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Cirurgias de feminização e masculinização da voz: conheça os procedimentos de mudança vocal para pessoas trans

Na tentativa de alinhar a voz à identidade de gênero, pessoas trans têm recorrido a cirurgias disponíveis também no SUS

Cirurgias de feminização e masculinização da voz vêm ganhando espaço no debate sobre saúde integral da população trans, especialmente por seu impacto direto na qualidade de vida, na autoestima e na inclusão social. Diferentemente da terapia fonoaudiológica isolada, esses procedimentos atuam diretamente na anatomia da laringe, modificando comprimento, tensão e massa das pregas vocais, fatores que determinam a frequência da voz.

 

Como as cirurgias funcionam?

As cirurgias de feminização e masculinização da voz atuam diretamente na laringe, estrutura responsável pela produção do som. “As cordas vocais funcionam de forma muito parecida com uma corda de violão. Quanto mais longa e tensa a corda, mais grave é o som. Quanto mais curta, mais agudo”, afirma Rui Imamura, otorrinolaringologista do Hospital Sírio-Libanês.

Essa diferença explica, por exemplo, por que homens cisgêneros (que se identificam com o gênero masculino atribuído no nascimento) tendem a ter vozes mais graves. 

“A laringe do homem cresce mais durante a puberdade, o que resulta em uma corda vocal mais comprida”, explica o médico. Já em mulheres cis (que se identificam com o gênero feminino atribuído no nascimento) e crianças, as pregas vocais são mais curtas, produzindo sons mais agudos.

 

Cirurgias de feminização da voz

As cirurgias de feminização vocal buscam elevar o pitch vocal, que corresponde ao tom da voz, tornando-a mais aguda. Atualmente, a técnica considerada mais estável é a glotoplastia de Wendler.

Segundo o dr. Rui, o procedimento atua reduzindo o comprimento da parte da corda vocal que efetivamente vibra durante a produção do som. “Na prática, damos pontos diretamente na corda vocal, fazendo com que apenas uma porção menor dela participe da vibração”, esclarece. Como estruturas mais curtas produzem sons mais agudos, essa limitação eleva o pitch da voz.

Um ponto importante da técnica é que ela preserva o funcionamento do músculo cricotireóideo, responsável pela modulação da voz. “Como o músculo que regula a tensão continua funcionando, a paciente mantém a capacidade de modular a voz, o que traz mais naturalidade à fala”, completa.

Além disso, o fato de os pontos serem feitos diretamente na prega vocal torna o resultado mais durável. “Como o ponto é dado dentro da corda vocal, a tensão é menor do que quando se mexe na cartilagem por fora. Por isso, é mais difícil o ponto arrebentar ou o resultado se perder com o tempo.”

Outra técnica historicamente utilizada é a aproximação cricotireóidea, que simula cirurgicamente a contração do músculo responsável por esticar as pregas vocais. No entanto, segundo o dr. Rui, esse método caiu em desuso nos principais centros. “Ela deixa a corda vocal permanentemente esticada. A paciente perde a capacidade de modulação e o resultado pode se perder ao longo do tempo”, explica. 

 

Cirurgias de masculinização da voz

Na masculinização vocal, o raciocínio é inverso. “Eu não tenho como criar uma corda vocal maior do que a natureza deu”, diz o especialista. Por isso, a estratégia não é aumentar o comprimento, mas reduzir a tensão das pregas vocais.

A técnica indicada nesses casos é a tireoplastia tipo III, que atua no arcabouço da laringe. “É como afrouxar a tarracha de um violão. Quando você afrouxa a corda, o som fica mais grave”, compara.

Durante o procedimento, uma faixa da cartilagem tireoide é removida. Com isso, a corda vocal deixa de ficar tão esticada. “Mesmo que o comprimento vibratório diminua um pouco, essa corda passa a ter mais massa por unidade vibratória. E é isso que faz a voz ficar mais grave”, detalha.

Veja também: Serviços de saúde voltados à população trans no Brasil

 

Resultados possíveis e limites anatômicos

Apesar de permanentes, as cirurgias têm limites bem definidos. “Com a glotoplastia de Wendler, é possível subir cerca de 70 Hz. Com a tireoplastia tipo III, é possível descer de 20 a 100 Hz — depende muito da frequência antes da cirurgia”, afirma Guilherme Catani, professor adjunto de Otorrinolaringologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e médico do Hospital de Clínicas da UFPR, Hospital IPO (Curitiba/PR), Hospital Paulista (São Paulo/SP) e Hospital Beatriz Ramos (Indaial/SC).

Bruno Rossini, otorrinolaringologista com mestrado e fellowship pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), reforça a importância de alinhar expectativas. “É fundamental gerenciar expectativas. A anatomia laríngea impõe limites: não transformamos um ‘baixo’ em ‘soprano’ sem sacrificar a qualidade vocal.”

 

Fonoaudiologia e pós-operatório 

Um ponto de consenso entre os especialistas é que a cirurgia, sozinha, não garante um resultado satisfatório. “A fonoaudiologia pós-operatória é uma etapa obrigatória porque a cirurgia altera a estrutura e a fisiologia da laringe, mas não reorganiza automaticamente o padrão funcional da voz”, explica o dr. Guilherme. Ele resume a diferença entre os dois processos: enquanto a cirurgia muda a mecânica, a fonoaudiologia ensina o paciente a usar essa nova mecânica corretamente.

Negligenciar essa etapa pode trazer consequências importantes. Entre os riscos listados pelo especialista, estão: perda parcial ou total do ganho de frequência (feminização) ou da queda de frequência (masculinização); formação de padrões compensatórios prejudiciais; e risco de lesões vocais secundárias, incluindo: nódulos, edema crônico, inflamação persistente e alterações cicatriciais desfavoráveis. Também pode haver impacto funcional e emocional, como fadiga vocal e limitação no uso profissional da voz e frustração com o resultado, segundo o médico. 

Na mesma linha, o dr. Bruno reforça que a cirurgia não substitui a fonoaudiologia. Para ele, a percepção de gênero na voz vai além do pitch da voz (timbre da voz): “Ela envolve ressonância, prosódia (melodia da fala), entonação e articulação.” Sem esse trabalho, o resultado pode soar artificial: “Se uma mulher trans opera, mas continua usando uma ressonância faríngea (‘voz de peito’) e padrões de fala masculinos, a voz soará artificial.”

O pós-operatório exige disciplina rigorosa. Segundo o dr. Guilherme, os pacientes podem ter alta no mesmo dia, mas é necessário repouso vocal por sete dias na tireoplastia tipo III e de 15 dias na glotoplastia. Já o dr. Bruno descreve esse período como desafiador e destaca: “O paciente deve ficar em silêncio total (sem falar, sem sussurrar) por um período que varia de 7 a 15 dias.”

 

Possíveis complicações das cirurgias

As possíveis complicações variam conforme a técnica. Na tireoplastia tipo III, dr. Guilherme cita desde infecção, sangramento ou hematoma até limitações funcionais, como redução da capacidade de projeção vocal e perda temporária da extensão vocal aguda. 

Na glotoplastia, ele alerta para alterações da qualidade vocal (rouquidão/disfonia) e para o risco de resultado vocal insatisfatório, especialmente em pacientes com condições prévias das pregas vocais.

É nesse contexto que especialistas reforçam a importância de uma decisão cuidadosamente compartilhada. Para o dr. Rui, o ponto central dessas intervenções é o acompanhamento interdisciplinar desde a indicação até o pós-operatório. “O mais importante nesse tipo de cirurgia é a decisão ser feita com uma equipe multidisciplinar. A gente está falando de uma mudança definitiva, que impacta identidade, comunicação e qualidade de vida.”

No Hospital Sírio-Libanês, as cirurgias de modificação vocal integram o Núcleo de Cuidados em Saúde da Pessoa Trans, que atua com abordagem multidisciplinar e protocolos específicos de acolhimento. A iniciativa reúne diferentes especialidades, promove discussões clínicas periódicas e garante atendimento integral, incluindo respeito ao nome social e à identidade de gênero.

 

Acesso pelo SUS 

No Brasil, esses procedimentos fazem parte da política pública de saúde. Em nota, o Ministério da Saúde informa que “como parte do processo de ampliação e qualificação da atenção à saúde da população trans, o SUS realiza cirurgias de feminilização e masculinização vocal para pessoas trans”. Hospitais como o Hospital Estadual Leonardo da Vinci, em Fortaleza (CE), e o Hospital Universitário Professor Edgard Santos, em Salvador (BA), por exemplo, realizam procedimentos como a glotoplastia. Ainda segundo a nota, “os procedimentos são realizados com base nas diretrizes do Processo Transexualizador e nas normas assistenciais vigentes do SUS, que preveem atuação multiprofissional com acompanhamento fonoaudiológico no pré e no pós-operatório, conforme indicação clínica.”

A ampliação desse cuidado, segundo a pasta, também envolve a Rede Ebserh, com hospitais universitários em processo de habilitação para atender no âmbito do Processo Transexualizador.

Veja também: Direitos disponíveis no SUS para pessoas LGBTQIAPN+

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