resposta sexual linear e resposta sexual circular
O grande problema é que essa sequência não acontece na mesma ordem para homens e mulheres. Enquanto a lógica linear — desejo, excitação, orgasmo e resolução — é muito mais característica do homem, para as mulheres, o processo tende a ser circular.


“Rosemary Basson, pesquisadora canadense, propôs o modelo circular da resposta sexual feminina. Ela observou que, em relações recentes, existe desejo espontâneo, que leva à excitação; e depois o desejo responsivo, culminando em satisfação com ou sem orgasmo. A intimidade emocional pode ser o ponto máximo da experiência”, explicou Carmita Abdo, psiquiatra, sexóloga e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), durante o Brain 2025. O Congresso Brain, Behavior and Emotions, realizado este ano em Fortaleza (CE), reuniu diversos especialistas em saúde mental e neurociências.
A especialista acrescentou que, por ter uma resposta sexual mais lenta, a mulher pode ter várias distrações no percurso — um bebê chorando, uma lembrança desagrável, uma fala infeliz do(a) parceiro(a). Mas, se for novamente estimulada, ela pode retomar o ciclo.
“Em relacionamentos longos, o desejo espontâneo tende a desaparecer. A mulher passa a responder a estímulos antes de sentir desejo. E isso é funcional, não uma disfunção”, diferenciou Carmita.
Quando é disfunção sexual feminina?
A disfunção sexual na mulher é a incapacidade de participar do relacionamento sexual com satisfação. O diagnóstico exige ausência de desejo, bloqueio ou dor em uma ou mais etapas de resposta sexual e sofrimento pessoal ou do casal por pelo menos seis meses.
Entre os fatores de risco, estão:
- Oscilações hormonais, como as que acontecem durante a puberdade, gravidez, amamentação, climatério e menopausa;
- Transtornos psicológicos, como ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e transtornos psicóticos;
- E o uso de determinados medicamentos, especialmente os que atuam no sistema nervoso central.
É comum culpar os antidepressivos, mas, ainda que a escolha desses medicamentos deva considerar o impacto sobre a libido, existem diversos outros que também podem levar a uma disfunção. Mesmo assim, tratar a depressão é prioritário, já que não há sexualidade saudável sem estabilidade emocional.
“A chave para o tratamento está no sistema nervoso central. A sexualidade feminina deve ser abordada de forma psicossocial e, quando necessário, farmacológica. Ainda não há consenso sobre o melhor medicamento, mas há certeza sobre a importância da psicoterapia”, pontuou a psiquiatra.
Veja também: O que pode causar a perda de libido? – Vamos Falar #16




