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Saúde pública

Agentes de saúde: conheça Misael Canela, agente de saúde indígena maranhense que também é tradutor e intérprete

Jovem agente da etnia Canela, Misael vê melhorias no cotidiano do seu trabalho, mas alerta para os problemas de saúde decorrentes da entrada de alimentos enlatados

Misael Canela, 34 anos, é da aldeia Escalvado, município de Fernando Falcão, no Maranhão. Segundo o censo mais recente, esta aldeia da etnia Canela tem cerca de 3.400 pessoas, e Misael foi escolhido com 100% de aprovação para ser agente de saúde dez anos atrás. 

“Isso me deu um incentivo maior porque o cargo de agente de saúde é uma escolha da comunidade. E meu perfil deu certo. Fui escolhido pela necessidade que eles tinham também de um porta-voz, porque sou ainda tradutor e intérprete”, conta.

 

Rotina de trabalho e os desafios enfrentados nas aldeias 

A equipe de agentes de saúde indígena é composta por Misael e mais seis profissionais ao total, afinal de contas, Escalvado é uma das maiores aldeias do Estado. A área de Misael, por exemplo, possui 83 famílias e 368 pessoas (em 2016, quando entrou, eram 57 famílias e 267 pessoas). 

“Teve mais natalidade do que mortalidade. Aumentou bastante, graças a Deus. Por outro lado, estamos com dificuldade de controlar a entrada de produtos enlatados. E a tecnologia, a internet, acaba estimulando esse consumo. Porque é isso, a desnutrição caiu, mas hipertensão, diabetes e obesidade aumentaram. Mais pessoas sedentárias.”

Para cuidar de grandes e pequenas demandas de saúde, Misael usa uma combinação de remédios tradicionais com a medicina do “homem branco”. “Isso é passado de geração em geração e temos uma confiança muito grande na nossa cultura, por isso, quando uma criança está com diarreia ou pneumonia, a primeira opção é o pajé, só depois vem a medicina do branco”, relata. 

Falando em “coisas de branco”, o alcoolismo segue como um problema antigo entre os mais velhos, desde os tempos que Bastião, o ex-chefe do posto, trazia bebidas alcóolicas para a aldeia. “De lá para cá, perdemos o controle. Tem um impacto tão grande que nem o cacique tem esse controle de controlar. Isso é em todas as aldeias que já trabalhei ou visitei. Felizmente não chega ao ponto de ter gente dormindo na rua ou violência doméstica.”

Veja também: Como os Agentes de Saúde colaboram com o tratamento para diabetes?

 

A situação melhorou, mas ainda há muito o que fazer

Em dez anos de trabalho, Misael viu muita coisa melhorar tanto nos índices de saúde quanto nas condições de trabalho, mas vê ainda muito espaço para evoluir. A contratação de mulheres agentes de saúde, por exemplo, “porque aqui só temos profissionais homens e temos esse tabu, se você é homem não pode fazer certas perguntas para mulheres. Tem coisas que a gente não pode perguntar, porque a cultura não permite que a gente fale isso”, afirma. 

Também é preciso aumentar a cota de medicamentos porque o que chega não dá conta da demanda, não cobre toda a comunidade; e aumentar também a cota de combustível por causa das grandes distâncias e estradas ruins. Isso sem falar em maior reconhecimento e possibilidade de capacitação.

 

Assista ao documentário Drauzio e os Agentes:

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